Pular para o conteúdo
Tecnologia

O “software” dos incas não tinha telas nem eletricidade — apenas cordas, nós e uma lógica sofisticada

Um antigo sistema andino de cordas ganhou uma interpretação surpreendentemente moderna. Pesquisadores transformaram sua arquitetura em código e descobriram que ela pode executar tarefas familiares aos computadores atuais.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

Costumamos imaginar a história da computação começando com máquinas mecânicas, circuitos, eletricidade e, finalmente, linhas de código. Mas essa fronteira fica menos clara quando encontramos tecnologias antigas capazes de organizar grandes quantidades de informação seguindo regras estruturadas. É justamente o que acontece com um objeto utilizado pelos incas séculos antes do computador: o quipu. Agora, pesquisadores decidiram traduzir sua lógica para linguagens modernas — literalmente.

O quipu não armazenava informações como uma sequência simples

O quipu era formado por cordas, ramificações e nós que podiam variar em posição, tipo, direção e cor.

Utilizado pelo Império Inca, ele é tradicionalmente associado ao registro de informações como censos, contabilidade, estoques e administração de recursos.

Mas um estudo recente propõe observá-lo por outro ângulo.

Em vez de perguntar apenas o que os quipus registravam, os pesquisadores analisaram como essa informação era estruturalmente organizada.

E foi aí que começaram a aparecer semelhanças intrigantes com a computação.

Um quipu não precisa seguir uma organização puramente linear. Cordas podem se conectar a outras cordas e criar diferentes níveis de informação. O resultado é uma estrutura hierárquica e ramificada que, conceitualmente, lembra uma árvore de dados.

Esse tipo de organização está em toda parte na informática moderna.

Um sistema de arquivos, por exemplo, possui diretórios que contêm outros diretórios e arquivos. Cada elemento ocupa uma determinada posição dentro de uma hierarquia e mantém relações com outros componentes.

Isso não significa que um quipu fosse equivalente a um computador moderno. A comparação está na arquitetura utilizada para estruturar informação.

Para descobrir até onde essa semelhança poderia chegar, os pesquisadores fizeram algo incomum: transformaram a lógica do quipu em código moderno usando C++ e Python.

E não ficaram apenas na analogia teórica.

Quipu1
© Imagesines – Shutterstock

Cordas e nós viraram planilha, sistema de arquivos e até imagem

A equipe desenvolveu três aplicações funcionais inspiradas na estrutura dos quipus.

Uma delas funcionava como planilha, outra como sistema de arquivos e uma terceira permitia representar imagens.

O objetivo era verificar se aquela antiga forma de organização poderia realmente servir como uma estrutura de dados computacional.

Os testes mostraram que sim.

Segundo o estudo, a organização não ordenada dos elementos permitia inserir informações rapidamente, apresentando características comparáveis às encontradas em estruturas modernas, como listas encadeadas e arrays dinâmicos.

É uma distinção importante.

O interesse do trabalho não está apenas no fato de que os incas conseguiam guardar informações usando cordas. Diversas sociedades desenvolveram métodos sofisticados de registro.

O que chama atenção é que a própria estrutura física do quipu pode ser interpretada como uma maneira eficiente de organizar dados e estabelecer relações entre eles.

Curiosamente, isso pode ser estudado mesmo sem resolver o maior mistério desses objetos.

Ainda não compreendemos completamente o significado de todos os quipus preservados. Decifrar exatamente o conteúdo de cada combinação de nós, cores e cordas continua sendo um enorme desafio.

Mas um programador também consegue analisar a arquitetura de um banco de dados sem necessariamente conhecer o significado de cada informação armazenada nele.

É essa separação entre conteúdo e estrutura que torna a comparação tão interessante.

Chamar o quipu de “software” exige cautela — mas muda a pergunta

Dizer que os incas programavam em um sentido moderno seria exagerado.

Não havia processadores, código executável ou computadores realizando automaticamente instruções.

Mas existe uma discussão mais ampla escondida nessa comparação: o que exatamente consideramos computação?

Se ela for definida apenas pela existência de máquinas eletrônicas, sua história é relativamente recente. Se incluirmos sistemas capazes de representar, armazenar, organizar e manipular informações por meio de regras estruturadas, a fronteira pode recuar muitos séculos.

Nesse sentido, o quipu deixa de ser visto apenas como uma curiosa ferramenta de contabilidade e passa a ocupar uma posição muito mais provocadora na história da informação.

O estudo não prova que ele tenha sido o “primeiro software” da humanidade. Essa expressão depende de uma definição bastante ampla do termo.

O que os pesquisadores demonstram é algo mais concreto: uma lógica desenvolvida no mundo andino séculos atrás pode ser formalizada em linguagens como C++ e Python e utilizada para construir aplicações computacionais reconhecíveis hoje.

Talvez a parte mais surpreendente não seja descobrir que os incas fizeram algo parecido com aquilo que fazemos nos computadores.

É perceber que alguns problemas fundamentais continuam iguais: guardar informações, relacioná-las e recuperá-las de maneira eficiente.

Nós usamos bits e código.

Eles tinham cordas e nós.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados