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Ciência

Chile enfrenta seca histórica e constrói barragem de 80 milhões de metros cúbicos com empresa chinesa

Depois de anos de escassez de água, o Chile investe em uma grande obra para proteger sua agricultura. Mas especialistas alertam que existe um desafio além da construção.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Imagine uma região onde a chuva diminui durante anos, os rios perdem força e milhares de agricultores passam a depender de reservas cada vez menores. Essa situação se tornou realidade no Chile, que enfrenta uma crise hídrica considerada excepcional até mesmo em uma perspectiva de mil anos. Agora, o país aposta em uma gigantesca estrutura para armazenar água. O projeto promete transformar a agricultura local, mas também levanta uma pergunta: será suficiente?

Uma seca histórica mudou a relação do Chile com a água

Desde 2010, a região central do Chile enfrenta um período prolongado de escassez de chuvas que ficou conhecido como megasseca.

O fenômeno chamou a atenção dos cientistas por sua intensidade e duração.

Em 2017, uma pesquisa liderada pelo climatologista René Garreaud mostrou que as precipitações ficaram entre 25% e 45% abaixo dos níveis habituais durante anos consecutivos.

As consequências foram profundas.

Em determinadas áreas, as vazões dos rios, os volumes armazenados em reservatórios e os níveis das águas subterrâneas registraram reduções de até 90%.

Ao comparar esses dados com reconstruções climáticas obtidas por meio dos anéis de crescimento das árvores, os pesquisadores identificaram um episódio excepcional no contexto dos últimos mil anos.

Diante desse cenário, armazenar água durante períodos chuvosos tornou-se uma prioridade estratégica.

Uma das respostas é o reservatório Zapallar, localizado na região de Ñuble, no centro-sul chileno.

A obra busca garantir maior disponibilidade de água para a agricultura e reduzir a vulnerabilidade de comunidades que dependem das chuvas.

Uma obra aguardada há quase 70 anos promete beneficiar milhares de agricultores

O reservatório está sendo construído na comuna de El Carmen, no vale do rio Diguillín.

Quando estiver concluído, terá capacidade para armazenar aproximadamente 80 milhões de metros cúbicos de água.

O principal objetivo é permitir a irrigação de cerca de 10 mil hectares de terras agrícolas em El Carmen e San Ignacio.

A expectativa é beneficiar mais de 2 mil produtores rurais.

Segundo informações oficiais, mais de 84% desses agricultores possuem propriedades com menos de cinco hectares, o que destaca a importância do projeto para a agricultura familiar.

A infraestrutura também poderá contribuir para o abastecimento de água potável em períodos críticos, o controle de cheias e o combate a incêndios florestais.

O investimento na barragem é estimado em aproximadamente US$ 158 milhões.

Entretanto, considerando os canais e demais estruturas de distribuição, o sistema completo poderá alcançar US$ 300 milhões.

As obras começaram formalmente em fevereiro de 2026, com prazo previsto de 1.620 dias para execução.

A expectativa é que o reservatório entre em operação em 2030.

Uma empresa estatal chinesa está por trás da construção

A responsabilidade pela obra ficou com a China International Water & Electric Corporation (CWE), empresa estatal chinesa especializada em infraestrutura hidráulica e energética.

A companhia integra o conglomerado China Communications Construction Company e executa o projeto para a Direção de Obras Hidráulicas do Ministério de Obras Públicas chileno.

A participação chinesa, entretanto, possui limites definidos.

A CWE será responsável pela construção, mas não será proprietária do reservatório nem administrará seus recursos hídricos.

O projeto também reflete a presença crescente de empresas chinesas em grandes obras latino-americanas, incluindo rodovias, portos, hidrelétricas e barragens.

Embora a construção represente um avanço importante, especialistas alertam que a infraestrutura não resolve automaticamente os problemas de disponibilidade de água.

O grande problema é que uma barragem não consegue produzir chuva

Para Gabriel Caldés, integrante do Conselho de Políticas de Infraestrutura do Chile, o reservatório é necessário, mas insuficiente para garantir a segurança hídrica regional.

O primeiro desafio é simples: um reservatório só consegue fornecer água se houver volume suficiente para abastecê-lo.

Em um cenário climático marcado por secas prolongadas e chuvas irregulares, não existe garantia de que a bacia hidrográfica receberá sempre a quantidade necessária.

Outro problema envolve a eficiência da irrigação.

Se os sistemas de distribuição apresentarem perdas elevadas, parte da água armazenada poderá ser desperdiçada antes de chegar às plantações.

Por isso, especialistas defendem a modernização dos canais, tecnologias de irrigação eficientes e monitoramento hidrológico em tempo real.

Também é necessário considerar os impactos ambientais.

Barragens modificam o fluxo dos rios e podem afetar ecossistemas, exigindo acompanhamento permanente e medidas de proteção.

O projeto chileno revela um desafio que outros países também enfrentam

A experiência do Chile ilustra uma questão cada vez mais importante para regiões sujeitas à escassez hídrica.

Grandes reservatórios podem ajudar a enfrentar períodos secos, proteger atividades econômicas e oferecer maior previsibilidade ao abastecimento.

Entretanto, sua eficácia depende das condições climáticas, da conservação ambiental e da maneira como a água é distribuída.

O reservatório Zapallar poderá representar uma transformação significativa para milhares de agricultores.

Mas seu sucesso não será medido apenas pela quantidade de água que consegue armazenar.

O verdadeiro desafio será garantir que esse recurso seja utilizado de forma eficiente, equilibrada e sustentável durante as próximas décadas.

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