A hepatite B é uma das doenças infecciosas mais persistentes do planeta. Embora existam vacinas altamente eficazes para prevenir a infecção e medicamentos capazes de controlar o vírus, a maioria dos pacientes com formas crônicas precisa manter o tratamento por tempo indeterminado.
Agora, uma nova pesquisa pode representar um marco histórico na luta contra a doença.
A farmacêutica GSK divulgou os resultados de dois grandes estudos de fase III envolvendo o medicamento experimental bepirovirsen. Os dados mostram que uma parcela dos pacientes conseguiu manter o vírus indetectável por meses após interromper completamente o tratamento, algo que os especialistas classificam como uma “cura funcional”.
O que é a hepatite B crônica?
A hepatite B é causada por um vírus que ataca o fígado e pode ser transmitido pelo contato com fluidos corporais infectados, incluindo relações sexuais e transmissão de mãe para filho durante o parto.
Na maioria dos adultos, a infecção é eliminada naturalmente pelo organismo após algumas semanas ou meses.
Entretanto, em cerca de 5% dos casos, o vírus permanece no corpo e se transforma em uma infecção crônica.
Quando isso acontece, o dano ao fígado continua silenciosamente durante anos. Com o tempo, podem surgir complicações graves, como cirrose, insuficiência hepática e câncer de fígado.
Segundo estimativas globais, cerca de 254 milhões de pessoas conviviam com hepatite B crônica em 2022. Aproximadamente um milhão de mortes são atribuídas à doença todos os anos.
Como funciona o bepirovirsen
O bepirovirsen pertence a uma nova classe de medicamentos desenvolvida para atacar diretamente a produção de proteínas virais essenciais para a sobrevivência do vírus.
Diferentemente dos antivirais convencionais, que apenas mantêm a replicação viral sob controle, o objetivo dessa abordagem é reduzir drasticamente a presença do vírus até níveis em que o sistema imunológico consiga manter a infecção sob controle sozinho.
Os estudos incluíram 1.838 pacientes com hepatite B crônica que já utilizavam tratamento antiviral.
Durante seis meses, aproximadamente dois terços dos participantes receberam doses semanais de bepirovirsen, enquanto o restante recebeu placebo.
Resultados que chamaram atenção dos especialistas
Os resultados foram considerados animadores.
Após 48 semanas de acompanhamento, os pacientes que mantinham níveis indetectáveis do vírus tiveram autorização para interromper os tratamentos convencionais.
Seis meses depois, na semana 72 do estudo, cerca de 19% dos participantes tratados com bepirovirsen continuavam sem sinais detectáveis do vírus no sangue, mesmo sem qualquer medicação adicional.
No grupo placebo, nenhum participante alcançou esse resultado.
Esse estado é conhecido pelos pesquisadores como cura funcional, uma situação em que o vírus permanece controlado sem necessidade de tratamento contínuo.
Embora o material genético viral possa ainda existir em pequenas quantidades dentro do organismo, a infecção deixa de causar danos significativos e não volta a se manifestar clinicamente.
Segurança e efeitos colaterais
Os pesquisadores relataram que os efeitos adversos observados foram, em geral, leves e bem tolerados.
Entre os sintomas mais comuns estavam vermelhidão e dor no local das injeções.
Alguns participantes também apresentaram aumento temporário de enzimas hepáticas, um sinal que pode indicar irritação ou lesão no fígado. No entanto, esses episódios foram monitorados pelos médicos e não impediram a continuidade dos estudos.
Os resultados completos foram publicados no prestigiado New England Journal of Medicine, uma das revistas médicas mais importantes do mundo.
Ainda não é uma cura para todos
Apesar do entusiasmo, os especialistas alertam que o bepirovirsen não representa uma cura universal.
A maior parte dos pacientes tratados não alcançou a cura funcional observada em aproximadamente um quinto dos participantes.
Além disso, ainda não está claro se o medicamento terá a mesma eficácia em pessoas com estágios mais avançados da doença ou com características clínicas diferentes das avaliadas nos ensaios.
Os pacientes que responderam ao tratamento também continuarão sendo acompanhados por vários anos para confirmar que o vírus permanece controlado de forma duradoura.
O início de uma nova era no tratamento da hepatite B
Mesmo com essas limitações, os pesquisadores consideram os resultados históricos.
Pela primeira vez, um medicamento demonstrou de forma consistente que alguns pacientes com hepatite B crônica podem interromper completamente o tratamento e continuar sem sinais detectáveis da infecção.
Especialistas acreditam que essa descoberta pode abrir caminho para versões mais avançadas da terapia, capazes de beneficiar um número ainda maior de pessoas.
A GSK já iniciou processos regulatórios nos Estados Unidos, Europa e Ásia. Nos EUA, o medicamento está sendo analisado em um programa acelerado da FDA, e uma decisão sobre sua aprovação é esperada para os próximos meses.
Se receber autorização, o bepirovirsen poderá marcar o início de uma transformação profunda no tratamento da hepatite B, oferecendo algo que até pouco tempo parecia inalcançável: a possibilidade real de viver sem o vírus e sem a necessidade de medicamentos para o resto da vida.