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Ciência

O gelo da Groenlândia guardou um segredo por milênios: a humanidade começou a contaminar o planeta com mercúrio há 4 mil anos

Quando se fala em poluição, a Revolução Industrial costuma ocupar o centro da discussão. Mas um novo estudo internacional revela que a influência humana sobre os níveis de mercúrio da atmosfera começou muito antes. Registros preservados no gelo da Groenlândia mostram que nossas atividades já deixavam marcas ambientais há cerca de 4.000 anos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A ideia de que a poluição humana é um fenômeno relativamente recente acaba de sofrer um importante abalo. Uma equipe internacional de cientistas descobriu que as emissões de mercúrio causadas pela atividade humana começaram milhares de anos antes da Revolução Industrial, remontando à Idade do Bronze. A conclusão surge a partir da análise de um núcleo de gelo extraído na Groenlândia, que preservou um registro detalhado da atmosfera terrestre ao longo de milênios.

O estudo, publicado na revista Science Advances, foi liderado por pesquisadores do Instituto de Química Física Blas Cabrera, ligado ao Conselho Superior de Pesquisas Científicas da Espanha (CSIC), em colaboração com cientistas do Canadá, Dinamarca e Itália. O trabalho oferece uma das reconstruções mais completas já realizadas sobre a presença de mercúrio na atmosfera ao longo da história humana.

Um arquivo climático preservado no gelo

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© Alberto Restifo – Unsplash

Para entender como os níveis de mercúrio mudaram ao longo do tempo, os pesquisadores analisaram um núcleo de gelo com cerca de 1.250 metros de profundidade retirado da Groenlândia. Camada após camada, esse gelo funciona como uma espécie de arquivo natural, registrando partículas e substâncias presentes na atmosfera em diferentes períodos.

Os dados obtidos cobrem praticamente todo o Holoceno, período geológico iniciado há cerca de 11.700 anos e que corresponde à época em que a civilização humana se desenvolveu. Isso permitiu aos cientistas observar não apenas as mudanças naturais do planeta, mas também os impactos gerados pelas atividades humanas ao longo de milhares de anos.

Segundo os pesquisadores, a riqueza e a continuidade desse registro tornam o estudo uma referência importante para compreender a evolução da poluição atmosférica em escala global.

A origem da contaminação remonta à Idade do Bronze

Os resultados surpreenderam até mesmo os cientistas envolvidos no trabalho. De acordo com Ari Feinberg, principal autor da pesquisa, existe uma percepção generalizada de que a humanidade começou a alterar significativamente o meio ambiente apenas nos últimos dois séculos. No entanto, os dados contam uma história muito diferente.

As primeiras emissões humanas de mercúrio identificadas pelos pesquisadores datam de aproximadamente 4.000 anos atrás. Elas podem estar associadas ao refinamento de minerais utilizados na produção de cobre e estanho, matérias-primas fundamentais para a fabricação do bronze.

Outra possível fonte é o cinábrio, um mineral rico em mercúrio amplamente utilizado na antiguidade como pigmento vermelho e também em práticas medicinais e rituais. Evidências arqueológicas encontradas em sítios funerários da Península Ibérica mostram que algumas populações da época apresentavam concentrações elevadas desse metal no organismo.

Esses indícios sugerem que a relação da humanidade com o mercúrio é muito mais antiga e intensa do que se imaginava.

A Revolução Industrial acelerou um processo já em andamento

Embora a poluição por mercúrio tenha começado há milênios, os dados mostram que ela se intensificou de forma progressiva ao longo da história.

Os registros da Groenlândia indicam que a deposição de mercúrio aumentou cerca de 2,7 vezes desde o século XIII. A transformação mais dramática, porém, ocorreu a partir de 1840, quando a expansão industrial levou a um crescimento de aproximadamente 7,4 vezes nos níveis registrados.

O estudo também conseguiu distinguir a contaminação causada por atividades humanas dos picos naturais provocados por grandes erupções vulcânicas. Entre os eventos identificados estão as famosas erupções dos vulcões Laki, na Islândia, e Novarupta, no Alasca, que deixaram marcas claras nas camadas de gelo.

Por que o mercúrio continua sendo uma ameaça

O mercúrio é considerado um dos contaminantes mais preocupantes para a saúde humana. Quando liberado no ambiente, ele pode entrar na cadeia alimentar e se acumular em organismos vivos, especialmente em peixes de grande porte, como o atum.

A exposição prolongada está associada a problemas neurológicos, cardiovasculares e ao comprometimento do desenvolvimento infantil. Por esse motivo, diversos países aderiram ao Convenção de Minamata, acordo internacional em vigor desde 2017 que busca reduzir o uso e as emissões desse metal tóxico.

Para os autores da pesquisa, compreender quando as emissões humanas realmente começaram é essencial para aperfeiçoar os modelos climáticos e ambientais utilizados atualmente. Além disso, o conhecimento pode ajudar a medir com maior precisão os resultados das políticas globais voltadas à redução da poluição.

Mais do que revelar um capítulo pouco conhecido da história ambiental do planeta, o estudo reforça uma constatação importante: a influência humana sobre a Terra começou muito antes das fábricas, dos motores a vapor e das chaminés industriais. As marcas dessa relação estavam congeladas na Groenlândia havia milhares de anos, esperando para serem descobertas.

 

[ Fonte: as ]

 

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