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Tecnologia

O jato supersônico silencioso da NASA acaba de atingir Mach 1,4 e está mais perto de mudar para sempre a aviação comercial

Após quebrar a barreira do som pela primeira vez, o X-59 alcançou velocidades ainda maiores e completou um dos testes mais importantes de seu programa de desenvolvimento. O objetivo da NASA é simples, mas revolucionário: permitir voos supersônicos sobre áreas habitadas sem o estrondo ensurdecedor que há décadas limita essa tecnologia.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante mais de meio século, viajar mais rápido que o som sobre áreas terrestres foi uma promessa praticamente abandonada pela aviação comercial. O principal obstáculo nunca foi a velocidade em si, mas o enorme estrondo sônico produzido quando uma aeronave ultrapassa a barreira do som.

Agora, a NASA acredita estar próxima de resolver esse problema.

Seu avião experimental X-59, desenvolvido em parceria com a Lockheed Martin, acaba de alcançar mais um marco importante. Depois de realizar seu primeiro voo supersônico no início de junho, a aeronave atingiu Mach 1,4 — cerca de 1.488 quilômetros por hora — durante um teste que reproduziu as condições que serão utilizadas em futuras avaliações sobre áreas habitadas dos Estados Unidos.

O avanço aproxima o projeto de sua fase mais aguardada: demonstrar ao público que é possível voar acima da velocidade do som sem produzir o tradicional “boom” supersônico.

Um avião criado para silenciar o estrondo sônico

Quando uma aeronave ultrapassa a velocidade do som, ela comprime o ar à sua frente e gera ondas de choque que se propagam até o solo. O resultado é o famoso estrondo sônico, um ruído explosivo capaz de ser ouvido a dezenas de quilômetros de distância.

Foi justamente esse problema que levou muitos países a restringirem ou proibirem voos supersônicos comerciais sobre terra firme.

O X-59 foi projetado especificamente para contornar essa limitação.

Seu design incomum, marcado por uma fuselagem extremamente longa e estreita e um nariz que ocupa quase um terço do comprimento da aeronave, foi desenvolvido para distribuir as ondas de choque de forma diferente. Em vez de produzir um estrondo intenso, a aeronave gera um som muito mais suave, descrito pela NASA como um “thump”, algo semelhante a uma batida distante de porta de carro.

A expectativa é que esse ruído seja discreto o suficiente para tornar viáveis novas rotas supersônicas sobre áreas urbanas.

De Mach 1,1 para Mach 1,4 em apenas uma semana

O primeiro grande marco ocorreu em 5 de junho, quando o X-59 rompeu a barreira do som pela primeira vez durante um voo sobre o Deserto de Mojave, na Califórnia.

Na ocasião, a aeronave alcançou aproximadamente Mach 1,1, equivalente a cerca de 1.147 quilômetros por hora.

Poucos dias depois, em 12 de junho, os engenheiros realizaram um teste ainda mais importante. O avião voou a aproximadamente 55 mil pés de altitude — cerca de 16,7 quilômetros acima da superfície — e atingiu Mach 1,4, reproduzindo exatamente as condições que serão utilizadas nos futuros voos sobre comunidades americanas.

Segundo a NASA, esse teste representa um passo fundamental para validar o desempenho operacional da aeronave antes das próximas etapas do programa.

O curioso detalhe: ninguém ouviu o som do X-59

Apesar de já estar voando acima da velocidade do som, o famoso “thump” do X-59 ainda não foi ouvido pelo público.

Isso aconteceu porque os testes iniciais foram realizados com o acompanhamento de um caça F-15 da NASA.

O avião de perseguição, que voa em formação com o X-59, produz os tradicionais estrondos supersônicos. Durante os testes, seu ruído acabou mascarando qualquer assinatura acústica gerada pelo novo jato experimental.

Nas próximas fases, o F-15 terá outra função. Equipado com instrumentos especiais para detecção de ondas de choque, ele ajudará os pesquisadores a medir com precisão a assinatura acústica produzida pelo X-59.

O próximo desafio: convencer o público

Antes de iniciar voos sobre cidades americanas, a NASA ainda precisa concluir meses de testes adicionais.

Os engenheiros continuam expandindo gradualmente o chamado envelope de voo da aeronave, avaliando seu desempenho em diferentes velocidades, altitudes e condições atmosféricas.

Depois disso, o programa entrará em sua fase de validação acústica. Nessa etapa, os cientistas irão confirmar se o avião realmente produz o ruído suave previsto pelos modelos computacionais.

Se os resultados forem positivos, o X-59 começará a sobrevoar comunidades selecionadas nos Estados Unidos.

O objetivo não será apenas medir o som com instrumentos, mas entender como as pessoas percebem esse novo tipo de ruído. As informações coletadas servirão de base para que autoridades reguladoras criem novas normas para a aviação supersônica comercial.

Um projeto que pode redefinir o transporte aéreo

A NASA iniciou o desenvolvimento do X-59 há quase uma década e investiu centenas de milhões de dólares no projeto. Em 2018, a agência concedeu à Lockheed Martin um contrato de US$ 247,5 milhões para construir a aeronave.

A aposta é ambiciosa.

Se o programa tiver sucesso, companhias aéreas poderão voltar a desenvolver aviões comerciais supersônicos capazes de reduzir drasticamente o tempo de viagem entre continentes sem causar os problemas sonoros que levaram ao fim de projetos como o Concorde.

Cada novo teste aproxima esse cenário da realidade. E, pela primeira vez em décadas, a ideia de cruzar um país inteiro acima da velocidade do som sem incomodar quem está no solo parece menos ficção científica e mais uma questão de tempo.

 

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