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Ciência

Cabras viveram por 200 anos e serão estudadas pela Embrapa

Após séculos vivendo sem água doce em uma ilha remota, animais exóticos despertam o interesse de cientistas pela incrível capacidade de adaptação a ambientes extremos.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Pesquisadores da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) e da Embrapa vão estudar um rebanho de cabras retirado da Ilha de Santa Bárbara, no arquipélago de Abrolhos, no sul da Bahia. Os animais, que viveram isolados por mais de dois séculos sem acesso direto a fontes de água potável, serão analisados por sua resistência biológica — considerada uma oportunidade valiosa para o desenvolvimento de soluções em regiões semiáridas.

Retirada das cabras e impacto ambiental

A operação de remoção dos caprinos foi coordenada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e concluída em março de 2024. As cabras, que chegaram à ilha durante o período colonial, foram introduzidas por navegadores como uma reserva alimentar. Ao longo de mais de 200 anos, tornaram-se parte da fauna local, sobrevivendo mesmo em um ambiente sem água doce.

Contudo, sua presença causava sérios impactos ambientais. Segundo o ICMBio, os animais comprometiam a vegetação e o solo da Ilha de Santa Bárbara, além de interferirem na reprodução de aves marinhas. Entre elas está a grazina-do-bico-vermelho, espécie ameaçada que mantém ali sua maior colônia no país.

As ações de erradicação seguiram um plano de manejo elaborado em 2023 e foram realizadas em parceria com a Marinha do Brasil, Embrapa, Uesb e a Adab (Agência de Defesa Agropecuária da Bahia). Ao todo, 27 animais foram retirados em três expedições realizadas desde janeiro.

Conservação e regeneração ecológica

A remoção das cabras é parte de um esforço mais amplo de preservação ambiental do arquipélago de Abrolhos, o primeiro parque marinho do Brasil, criado em 1983. A região abriga a maior e mais diversa formação de recifes de corais rasos do país, e é um dos mais importantes berçários de vida marinha do Atlântico Sul.

Com a retirada dos animais exóticos, especialistas esperam uma regeneração natural da vegetação nativa e o retorno da estabilidade ecológica, sobretudo nas áreas de reprodução das aves marinhas. A Marinha, que mantém presença permanente na ilha de Santa Bárbara, afirmou que, com os recursos modernos e apoio logístico regular, não há mais necessidade de manter caprinos como fonte de alimento.

Estudo genético e quarentena

Das 27 cabras retiradas, 21 foram levadas ao campus da Uesb em Itapetinga, onde permanecem em quarentena. Elas estão isoladas de outros rebanhos para evitar exposição a doenças e parasitas do continente. De acordo com os pesquisadores, os animais representam um “tesouro genético” por sua adaptação extrema à escassez hídrica.

Segundo o professor Ronaldo Vasconcelos, do curso de zootecnia da Uesb, os estudos iniciais buscam identificar características únicas no DNA das cabras. A hipótese é que mutações genéticas específicas tenham permitido a sobrevivência dos animais em condições ambientais extremas, o que pode trazer avanços relevantes para a criação em regiões áridas.

Potencial para o semiárido brasileiro

Se confirmada a singularidade genética, Embrapa e Uesb pretendem desenvolver um plano de conservação e aproveitamento desse material biológico. A proposta inclui a ampliação do rebanho, o armazenamento de sêmen e embriões e, futuramente, a distribuição para produtores rurais que atuam em áreas com escassez de água.

A criação de cabras é uma das principais atividades econômicas em regiões como a Caatinga, e, em muitos casos, representa a única fonte de proteína animal para famílias de baixa renda. A introdução de genes mais resistentes pode fortalecer a segurança alimentar e a resiliência econômica dessas comunidades, especialmente diante das mudanças climáticas que tornam o semiárido cada vez mais seco.

Contribuição para a ciência e sustentabilidade

A pesquisa com as cabras de Abrolhos não apenas contribui para a conservação de uma linhagem animal rara, como também reforça a importância da biodiversidade como aliada no enfrentamento dos desafios ambientais e sociais. A resistência desenvolvida ao longo de dois séculos de isolamento pode se transformar em uma ferramenta valiosa para promover práticas sustentáveis e adaptadas à nova realidade climática do país.

Com o avanço dos estudos, espera-se que os resultados tragam benefícios diretos à agropecuária de regiões vulneráveis e ampliem o conhecimento científico sobre mecanismos de adaptação em mamíferos domésticos.

[Fonte: Canal Rural]

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