As relações comerciais entre a China e a União Europeia entraram em um novo capítulo de tensão. O governo chinês anunciou a imposição de tarifas elevadas sobre laticínios europeus, alegando que subsídios concedidos pelo bloco prejudicam a indústria local. A decisão surge em meio a uma sequência de medidas retaliatórias ligadas à disputa em torno dos veículos elétricos e ao crescente desequilíbrio comercial entre as duas potências econômicas.
Tarifas provisórias e produtos afetados

O Ministério do Comércio da China informou que as novas tarifas provisórias variarão entre 21,9% e 42,7% e entrarão em vigor já nesta semana. A medida atinge uma ampla cesta de produtos lácteos importados da União Europeia, incluindo leite, nata com teor de gordura superior a 10% e diferentes tipos de queijo, como fresco, processado e queijo azul.
Segundo o governo chinês, a decisão se baseia em conclusões preliminares de uma investigação iniciada em agosto de 2024, período em que as tensões comerciais entre Pequim e Bruxelas se intensificaram.
Investigação e acusações de subsídios
De acordo com o Ministério do Comércio, a apuração analisou subsídios concedidos pela UE e por Estados-membros a seus produtores de laticínios. Entre os programas examinados estão os incentivos da Política Agrícola Comum e apoios nacionais oferecidos por países como Itália, Irlanda e Finlândia.
As autoridades chinesas afirmam que essas práticas teriam causado danos à indústria láctea da China, justificando a aplicação dos novos gravames como uma forma de proteção ao mercado interno.
Retaliação ligada aos veículos elétricos

A medida é amplamente vista como parte de um movimento de retaliação. Nos últimos meses, a União Europeia concluiu uma investigação sobre subsídios chineses à indústria de veículos elétricos e decidiu impor tarifas de até 45,3% sobre carros elétricos fabricados na China.
Em resposta, Pequim passou a abrir investigações sobre diferentes produtos europeus, incluindo brandy, carne suína e agora laticínios. O governo chinês também tem pressionado Bruxelas a reverter os impostos aplicados aos veículos elétricos chineses, alegando práticas comerciais injustas.
Reação da Comissão Europeia
A Comissão Europeia, responsável pela política comercial do bloco, reagiu com preocupação. O porta-voz Olof Gill afirmou que a investigação chinesa se baseia em alegações frágeis e provas insuficientes.
Segundo Gill, a Comissão considera as tarifas “injustificadas e injustificáveis” e já está analisando os fundamentos da decisão. Bruxelas pretende apresentar observações formais às autoridades chinesas e manter o diálogo aberto para tentar evitar uma escalada maior do conflito.
Um histórico recente de medidas comerciais
Os laticínios não são o único alvo das ações chinesas. Na semana passada, Pequim anunciou tarifas de até 19,8% sobre importações de carne suína da UE, percentuais inferiores aos inicialmente cogitados. A China acusou produtores europeus de dumping, ao vender carne e subprodutos a preços artificialmente baixos.
Em julho, o governo chinês também anunciou tarifas de até 34,9% sobre o brandy europeu, incluindo o conhaque francês, embora algumas marcas tenham obtido isenções parciais.
Comércio desequilibrado no centro do debate
O pano de fundo dessa disputa é o crescente desequilíbrio comercial entre China e União Europeia. O bloco europeu registra um déficit expressivo na relação com Pequim, que no ano passado superou 300 bilhões de euros.
Autoridades europeias afirmam que seguem comprometidas com relações comerciais e de investimento estáveis com a China, mas ressaltam que isso depende de avanços concretos em temas sensíveis, como excesso de capacidade industrial, uso de instrumentos comerciais considerados desleais e o próprio déficit comercial.
Um conflito longe do fim
Analistas avaliam que a troca de tarifas e investigações indica uma disputa estrutural, e não apenas circunstancial. Em um cenário global marcado por tensões geopolíticas e competição tecnológica, a relação entre China e União Europeia tende a continuar instável.
Enquanto isso, setores como o agrícola e o automotivo acabam no centro do embate, com impactos diretos para produtores, exportadores e consumidores dos dois lados.
[ Fonte: Infobae ]