A aposta de US$ 226 milhões no fundo do mar
Na área especial de Lin-gang, em Xangai, um projeto de US$ 226 milhões inaugurou a primeira fase de um data center subaquático.
Segundo o governo chinês, a instalação terá capacidade total de 24 megawatts, o equivalente a um centro de dados convencional pré-era da IA. A energia virá majoritariamente de turbinas eólicas offshore, o que permitiria um funcionamento quase neutro em carbono.
Em teoria, o oceano oferece refrigeração natural e reduz o impacto ambiental de estruturas terrestres que consomem volumes imensos de água doce para dissipar calor. Globalmente, esses centros já respondem por até 3% do consumo elétrico e exigem milhões de litros de água por dia.
Mas a grande pergunta permanece: afundar data centers no mar é realmente sustentável?
Quando o resfriamento vira aquecimento
A revista Wired lembrou que a ideia não é inédita. A startup americana NetworkOcean chegou a testar cápsulas de servidores mergulhadas na Baía de São Francisco — sem autorização ambiental. O experimento foi interrompido após cientistas alertarem para os riscos de aquecimento localizado da água.
Mesmo variações de temperatura mínimas, explicam os pesquisadores, podem estimular a proliferação de algas tóxicas e afetar a fauna marinha. “Qualquer aumento no calor pode incubar espécies invasoras e reduzir o oxigênio disponível”, observaram os autores.
Um estudo de 2022 foi ainda mais enfático: ondas de calor oceânicas em torno dessas estruturas poderiam gerar zonas de água “desoxigenada”, levando à morte de peixes e crustáceos em larga escala.
Ou seja, o sistema que deveria ajudar o planeta a economizar energia pode acabar aquecendo o mar — exatamente o oposto do desejado.
Entre ambição e controle regulatório
A diferença entre China e Estados Unidos é clara. Enquanto a NetworkOcean enfrentou resistência de agências ambientais, o projeto chinês recebeu aval do China Academy of Information and Communications Technology, ligada ao governo.
A iniciativa faz parte de um plano nacional para reduzir o consumo energético médio (PUE) dos data centers para 1,5 até 2025, número ligeiramente melhor que a média global atual de 1,56.
Essa eficiência seria alcançada não só pelo resfriamento oceânico, mas também pelo uso de energia eólica e solar. Ainda assim, críticos lembram que o oceano é um recurso global e interconectado — e o impacto local de um projeto pode ter consequências em ecossistemas muito mais amplos.
Um experimento com impacto global
Embora tecnicamente fascinante, o plano chinês mostra como a busca por eficiência energética pode esbarrar em dilemas ambientais complexos.
A humanidade precisa de mais poder computacional — para IA, 5G, big data —, mas também de menos impacto ambiental. Submergir servidores pode parecer uma solução elegante, mas talvez troque um problema visível por um invisível, escondido nas profundezas do mar.
Enquanto a China celebra seu pioneirismo, cientistas pedem cautela: antes de transformar os oceanos em gigantescas salas de servidor, é preciso entender se eles suportarão o calor do futuro digital.