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Ciência

Cientistas criaram um teste que fica azul ao detectar escopolamina em bebidas

Pesquisadores desenvolveram um pequeno dispositivo capaz de identificar uma substância perigosa em bebidas por meio de uma reação visual. A tecnologia promete facilitar testes rápidos, mas ainda apresenta limitações.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Uma das maiores dificuldades para identificar bebidas adulteradas é que determinadas substâncias podem passar despercebidas sem análises específicas. Agora, pesquisadores espanhóis desenvolveram uma alternativa que dispensa equipamentos complexos e utiliza um material surpreendentemente simples: papel. O dispositivo experimental precisa de apenas alguns segundos de contato com a bebida e, aproximadamente dez minutos depois, pode apresentar uma mudança de cor que indica a presença de uma substância associada a intoxicações e crimes.

Um pequeno dispositivo de papel pode revelar a presença de escopolamina

A tecnologia foi desenvolvida por pesquisadores da Universidade do País Basco (EHU), na Espanha, com o objetivo de detectar escopolamina, substância também conhecida popularmente como burundanga.

O composto pode provocar efeitos importantes sobre o sistema nervoso e está associado a casos de intoxicação e submissão química.

O grande diferencial do novo dispositivo está na simplicidade de funcionamento.

Em vez de exigir equipamentos laboratoriais sofisticados, o sistema utiliza uma técnica chamada microfluídica em papel, capaz de transportar pequenas quantidades de líquido por canais microscópicos.

Esse movimento acontece por capilaridade, o mesmo princípio que permite à água se espalhar por uma folha de papel absorvente.

Assim, não são necessárias bombas, baterias ou fontes externas de energia.

No interior do dispositivo existe um reagente químico chamado tiocianato de cobalto, utilizado na chamada reação de Scott.

Quando a escopolamina entra em contato com esse reagente sob determinadas condições ácidas, ocorre uma reação que provoca uma mudança de coloração.

O indicador passa de rosa para azul, permitindo identificar visualmente uma possível presença da substância.

Os cientistas também investigaram o uso de smartphones para analisar as cores, uma possibilidade que poderá tornar as medições mais precisas futuramente.

Mas havia uma questão fundamental: o dispositivo funcionaria apenas em soluções preparadas no laboratório ou também em bebidas reais?

Os pesquisadores testaram a tecnologia em diferentes bebidas

Para avaliar sua aplicação prática, a equipe realizou experimentos com bebidas alcoólicas e não alcoólicas.

O objetivo era verificar se os componentes presentes nesses líquidos poderiam interferir na reação química.

Os resultados demonstraram que o protótipo conseguia identificar escopolamina em diferentes tipos de amostras.

Durante os testes de calibração, o sistema apresentou um limite de detecção de 0,13 miligrama por mililitro para escopolamina pura.

Em determinadas formulações comerciais analisadas, esse valor chegou a 0,11 miligrama por mililitro.

Os pesquisadores também conseguiram identificar o composto em extratos de plantas como Datura stramonium e Atropa belladonna, espécies conhecidas por conter alcaloides tropânicos.

O procedimento foi pensado para exigir o mínimo possível de intervenção.

Segundo Isabel Poves, principal autora do estudo, basta mergulhar o dispositivo na amostra durante aproximadamente cinco segundos.

Depois disso, o líquido percorre o papel e entra em contato com os reagentes.

Em cerca de dez minutos, a mudança de cor pode ser observada diretamente, sem a necessidade de instrumentos adicionais.

A utilização de papel, materiais plásticos e transporte passivo de líquidos também abre caminho para a fabricação de dispositivos pequenos e potencialmente baratos.

Entretanto, os resultados positivos não significam que a tecnologia já esteja pronta para uso cotidiano.

O teste ainda tem limitações importantes antes de chegar ao público

Apesar dos avanços, o dispositivo permanece em fase experimental.

Os pesquisadores precisam aprimorar aspectos como a sensibilidade, os intervalos de concentração detectáveis e a intensidade da resposta visual.

Isso é especialmente importante porque um resultado negativo não garante que uma bebida esteja livre de escopolamina ou de outras substâncias perigosas.

A concentração pode estar abaixo do limite de detecção, e o dispositivo não foi desenvolvido para identificar todos os compostos utilizados na adulteração de bebidas.

Além disso, a reação visual funciona como uma ferramenta de triagem inicial.

Em situações de suspeita de intoxicação ou violência, a identificação definitiva exige análises toxicológicas e procedimentos laboratoriais confirmatórios. A suspeita de exposição também exige atendimento médico imediato, independentemente do resultado de um teste experimental.

O próximo objetivo é detectar várias substâncias em um único teste

A equipe da Universidade do País Basco pretende ampliar a tecnologia para identificar outros compostos associados à adulteração de bebidas.

Os pesquisadores já haviam desenvolvido anteriormente um sistema autônomo voltado à detecção de benzodiazepínicos.

A ideia agora é integrar diferentes análises em uma plataforma compacta, capaz de fornecer alertas rápidos sem depender de equipamentos especializados.

Se os próximos estudos confirmarem sua eficácia e segurança em condições reais, um pequeno dispositivo de papel poderá ajudar a identificar bebidas suspeitas em poucos minutos.

Por enquanto, trata-se de uma demonstração promissora de como uma reação química simples pode ser transformada em uma ferramenta de prevenção.

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