A corrida por minerais estratégicos entrou em uma nova fase. Após o anúncio de uma reserva bilionária para garantir o abastecimento de matérias-primas vitais, os Estados Unidos passaram a mirar projetos fora de seu território — e o Brasil surge como um dos principais alvos. Com iniciativas em terras raras e lítio já em análise, o movimento revela como a geopolítica dos recursos naturais vem se intensificando, especialmente diante da tentativa americana de reduzir a dependência asiática.
Projeto Vault mira cadeia global de minerais críticos
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US to launch Project Vault, a $12 Billion critical mineral stockpile for US companies meant to reduce reliance on Chinese suppliers. $MP $USAR $CRML $UAMY pic.twitter.com/T1EoueWted
— LuxAlgo (@LuxAlgo) February 2, 2026
A iniciativa, batizada de Projeto Vault, foi anunciada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, e prevê a criação de uma reserva estratégica de minerais críticos com aporte inicial de US$ 10 bilhões do EXIM Bank — o banco estatal americano voltado ao financiamento de exportações e projetos considerados estratégicos no exterior. Outros US$ 2 bilhões devem vir da iniciativa privada.
O objetivo é garantir acesso estável a insumos essenciais para setores como baterias, veículos elétricos, energia renovável e defesa. Nesse contexto, o Brasil aparece no radar do governo americano com dois projetos minerais que, juntos, já somam mais de US$ 500 milhões em potenciais financiamentos.
O EXIM Bank emitiu cartas de interesse — instrumentos não vinculantes — para um projeto de terras raras e outro de lítio em território brasileiro. Essas cartas indicam disposição inicial do banco em avançar nas análises, mas ainda dependem de processos completos de due diligence técnica, ambiental e financeira.
Terras raras em Minas Gerais ganham protagonismo

No segmento de terras raras, o banco americano sinalizou até US$ 250 milhões para apoiar o desenvolvimento do Projeto Caldeira, da mineradora australiana Meteoric Resources. O empreendimento está localizado em Poços de Caldas e é considerado um dos projetos mais avançados fora da China.
O diferencial do Projeto Caldeira está em seu modelo geológico: depósitos de argilas de adsorção iônica, o mesmo tipo explorado em larga escala pelos chineses. Trata-se de uma formação rara e altamente estratégica, que permite extração com menor movimentação de material, processamento mais simples e impacto ambiental potencialmente reduzido — fatores que aumentam o interesse de governos e investidores.
Em dezembro, o projeto obteve licença ambiental prévia, iniciou a operação de uma planta-piloto e realizou sua primeira produção de carbonato misto de terras raras, um marco importante para validar tecnicamente o empreendimento. Apesar desses avanços, o financiamento do EXIM ainda depende de aprovação interna.
Lítio entra na estratégia americana
Além das terras raras, o lítio também passou a integrar a estratégia dos EUA no Brasil. O EXIM Bank emitiu uma carta de interesse não vinculante de até US$ 266 milhões para o Projeto Bandeira, da canadense Lithium Ionic, localizado em Minas Gerais.
Em balanço divulgado em janeiro de 2026, a empresa afirmou que 2025 marcou uma virada operacional, com expansão dos recursos minerais, entrega de um estudo de viabilidade revisado, fortalecimento da liderança técnica e avanços na estruturação financeira. Para 2026, o foco está na conclusão do licenciamento ambiental, na consolidação do financiamento e no avanço das atividades pré-operacionais, com o objetivo de levar o projeto à fase de construção. O início das operações comerciais é projetado para 2027.
Segundo a companhia, o Projeto Bandeira pode posicionar o Brasil como fornecedor relevante de concentrado de espodumênio para a cadeia global de baterias, em um momento em que Washington busca diversificar fontes de suprimento e reduzir a dependência chinesa.
Brasil no centro da nova geopolítica dos minerais

A movimentação americana evidencia como os minerais críticos se tornaram ativos estratégicos de primeira ordem. Lítio e terras raras são fundamentais para tecnologias limpas, eletrificação de frotas e sistemas avançados, o que explica a disputa crescente entre potências econômicas.
Para o Brasil, o interesse do EXIM Bank representa uma oportunidade de atrair capital estrangeiro e acelerar projetos de alto valor agregado. Ao mesmo tempo, impõe desafios regulatórios, ambientais e industriais, especialmente no que diz respeito à agregação de valor local e à construção de uma cadeia produtiva mais completa.
Embora nenhuma das operações esteja garantida, o simples fato de projetos brasileiros integrarem o Projeto Vault já sinaliza uma mudança importante: o país passa a ocupar um papel mais visível no tabuleiro global dos minerais críticos, em uma corrida que tende a se intensificar nos próximos anos.
[ Fonte: CNN Brasil ]