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Tecnologia

Brasil entra em nova aliança global de inteligência artificial e movimento pode mudar o equilíbrio tecnológico

Um novo organismo internacional apoiado pela China reúne dezenas de países em torno da inteligência artificial. A entrada do Brasil amplia o debate sobre tecnologia, soberania e influência global.
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Tempo de leitura: 5 minutos

A corrida mundial pela inteligência artificial acaba de ganhar uma nova frente diplomática. Enquanto Estados Unidos, Europa e China disputam o controle de tecnologias estratégicas, um grupo de países decidiu criar uma organização internacional dedicada à cooperação no setor. O Brasil aparece entre os participantes de uma iniciativa que promete reduzir desigualdades digitais, mas que também levanta questões sobre interesses geopolíticos, padrões tecnológicos e poder global.

Brasil assina acordo para criar nova organização internacional de IA

O Brasil se juntou a outras 28 nações na criação da World Artificial Intelligence Cooperation Organization, a WAICO, um novo organismo internacional voltado à cooperação no desenvolvimento e na governança da inteligência artificial.

O acordo foi assinado em Xangai, na China, durante uma cerimônia que reuniu representantes de governos e organizações internacionais. A nova entidade terá sede na cidade chinesa e foi apresentada como uma organização intergovernamental independente.

A iniciativa é apoiada pelo governo chinês, que já vinha defendendo a criação de um mecanismo internacional para ampliar a colaboração em inteligência artificial. Em maio de 2026, a diplomacia chinesa voltou a promover publicamente a proposta e confirmou que o tema seria uma das prioridades da Conferência Mundial de Inteligência Artificial realizada em Xangai.

O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, assinou o documento em nome do governo chinês. Entre os países que aderiram ao acordo estão Brasil, China, Rússia, Cuba, Venezuela, Indonésia, Belarus, Laos, Sérvia e Paquistão.

A relação completa dos 29 membros fundadores ainda não havia sido divulgada oficialmente, o que mantém em aberto a composição final e o peso político de cada participante dentro da estrutura.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, também esteve na China para participar da Conferência Mundial de Inteligência Artificial em Xangai, conforme a agenda oficial da ONU. Sua presença, no entanto, não significa que as Nações Unidas façam parte formalmente da nova organização.

Nova entidade promete reduzir desigualdade no acesso à tecnologia

Brasil entra em nova aliança global de inteligência artificial e movimento pode mudar o equilíbrio tecnológico
© Glenn Carstens-Peters – Unsplash

Segundo o governo brasileiro, a WAICO terá como objetivo promover a cooperação internacional em inteligência artificial, com atenção especial ao desenvolvimento seguro, ético, confiável e centrado nas pessoas.

A proposta também busca diminuir as diferenças entre países que dominam tecnologias avançadas e aqueles que ainda enfrentam dificuldades para acessar infraestrutura, modelos de linguagem, capacidade computacional e profissionais qualificados.

Essa desigualdade se tornou uma das maiores preocupações em torno do avanço da IA. Atualmente, poucos países e empresas concentram grande parte dos chips, centros de dados, investimentos e modelos mais sofisticados do mercado.

Dentro da nova organização, os países participantes poderão apresentar suas necessidades e, ao mesmo tempo, oferecer tecnologias, conhecimento, serviços e projetos de cooperação. A ideia é criar uma espécie de ponte entre a oferta e a demanda por soluções de inteligência artificial.

A entidade também deverá apoiar programas de capacitação, formação profissional e desenvolvimento institucional. Outro objetivo anunciado é aproximar estratégias nacionais de IA e promover a troca de experiências sobre regulamentação, segurança, inovação e uso de dados.

O governo brasileiro afirma que a cooperação poderá contribuir para que países em desenvolvimento participem de forma mais ativa da transformação tecnológica, em vez de permanecerem apenas como consumidores de produtos criados por grandes potências.

A China já vinha apresentando a WAICO como um instrumento para incentivar uma inteligência artificial voltada ao benefício coletivo. A proposta original foi anunciada em 2025 e passou a ser incorporada a declarações diplomáticas com diferentes parceiros ao longo dos meses seguintes.

Participação brasileira também tem um importante peso geopolítico

Embora o discurso oficial esteja concentrado em cooperação e inclusão tecnológica, a criação da WAICO ocorre em meio a uma disputa cada vez mais intensa pelo futuro da inteligência artificial.

Estados Unidos e China competem pelo domínio de semicondutores, centros de processamento, modelos generativos e padrões regulatórios. A União Europeia, por sua vez, tenta estabelecer regras que possam influenciar empresas e governos em diferentes partes do mundo.

Nesse cenário, a entrada do Brasil em uma organização apoiada por Pequim pode fortalecer a aproximação tecnológica com a China e com outros países do chamado Sul Global.

A presença de Rússia, Cuba e Venezuela também tende a despertar atenção, especialmente em um momento de tensões internacionais e de divergências sobre privacidade, liberdade de expressão, controle de dados e uso estatal da inteligência artificial.

Isso não significa necessariamente que o Brasil esteja aderindo a um único modelo tecnológico ou se afastando de parceiros ocidentais. O país mantém relações comerciais, científicas e digitais com Estados Unidos, Europa, China e outras economias relevantes.

Ainda assim, participar da fundação de uma nova organização oferece ao governo brasileiro a possibilidade de influenciar debates internacionais desde o início, principalmente em temas como acesso a tecnologias, soberania digital e participação de países emergentes nas decisões globais.

Organização terá de provar que pode ir além das promessas

A criação da WAICO representa apenas o primeiro passo. A efetividade da nova entidade dependerá de sua estrutura de governança, das regras de participação e dos recursos que serão disponibilizados pelos membros.

Também será necessário definir como serão tratados assuntos sensíveis, como compartilhamento de dados, proteção da propriedade intelectual, padrões de segurança e responsabilidade por sistemas de IA.

Outro desafio será garantir que a organização mantenha a independência prometida, apesar de ter sido proposta pela China e ter sua sede em Xangai.

Para o Brasil, a adesão pode abrir portas para investimentos, pesquisas, capacitação profissional e projetos tecnológicos conjuntos. Ao mesmo tempo, exigirá uma estratégia cuidadosa para evitar dependências e preservar os interesses nacionais.

A WAICO nasce com a ambição de transformar a cooperação internacional em inteligência artificial. Resta saber se conseguirá criar um espaço realmente plural ou se se tornará mais um palco da disputa entre as grandes potências pelo controle da tecnologia que promete definir as próximas décadas.

[Fonte: bn-americas]

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