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Ciência

Cientistas descobrem por que a febre e o frio podem aumentar a transmissão de doenças respiratórias — e a explicação está no comportamento do ar que expiramos

Uma nova pesquisa revelou que a diferença entre a temperatura do corpo e a do ambiente pode alterar significativamente a forma como aerossóis respiratórios se espalham. O fenômeno ajuda a entender por que algumas doenças podem se propagar com mais facilidade em determinadas condições climáticas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Desde a pandemia de Covid-19, a ciência passou a dedicar atenção redobrada à forma como vírus e bactérias se espalham pelo ar. Tosses, espirros e até a simples respiração liberam pequenas partículas capazes de transportar microrganismos por ambientes fechados, tornando a transmissão aérea um dos principais mecanismos de disseminação de doenças respiratórias.

Agora, um estudo liderado por pesquisadores da Universidade Rovira i Virgili (URV), na Espanha, identificou um fator que vinha recebendo menos atenção do que deveria: a temperatura. Segundo os cientistas, quanto maior a diferença entre a temperatura do ar expirado e a do ambiente, maior pode ser o alcance das partículas respiratórias.

A descoberta ajuda a explicar por que situações envolvendo febre e temperaturas baixas podem favorecer a propagação de infecções como gripe, Covid-19 e tuberculose.

O que acontece quando tossimos ou espirramos

Tosse Persistente
© Gustavo Fring – Pexels

Sempre que uma pessoa tosse ou espirra, ela libera uma nuvem de aerossóis composta por gotículas microscópicas suspensas no ar.

Essas partículas podem carregar vírus e bactérias e permanecer circulando por períodos variáveis antes de se dispersarem completamente. A forma como essa nuvem se comporta depende de diversos fatores, incluindo a intensidade da exalação, a anatomia das vias respiratórias, a ventilação do ambiente e até a umidade do ar.

O novo estudo acrescenta mais uma variável importante à equação: a temperatura.

Segundo os pesquisadores, quando o ar quente expelido pelos pulmões encontra um ambiente significativamente mais frio, ocorrem mudanças físicas que alteram a trajetória e a dispersão dos aerossóis.

Simulando febre em laboratório

Para investigar o fenômeno, a equipe adaptou um simulador respiratório desenvolvido em pesquisas anteriores.

O equipamento foi configurado para expelir ar aquecido a 37°C, reproduzindo a temperatura corporal de uma pessoa com febre leve. Os experimentos foram realizados em uma câmara climática do Instituto de Pesquisa em Energia da Catalunha, onde os cientistas conseguiram controlar cuidadosamente as condições ambientais.

Foram testados três cenários de temperatura ambiente: 27°C, 17°C e 7°C.

Além disso, os pesquisadores variaram a intensidade das exalações e analisaram duas situações distintas: uma em que o fluxo de ar passava parcialmente pelo nariz e outra em que era expelido apenas pela boca.

Ao todo, foram realizadas 180 repetições experimentais para garantir a consistência dos resultados.

Quanto mais frio o ambiente, mais longe as partículas viajam

As observações mostraram um padrão claro.

Quando a diferença entre a temperatura do ar expirado e a temperatura ambiente aumentava, a nuvem de aerossóis permanecia mais compacta e conseguia percorrer distâncias maiores antes de se dispersar.

Segundo Nicolás Catalán, pesquisador do Departamento de Engenharia Mecânica da URV e um dos autores do estudo, o fenômeno ocorre porque as diferenças de densidade entre o ar quente e o ar frio criam forças de flutuabilidade capazes de modificar a estrutura e a trajetória da nuvem respiratória.

Na prática, isso significa que os aerossóis podem permanecer concentrados por mais tempo e alcançar regiões mais distantes do ambiente.

Esse efeito se torna particularmente relevante quando uma pessoa com febre está em um local frio, situação em que a diferença térmica é ainda mais acentuada.

O nariz também influencia a propagação

Os pesquisadores identificaram outro fator importante: o papel da cavidade nasal.

Quando parte do fluxo respiratório passa pelo nariz, a nuvem de partículas tende a perder alcance horizontal e se dispersa mais verticalmente.

Já quando a exalação ocorre exclusivamente pela boca, os aerossóis avançam de forma mais direta e horizontal, aumentando potencialmente sua distância de propagação.

Essa combinação entre temperatura, intensidade da respiração e participação do nariz cria padrões bastante distintos de dispersão, mostrando que a transmissão aérea é muito mais complexa do que parece à primeira vista.

Aplicações para hospitais, escolas e transporte público

Além de esclarecer aspectos fundamentais da física dos aerossóis, o estudo pode ter aplicações práticas importantes.

Os resultados podem ajudar especialistas a desenvolver sistemas de ventilação mais eficientes e protocolos de segurança mais adequados para ambientes onde o risco de transmissão é elevado.

Hospitais, escolas, laboratórios, aeroportos e meios de transporte coletivo estão entre os locais que podem se beneficiar desse conhecimento.

Os pesquisadores ressaltam, porém, que muitos fatores ainda precisam ser investigados. Variáveis como umidade do ar, circulação de ar em ambientes fechados e tempo de permanência das partículas em suspensão continuam sendo temas importantes para pesquisas futuras.

Mesmo assim, a descoberta reforça uma conclusão cada vez mais clara: a transmissão de doenças respiratórias não depende apenas dos patógenos presentes no ar, mas também das condições físicas que determinam para onde essas partículas conseguem viajar.

 

[ Fonte: La Razón ]

 

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