Eliminar mosquitos transmissores de doenças está longe de ser uma tarefa simples. Inseticidas químicos apresentam limitações ambientais, muitas espécies desenvolvem resistência e os surtos continuam afetando milhões de pessoas todos os anos.
Por isso, a Verily, empresa de biotecnologia pertencente à Alphabet, controladora do Google, trabalha desde 2017 em uma alternativa inusitada: usar mosquitos para combater mosquitos.
Agora, a companhia solicitou autorização à Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) para liberar até 64 milhões de mosquitos nos estados da Califórnia e da Flórida ao longo dos próximos dois anos.
Por que liberar milhões de mosquitos?

À primeira vista, a ideia parece absurda.
No entanto, os insetos que serão liberados possuem uma característica crucial: todos são machos. E mosquitos machos não picam seres humanos nem transmitem doenças.
Os exemplares pertencem à espécie Culex quinquefasciatus, conhecida por transmitir agentes associados a doenças como o vírus do Nilo Ocidental, a encefalite de Saint Louis e a febre do Vale do Rift.
Cada mosquito é infectado com uma bactéria chamada Wolbachia pipientis, amplamente estudada por cientistas nas últimas décadas.
A estratégia consiste em permitir que esses machos acasalem com fêmeas selvagens que não carregam a mesma cepa bacteriana.
Quando isso acontece, os ovos produzidos pelo casal simplesmente não se desenvolvem.
O resultado é uma redução gradual da população local ao longo de sucessivas gerações.
Um problema global de saúde pública
O interesse por novas formas de controle não é exagerado.
Segundo autoridades de saúde dos Estados Unidos, o vírus do Nilo Ocidental é atualmente a principal doença transmitida por mosquitos no território continental do país, causando cerca de 2 mil casos por ano e aproximadamente 120 mortes.
Em escala global, o cenário é ainda mais preocupante.
Somente a dengue registra cerca de 400 milhões de infecções anuais em todo o mundo, além de dezenas de milhares de mortes associadas.
Por isso, uma solução capaz de reduzir populações de mosquitos sem depender de pesticidas químicos poderia representar um avanço significativo para a saúde pública.
A inteligência artificial entra em cena
Embora a bactéria Wolbachia seja a protagonista biológica do projeto, a tecnologia também desempenha um papel essencial.
A Verily utiliza sistemas automatizados e inteligência artificial para criar, identificar e separar milhões de mosquitos por sexo em larga escala.
Essa etapa é fundamental porque apenas os machos podem ser liberados.
A automação permite processar quantidades gigantescas de insetos com uma velocidade impossível para métodos manuais, tornando viável um programa desse tamanho.
Sem esse nível de automação, a produção e liberação de dezenas de milhões de mosquitos seria praticamente inviável.
Os resultados já chamaram atenção

A proposta não surgiu do nada.
Experimentos anteriores realizados em diferentes partes do mundo apresentaram resultados bastante promissores.
Em Singapura, um programa envolvendo mais de 700 mil moradores registrou uma redução superior a 70% nos casos de dengue em áreas onde mosquitos com Wolbachia foram liberados.
Na cidade de Fresno, na Califórnia, entre 2017 e 2018, foram soltos entre 7,5 milhões e 14,4 milhões de mosquitos machos infectados.
Segundo os dados divulgados pelos pesquisadores, a população local de mosquitos vetores caiu entre 93% e 95%.
Esses números ajudaram a impulsionar a proposta atual da Verily.
Nem tudo é perfeito
Apesar do potencial, os cientistas alertam que a técnica ainda possui limitações importantes.
Estudos recentes mostraram que a incompatibilidade provocada pela bactéria não funciona com eficiência absoluta em todas as situações.
Pesquisas publicadas em 2024 indicaram que, dependendo das condições, uma parcela dos ovos pode continuar produzindo embriões viáveis.
Além disso, documentos publicados pela própria equipe da Verily em 2022 apontavam que parte dos sistemas automatizados de liberação ainda estava em estágios iniciais de desenvolvimento.
Ou seja, a tecnologia continua evoluindo.
O maior teste da história está prestes a começar
Caso a EPA aprove a solicitação, a empresa poderá liberar até 32 milhões de mosquitos por estado ao longo de dois anos, totalizando 64 milhões de insetos.
O objetivo principal é coletar dados em condições reais para avaliar a eficácia da tecnologia em larga escala e abrir caminho para sua eventual comercialização.
Se os resultados forem semelhantes aos observados em testes anteriores, o experimento poderá se tornar um dos maiores marcos da história do controle biológico de vetores.
A ironia é inevitável: para combater os mosquitos, talvez seja necessário soltar milhões deles primeiro.
[ Fonte: Xataka ]