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Tecnologia

China constrói a centrífuga de hipergravidade mais poderosa do mundo: uma máquina capaz de simular em horas processos geológicos que levariam séculos na natureza

Em um laboratório subterrâneo na China, cientistas instalaram uma máquina gigantesca capaz de gerar até mil vezes a gravidade da Terra. A nova centrífuga de hipergravidade permite reproduzir terremotos, tsunamis e deformações do solo em laboratório, acelerando fenômenos naturais que normalmente levariam séculos para acontecer.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A compreensão de processos geológicos sempre esbarrou em um problema fundamental: o tempo. Muitas transformações do planeta ocorrem ao longo de milhares ou milhões de anos, o que torna quase impossível observá-las diretamente em laboratório. Para contornar essa limitação, cientistas desenvolveram máquinas capazes de criar ambientes de hipergravidade.

Agora, pesquisadores da Universidade de Zhejiang anunciaram a construção da centrífuga de hipergravidade mais potente já criada. Batizada de CHIEF1900, a instalação pode gerar forças gravitacionais até mil vezes maiores do que a da Terra, permitindo acelerar processos geológicos e simular desastres naturais em escala controlada.

Uma máquina gigantesca escondida sob a terra

A nova centrífuga foi instalada a cerca de 15 metros de profundidade em um laboratório subterrâneo da universidade, na cidade de Hangzhou, na China.

O equipamento possui dimensões comparáveis às de um pequeno edifício e foi projetado para girar a velocidades extremamente altas. Esse movimento cria uma força centrífuga intensa que empurra os materiais para fora, reproduzindo condições de hipergravidade.

Em termos técnicos, a CHIEF1900 possui capacidade de 1.900 g·tonelada. Isso significa que ela pode aplicar uma força equivalente a 1.900 vezes a gravidade terrestre sobre uma amostra com massa de uma tonelada.

O sistema supera o recorde anterior estabelecido poucos meses antes por outra centrífuga chinesa, a CHIEF1300.

Como a hipergravidade “acelera” o tempo geológico

Para geólogos, estudar o subsolo é como ler um arquivo da história da Terra. Cada camada de rocha registra processos que ocorreram ao longo de milhões de anos.

O problema é que reproduzir esses processos em laboratório sempre foi extremamente difícil.

As centrífugas de hipergravidade resolvem parcialmente essa questão ao criar condições físicas que comprimem o tempo experimental. Quando os materiais são submetidos a forças gravitacionais muito maiores do que as naturais, processos como compactação do solo, transporte de sedimentos ou deformação estrutural acontecem muito mais rápido.

Isso permite que cientistas observem em poucas horas fenômenos que, na natureza, levariam décadas ou séculos.

Simulando terremotos, tsunamis e colapsos de infraestrutura

A nova máquina abre caminho para diversos tipos de experimentos.

Entre os principais objetivos estão a simulação de terremotos e a análise da resistência de infraestruturas como barragens, túneis ou linhas ferroviárias de alta velocidade.

Em centrífugas anteriores já foi possível reproduzir pressões equivalentes às encontradas a dois mil metros de profundidade no oceano. Esse tipo de experimento ajuda a avaliar a extração de hidratos de metano presentes no fundo do mar.

Também é possível simular o impacto de grandes tsunamis no leito oceânico ou analisar como contaminantes se deslocam lentamente através de solos e aquíferos ao longo de milhares de anos.

Segundo especialistas, essas simulações são essenciais para prever desastres naturais e reduzir riscos associados a grandes projetos de engenharia.

Desafios técnicos para construir a máquina

Construir uma centrífuga com esse nível de potência exigiu a colaboração de especialistas em diversas áreas da engenharia.

Entre os principais desafios estava o controle da temperatura. Em velocidades de rotação muito altas, o atrito e o esforço mecânico podem gerar calor suficiente para comprometer a estabilidade da estrutura.

Para resolver esse problema, os engenheiros desenvolveram um sistema de resfriamento que combina vácuo, ventilação forçada e fluidos refrigerantes especiais.

A decisão de instalar o equipamento no subsolo também tem uma razão técnica importante: reduzir vibrações externas que poderiam interferir nos experimentos.

O que ainda precisa ser comprovado

Embora a instalação tenha sido concluída no final de 2025 e já esteja operacional, os primeiros resultados científicos obtidos com a CHIEF1900 ainda não foram publicados.

Especialistas lembram que experimentos em escala reduzida nem sempre reproduzem perfeitamente todos os fenômenos observados na natureza. Alguns comportamentos dos materiais podem não escalar de forma linear sob condições extremas de hipergravidade.

Por isso, os dados obtidos nesse tipo de instalação costumam ser comparados com resultados de outras centrífugas semelhantes ao redor do mundo.

Mesmo assim, a nova máquina representa um passo importante para a pesquisa geotécnica e geológica. Ao permitir que cientistas observem processos naturais em ritmo acelerado, ela pode ajudar a compreender melhor terremotos, deslizamentos de terra e outras forças que moldam o planeta. 

 

[ Fonte: Xataka ]

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