Poucos recursos naturais exercem tanta influência sobre a economia mundial quanto o ouro. Considerado um ativo de segurança em períodos de incerteza, o metal precioso continua atraindo investidores, governos e empresas em todo o planeta. No entanto, por trás desse mercado altamente valorizado existe uma realidade paralela que movimenta cifras impressionantes e desafia os mecanismos de fiscalização. Um novo levantamento revelou a dimensão desse fenômeno na América do Sul e acendeu um alerta sobre seus impactos econômicos, ambientais e sociais.
O mercado que cresce nas sombras enquanto o ouro bate recordes
À medida que o valor do ouro alcança novos patamares nos mercados internacionais, uma atividade paralela vem expandindo sua influência em diversos países sul-americanos. A mineração ilegal deixou de ser um problema localizado para se transformar em uma operação de grande escala, capaz de movimentar bilhões de dólares todos os anos.
Em várias regiões do continente, a mineração continua sendo uma importante fonte de emprego, renda e desenvolvimento econômico. Porém, ao lado das operações regulamentadas, existem redes que atuam fora da legislação, explorando áreas remotas e comercializando o minério sem controle estatal.
Esse cenário desperta preocupação crescente entre especialistas, autoridades e organismos internacionais. Além da evasão fiscal, a atividade está frequentemente associada ao desmatamento, à contaminação de rios e ao fortalecimento de organizações criminosas que encontraram nesse mercado uma fonte altamente lucrativa de financiamento.
Foi justamente nesse contexto que um estudo divulgado em 2025 trouxe números que chamaram atenção. Segundo o levantamento do Instituto Peruano de Economia (IPE), um único país concentra cerca de 44% de todo o ouro ilegal exportado pela América do Sul.
Os dados indicam que as exportações ligadas a essa atividade podem atingir aproximadamente US$ 12 bilhões em um único ano. O valor impressiona porque se aproxima das receitas geradas pela própria mineração formal em algumas regiões.
Para os pesquisadores, isso demonstra que a mineração ilegal deixou de ocupar uma posição secundária e passou a representar uma estrutura econômica robusta, com capacidade de operar através de cadeias complexas de extração, transporte e comercialização.

Como o ouro ilegal chega ao mercado internacional
O crescimento desse mercado não acontece por acaso. Diversos fatores ajudam a explicar sua expansão nos últimos anos.
O principal deles é o aumento contínuo do preço internacional do ouro. Quanto mais valorizado o metal se torna, maior é o incentivo econômico para grupos informais explorarem novas áreas de extração.
Outro elemento importante é a dificuldade de fiscalização em regiões de acesso remoto. Muitas áreas produtoras estão localizadas em zonas de floresta, montanhas ou territórios extensos onde a presença do Estado é limitada, tornando o monitoramento muito mais complexo.
Além disso, investigações apontam que organizações criminosas passaram a diversificar suas fontes de receita. Em muitos casos, a mineração ilegal se tornou tão lucrativa quanto outras atividades ilícitas tradicionalmente associadas ao crime organizado.
Um dos aspectos mais preocupantes está justamente na capacidade dessas redes de inserir o minério na cadeia formal de comercialização. Especialistas afirmam que parte do ouro extraído ilegalmente é misturada à produção legal ou comercializada por meio de empresas de fachada, dificultando a identificação de sua origem.
Depois de entrar no circuito oficial, o metal segue para refinarias e centros de processamento localizados em diferentes partes do mundo, incluindo Ásia, Europa e Oriente Médio.
Embora países como Brasil, Colômbia, Bolívia e Venezuela também enfrentem desafios relacionados à mineração ilegal, o Peru aparece atualmente como o principal polo dessa atividade na região. O destaque está ligado tanto à tradição histórica da mineração no país quanto à presença de áreas particularmente vulneráveis, como Madre de Dios, região que sofreu profundas transformações ambientais ao longo dos últimos anos.
O estudo também reforça que o problema vai muito além das perdas econômicas para os governos. O ouro ilegal se transformou em uma importante fonte de financiamento para estruturas criminosas que atuam em diferentes países da América do Sul, fortalecendo uma cadeia que cresce impulsionada pela demanda global e pelos preços recordes do metal.
E isso responde ao título: o lado oculto do ouro movimenta bilhões porque a mineração ilegal se expandiu a níveis sem precedentes, transformando-se em uma atividade econômica de grande escala que desafia governos, alimenta redes criminosas e acompanha o crescimento da demanda mundial pelo metal precioso.