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Ciência

Chimpanzés começaram a matar antigos companheiros — e a ciência tenta entender por que grupos antes unidos entraram em guerra

Um estudo surpreendente revela que uma comunidade de chimpanzés na África se dividiu e passou a atacar seus próprios ex-integrantes. O fenômeno, raro e difícil de explicar, pode oferecer pistas inquietantes sobre a origem dos conflitos humanos.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante mais de duas décadas, um grupo de chimpanzés em Parque Nacional de Kibale viveu de forma relativamente estável. Conhecidos como chimpanzés de Ngogo, eles formavam a maior comunidade selvagem já estudada. Mas algo mudou — e de forma drástica.

Desde 2018, após uma divisão interna, o grupo passou a protagonizar episódios de violência extrema. O que mais intriga os pesquisadores não é apenas a agressividade, mas o fato de que os ataques são direcionados a antigos companheiros.

De comunidade unida a conflito interno

Os chimpanzés de Ngogo foram estudados por mais de 30 anos por equipes científicas. Durante os primeiros 20 anos, a comunidade cresceu e se fortaleceu. Com mais indivíduos, o grupo conseguia dominar territórios vizinhos, garantir mais alimento e aumentar suas taxas de sobrevivência e reprodução.

Mas esse sucesso trouxe consequências.

Com o crescimento populacional — que chegou a ultrapassar 200 indivíduos — aumentaram também a competição por comida e parceiros. Em 2015, começaram a surgir tensões internas. Três anos depois, a comunidade se dividiu em dois grupos distintos.

Esse tipo de separação permanente é extremamente raro entre chimpanzés. Estudos genéticos indicam que eventos assim podem ocorrer apenas uma vez a cada vários séculos.

O início de uma violência incomum

Após a divisão, o grupo menor — conhecido como grupo Oeste — passou a atacar sistematicamente o grupo maior, chamado grupo Central.

Até agora, pelo menos 24 chimpanzés foram mortos, incluindo machos adultos e filhotes.

A violência em si não é novidade entre chimpanzés. Eles são conhecidos por atacar grupos rivais. O que surpreende os cientistas é o alvo: antigos membros da própria comunidade, com quem conviveram por toda a vida.

Segundo o pesquisador John Mitani, esse tipo de comportamento é difícil de compreender até para quem acompanha esses animais há décadas.

Por que isso está acontecendo?

Ainda não há uma resposta definitiva, mas os pesquisadores apontam alguns fatores possíveis.

O primeiro é o tamanho do grupo. Quando comunidades ficam grandes demais, a competição interna aumenta, tornando a divisão uma forma de reduzir conflitos por recursos.

Outro elemento pode ter sido a mudança na hierarquia social. A ascensão de um novo macho alfa em 2015 coincidiu com o aumento das tensões. Mudanças nesse tipo de estrutura costumam alterar alianças e relações dentro do grupo.

Além disso, a morte de alguns machos adultos importantes pode ter desestabilizado o equilíbrio social, eliminando indivíduos que ajudavam a manter a coesão do grupo.

Um comportamento ainda mais estranho

Há um detalhe que torna o caso ainda mais intrigante: apenas um dos grupos ataca.

Mesmo sendo numericamente superior no início do conflito, o grupo Central praticamente não reagiu. Essa falta de retaliação desafia o que se esperaria de chimpanzés em situações semelhantes.

Para os cientistas, esse comportamento levanta novas perguntas sobre dinâmica social, medo, estratégia e organização dentro das comunidades.

O que isso pode dizer sobre os humanos

Embora chimpanzés não tenham cultura, religião ou identidade étnica — fatores frequentemente associados a conflitos humanos — o caso sugere que disputas podem surgir a partir de relações sociais básicas.

De acordo com Aaron Sandel, coautor do estudo, rivalidades, alianças e mudanças nas relações interpessoais podem ser mais importantes do que grandes divisões culturais.

Essa hipótese abre espaço para uma reflexão: conflitos humanos talvez tenham raízes mais profundas e simples do que costumamos imaginar.

O antropólogo Luke Glowacki também aponta que processos evolutivos podem desempenhar um papel central na forma como conflitos surgem e se desenvolvem.

Uma diferença fundamental entre humanos e chimpanzés

Apesar das semelhanças evolutivas, há uma diferença importante.

Os humanos desenvolveram uma capacidade única de cooperação em larga escala. Mesmo em um mundo com bilhões de pessoas, conseguimos viver juntos na maior parte do tempo sem conflitos diretos constantes.

Para Mitani, essa característica é um dos pontos que diferenciam profundamente humanos e chimpanzés — e talvez uma das maiores esperanças diante de um cenário global cada vez mais polarizado.

Um estudo que levanta mais perguntas do que respostas

Publicado na revista Science, o estudo não oferece conclusões definitivas. Em vez disso, revela a complexidade das relações sociais — tanto em chimpanzés quanto em humanos.

O que antes parecia uma comunidade estável mostrou que, sob certas condições, alianças podem se romper e dar lugar a conflitos inesperados.

E talvez a principal lição seja essa: entender a origem da violência exige olhar menos para grandes causas abstratas e mais para as relações que construímos no dia a dia.

 

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