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Tecnologia

China muda o jogo e quer robôs trabalhando, não apenas dançando

A China quer transformar seus robôs humanoides em trabalhadores de verdade. Depois de anos de demonstrações com dança, boxe e outros espetáculos, Pequim agora pressiona a indústria para desenvolver máquinas capazes de atuar em fábricas, hospitais, agricultura e emergências.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Robôs que dançam, jogam pingue-pongue ou lutam boxe ainda chamam atenção na China. Porém, o desafio tecnológico mais importante atualmente parece muito menos espetacular: fazer uma máquina dobrar uma camisa, manipular objetos delicados ou trabalhar durante horas em uma fábrica sem cometer erros.

Essa mudança de prioridades ficou evidente durante a Conferência Mundial de Robôs 2026, realizada em Pequim. O objetivo da indústria chinesa agora é mostrar que seus humanoides conseguem deixar os palcos e assumir tarefas realmente úteis.

Durante os cinco dias do evento, cerca de 3 mil produtos devem ser apresentados por mais de 300 empresas. Entre eles aparecem máquinas capazes de transportar pacotes, embalar mercadorias, recolher lixo e manipular componentes industriais.

Robôs humanoides precisam ir além do espetáculo

Robôs Humanoides5
© Frame Stock Footage – Shutterstock

As apresentações chamativas continuam funcionando como uma poderosa vitrine tecnológica.

A chinesa Unitree, uma das fabricantes de robôs humanoides mais conhecidas do setor, esteve entre as principais atrações da conferência. Ao mesmo tempo, a empresa chamou atenção no mercado financeiro: em sua estreia na Bolsa de Xangai, suas ações chegaram a valer quase seis vezes o preço inicial.

O entusiasmo dos investidores, entretanto, contrasta com algumas limitações importantes.

A própria Unitree reconhece que a comercialização em grande escala pode demorar. Um dos principais obstáculos está justamente em algo aparentemente simples: as mãos.

Criar mãos robóticas suficientemente precisas, resistentes e versáteis continua sendo um enorme desafio. Elas precisam agarrar objetos de tamanhos diferentes, pressionar botões e manipular materiais com formatos e texturas variados.

Das demonstrações para as fábricas

Humanoides
© Figure

Apesar dessas dificuldades, algumas aplicações começam a avançar além dos laboratórios.

A UBTECH apresentou modelos industriais capazes de transportar componentes dentro de ambientes semelhantes a linhas de produção. Já a Robotera mostrou um torso humanoide desenvolvido para separar pacotes, enquanto a DexForce exibiu máquinas capazes de colocar smartphones dentro de caixas.

A logística aparece como uma das áreas mais promissoras.

A Leju afirma que seus humanoides industriais já trabalham em fábricas europeias e montadoras chinesas, movimentando caixas e pequenos componentes. Segundo a companhia, determinadas máquinas já alcançam níveis de eficiência comparáveis aos de trabalhadores humanos.

As possibilidades também começam a chegar a outros setores.

A UBTECH demonstrou robôs educacionais capazes de ensinar inglês e supervisionar provas universitárias. A empresa também apresentou humanoides com rostos realistas destinados a oferecer interação e apoio emocional.

Um desses modelos consegue conversar, realizar diferentes expressões faciais e movimentar pescoço e mãos. O robô está disponível até mesmo para consumidores individuais por 168 mil yuans, valor superior a US$ 24 mil.

Dobrar uma camisa ainda é um grande desafio

A conferência também revelou quanto trabalho ainda precisa ser feito.

Em uma demonstração que reproduzia um supermercado, um robô conseguiu colocar produtos dentro de uma sacola plástica, mas teve dificuldades para fechá-la.

Em outro espaço, máquinas recolhiam resíduos das mesas e tentavam colocá-los em uma lixeira. Nem sempre conseguiam agarrar ou soltar corretamente os objetos.

Até tarefas domésticas extremamente comuns continuam difíceis.

Um robô assistente equipado com braços e mãos mecânicas tentou dobrar uma camisa. Depois de vários minutos de esforço, não conseguiu completar a tarefa.

Essas situações mostram um problema central da robótica humanoide: executar uma demonstração controlada é muito diferente de trabalhar continuamente em ambientes imprevisíveis.

Por isso, a adoção comercial desses robôs fora de projetos experimentais ainda permanece limitada.

Uma estimativa citada pela Reuters indica que entre 50% e 70% dos humanoides fabricados neste ano podem acabar trabalhando em chamadas “fábricas de dados”. Nesse cenário, seriam utilizados principalmente para coletar informações destinadas ao treinamento de sistemas robóticos, em vez de executar tarefas produtivas para clientes.

China quer colocar humanoides no mundo real

Humanoide Cidade Bogota
© Pixtastock

A corrida também acontece em meio à crescente disputa tecnológica entre China e Estados Unidos.

Poucas semanas antes da conferência, a Comissão Federal de Comunicações dos EUA anunciou restrições à importação de novos robôs humanoides e determinados equipamentos produzidos no exterior, citando possíveis riscos de segurança nacional e cibersegurança. A medida atinge especialmente fabricantes chineses e também envolve robôs quadrúpedes, popularmente chamados de cães-robôs.

Pequim, enquanto isso, pretende acelerar a transformação dos humanoides em ferramentas realmente produtivas.

Desde 2024, o governo chinês considera a robótica humanoide uma de suas “indústrias do futuro”. Agora, autoridades querem direcionar o desenvolvimento para aplicações práticas.

Os próximos testes deverão colocar essas máquinas em situações reais na agricultura, saúde, cuidado de idosos e operações de emergência.

O desafio da China, portanto, mudou. Fazer um robô dançar, lutar boxe ou impressionar uma multidão continua sendo interessante. Mas a verdadeira revolução começará quando essas máquinas conseguirem realizar algo aparentemente muito mais simples: trabalhar todos os dias com eficiência e confiabilidade.

 

[ Fonte: DW ]

 

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