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Ciência

Chimpanzés bebem álcool todos os dias — e nunca ficam bêbados

Frutas fermentadas fazem parte da dieta diária desses primatas, que chegam a consumir doses equivalentes a uma ou duas bebidas humanas. O segredo? Um mecanismo fisiológico que metaboliza o etanol com eficiência, revelando conexões evolutivas surpreendentes entre chimpanzés e humanos.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Eles comem frutas maduras caídas no chão da floresta, aparentemente sem perceber que estão ingerindo álcool todos os dias. O novo estudo, publicado na revista Science Advances, mostra que chimpanzés de Uganda e da Costa do Marfim consomem etanol em quantidade significativa, mas seguem ativos e sociáveis, sem apresentar sinais de embriaguez.

A descoberta no coração da floresta

Pesquisadores acompanharam comunidades de chimpanzés nos parques nacionais de Ngogo (Uganda) e Taï (Costa do Marfim). Eles coletaram 21 espécies de frutas logo após os animais as manipularem e comerem. As análises mostraram concentrações médias de 0,31% a 0,32% de etanol por peso da fruta.

Como os chimpanzés ingerem diariamente de 5% a 10% do próprio peso em frutas — cerca de 4,5 quilos para um animal adulto —, isso representa aproximadamente 14 gramas de etanol puro por dia. A quantidade equivale a uma ou duas doses padrão para humanos.

Por que eles não se embriagam?

Os chimpanzés sempre despertaram fascínio por sua semelhança com os humanos em aspectos sociais, comportamentais e cognitivos.
© Unsplash

Durante as observações de campo, os animais permaneceram coordenados, sociáveis e ativos mesmo após comer frutas ricas em álcool. Nenhum sinal de embriaguez foi registrado. A explicação está em uma enzima chamada ADH4, que tanto humanos quanto chimpanzés possuem em versão ativa.

Essa enzima acelera a metabolização do etanol antes que ele alcance a corrente sanguínea em níveis capazes de causar intoxicação. Ou seja, embora ingiram álcool todos os dias, os chimpanzés processam rapidamente a substância e evitam os efeitos da embriaguez.

Um elo evolutivo com os humanos

A descoberta fortalece a chamada hipótese do “macaco bêbado”, proposta em 2014 pelo biólogo Robert Dudley, da Universidade da Califórnia em Berkeley. Segundo ela, os ancestrais comuns de humanos e chimpanzés consumiam regularmente frutas fermentadas, transmitindo às gerações futuras uma predisposição biológica para tolerar — e até buscar — o álcool.

Embora a hipótese tenha sido recebida com ceticismo por primatólogos na época, os novos dados fornecem evidências diretas de que a ingestão de frutas com etanol faz parte do comportamento natural dos chimpanzés na vida selvagem.

Debate sobre o álcool na natureza

O estudo reacende uma discussão antiga: os chimpanzés procuram ativamente frutas mais fermentadas ou apenas selecionam as mais doces, que por acaso contêm mais etanol? Os próprios autores reconhecem que essa dúvida ainda não foi resolvida.

Para avançar, a equipe coletou amostras de urina de chimpanzés e encontrou metabólitos de álcool, confirmando a exposição constante, mas em níveis baixos e bem tolerados. Os próximos passos incluem ampliar o trabalho de campo em outras populações de primatas e investigar se existe preferência intencional por frutos com mais álcool.

Impactos mais amplos da pesquisa

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© Pexels – Francesco Ungaro.

Além de explicar um aspecto pouco conhecido da dieta dos chimpanzés, a pesquisa ajuda a entender como diferentes espécies de animais frugívoros interagem com o etanol natural. No caso dos humanos, pode revelar pistas sobre a origem da relação cultural e biológica com o consumo de bebidas alcoólicas.

O estudo também reforça que a presença de álcool na dieta não é, por si só, um fator de risco. Enquanto em humanos o uso abusivo de bebidas está associado a mais de 200 doenças, segundo a OMS, os chimpanzés parecem ter desenvolvido uma estratégia evolutiva de convivência com a substância sem danos aparentes.

 

Chimpanzés da África ingerem diariamente frutas fermentadas com álcool em doses equivalentes a uma ou duas bebidas humanas, mas nunca ficam bêbados. Graças à enzima ADH4, metabolizam o etanol com rapidez. A descoberta sugere um elo evolutivo com os humanos e reacende o debate sobre a origem da relação com o álcool.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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