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Ciência

Cientistas criaram lentes de contato que estimulam o cérebro pela retina e reduziram sintomas de depressão em ratos sem usar remédios

Pesquisadores da Coreia do Sul desenvolveram lentes inteligentes capazes de enviar estímulos elétricos ao cérebro através dos olhos. Em testes com ratos, a tecnologia reduziu marcadores biológicos ligados à depressão e apresentou resultados comparáveis aos de antidepressivos como a fluoxetina — tudo isso sem cirurgia ou medicamentos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A ideia parece saída de ficção científica: tratar depressão usando lentes de contato transparentes que estimulam o cérebro através dos olhos. Mas foi exatamente isso que pesquisadores da Coreia do Sul demonstraram em um novo estudo publicado na revista Cell Reports Physical Science.

A tecnologia ainda está longe de chegar aos humanos, mas os resultados chamaram atenção da comunidade científica. Em experimentos com ratos, as lentes conseguiram reduzir sintomas associados à depressão, restaurar circuitos cerebrais alterados e até normalizar hormônios ligados ao estresse.

O mais impressionante é que os efeitos foram semelhantes aos observados com fluoxetina, um dos antidepressivos mais utilizados no mundo.

O estudo foi liderado pelo pesquisador Jang-Ung Park, da Universidade Yonsei, na Coreia do Sul. Segundo a equipe, trata-se da primeira demonstração de que uma lente portátil e transparente pode influenciar diretamente regiões cerebrais ligadas ao humor sem necessidade de medicamentos ou procedimentos invasivos.

A retina funciona como uma extensão do cérebro

Regeneração Da Retina
© FreePik

O ponto central da pesquisa está em uma conexão pouco lembrada fora da neurologia: a retina não é apenas uma parte do olho. Ela é considerada uma extensão direta do sistema nervoso central.

Isso significa que sinais enviados pela retina conseguem alcançar o cérebro através de vias naturais já existentes no organismo.

Os cientistas decidiram explorar justamente essa conexão.

A pergunta era simples — mas ambiciosa: seria possível acessar circuitos cerebrais ligados às emoções apenas estimulando a retina?

A resposta, ao menos nos testes iniciais com animais, parece ser sim.

Como funcionam as lentes inteligentes

As lentes utilizam correntes elétricas extremamente fracas transmitidas por eletrodos ultrafinos feitos de óxido de gálio e platina. Esses materiais são tão finos que a lente continua completamente transparente e flexível, semelhante a uma lente de contato comum.

O mecanismo utilizado recebe o nome de estimulação elétrica por interferência temporal.

Jang-Ung Park comparou o princípio ao comportamento da luz. Quando dois feixes luminosos se encontram, formam um ponto brilhante. Com as lentes acontece algo parecido: duas correntes elétricas separadas se cruzam apenas na retina, gerando o estímulo que depois segue até o cérebro.

A grande vantagem desse sistema é que ele consegue atingir regiões cerebrais profundas sem implantar dispositivos dentro do corpo e sem tocar diretamente o tecido cerebral.

Nos ratos tratados, os estímulos ajudaram a restaurar a comunicação entre o hipocampo e o córtex pré-frontal — áreas diretamente associadas ao controle emocional e frequentemente afetadas em quadros depressivos.

Os resultados surpreenderam até os pesquisadores

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© Pexels

Os cientistas acompanharam alterações comportamentais, hormonais e neurológicas nos animais antes e depois do tratamento.

Após três semanas de uso diário das lentes, durante apenas 30 minutos por sessão, os ratos apresentaram mudanças significativas.

Os níveis de corticosterona — hormônio associado ao estresse e frequentemente elevado em casos de depressão — caíram 48%.

Já a serotonina, neurotransmissor ligado à sensação de bem-estar e tradicionalmente associado aos antidepressivos, aumentou 47% em comparação aos animais deprimidos que não receberam tratamento.

O estudo também comparou quatro grupos diferentes: ratos saudáveis, ratos com depressão induzida sem tratamento, ratos tratados com fluoxetina e ratos tratados com as lentes inteligentes.

Segundo os pesquisadores, os animais que utilizaram as lentes apresentaram melhora equivalente à dos tratados com o medicamento.

Park admitiu que o resultado o surpreendeu. Segundo ele, esse nível de recuperação normalmente é esperado apenas com terapias farmacológicas tradicionais.

Inteligência artificial ajudou a validar os dados

A equipe também utilizou inteligência artificial para analisar simultaneamente comportamento, atividade cerebral e marcadores biológicos dos animais.

O algoritmo conseguiu separar claramente os ratos deprimidos dos demais grupos. Mais impressionante ainda: os animais tratados com as lentes foram classificados junto ao grupo saudável.

Em alguns parâmetros, a precisão da análise chegou a 100% para identificar os ratos com depressão induzida.

Isso reforçou a ideia de que a estimulação pela retina realmente alterou o funcionamento cerebral dos animais de maneira consistente.

A tecnologia ainda está distante dos humanos

Apesar do entusiasmo, os próprios pesquisadores reconhecem que ainda existe um longo caminho até aplicações clínicas reais.

As lentes precisam passar por testes de segurança mais amplos, especialmente em animais maiores, antes de qualquer estudo com humanos.

O grupo já trabalha em versões sem fio da tecnologia e também estuda formas de personalizar os estímulos para cada paciente futuramente.

Além disso, ainda será necessário entender possíveis efeitos colaterais de longo prazo e verificar se o cérebro humano responderia da mesma forma observada nos ratos.

Mesmo assim, o estudo abre uma possibilidade fascinante para o futuro da psiquiatria e da neurotecnologia: tratamentos capazes de modular emoções diretamente através dos olhos, sem remédios, sem cirurgia e talvez com menos efeitos adversos do que os antidepressivos atuais.

A ideia de “usar lentes para tratar depressão” ainda parece futurista. Mas, depois deste estudo, ela já deixou de ser apenas ficção científica.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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