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Ciência

Cientistas descobrem por que algumas pessoas conseguem dormir só 4 horas

Durante décadas parecia impossível explicar por que algumas pessoas funcionam perfeitamente com muito menos sono. Agora, pesquisadores identificaram uma pista genética que pode mudar o que sabemos sobre descanso.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Dormir pouco costuma ser visto como um problema. Falta de concentração, fadiga e queda no desempenho são consequências comuns quando o descanso é insuficiente. Por isso, durante muito tempo acreditou-se que todos os seres humanos precisavam de aproximadamente oito horas de sono para funcionar bem. No entanto, sempre existiu um pequeno grupo de pessoas que desafia essa regra. Elas dormem muito menos — e ainda assim acordam cheias de energia.

Um pequeno detalhe no DNA que muda tudo

Por muito tempo, essas pessoas foram vistas como exceções curiosas da biologia humana. Algumas relatavam dormir apenas quatro ou cinco horas por noite sem sentir cansaço, enquanto outras precisavam de quase o dobro para se sentir descansadas.

Agora, pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco acreditam ter encontrado uma explicação convincente para esse fenômeno. O grupo identificou uma mutação genética específica associada a indivíduos que naturalmente precisam de menos sono.

A variante, conhecida como SIK3-N783Y, aparece em pessoas que dormem entre quatro e seis horas por noite sem apresentar sinais de fadiga, déficit cognitivo ou problemas metabólicos.

Essas pessoas não são insones e tampouco têm hábitos ruins de descanso. Na verdade, trata-se de uma condição biológica chamada “sono curto natural”. Nela, o corpo simplesmente precisa de menos tempo para completar os processos de recuperação que normalmente ocorrem durante o sono.

Esse achado se soma a outras mutações já identificadas em pesquisas anteriores, reforçando a ideia de que o sono não funciona exatamente da mesma forma para todos os seres humanos.

O que os experimentos revelaram sobre esse fenômeno

Para entender melhor como essa mutação atua no organismo, os cientistas realizaram testes em diferentes níveis de análise — incluindo experimentos com animais.

Nos estudos com camundongos, os pesquisadores observaram que a presença dessa variante genética reduzia o tempo total de sono dos animais. À primeira vista, a diferença parecia pequena quando medida em minutos. Mas, considerando o ciclo de vida e o padrão biológico desses animais, o impacto era significativo.

Nos humanos, o efeito se torna ainda mais evidente. Indivíduos que carregam essa mutação não apenas dormem menos — eles também relatam sentir desconforto ao tentar prolongar o sono além do que o corpo considera necessário.

Em outras palavras, não se trata de resistência ao cansaço, mas de um organismo que simplesmente opera com um ritmo diferente. Para essas pessoas, quatro ou cinco horas de descanso podem cumprir as mesmas funções biológicas que oito horas representam para a maioria da população.

O que essa descoberta pode mudar na medicina

Embora a descoberta ainda esteja sendo investigada, ela abre caminhos interessantes para a medicina do sono.

Os pesquisadores acreditam que compreender o funcionamento do gene SIK3 pode ajudar no desenvolvimento de novos tratamentos para distúrbios como insônia crônica ou sonolência excessiva durante o dia.

Se os cientistas conseguirem entender como essas pessoas conseguem realizar em menos tempo os processos de recuperação que ocorrem durante o sono, talvez seja possível aplicar esse conhecimento em terapias futuras.

Além disso, o estudo levanta uma questão evolutiva intrigante. Em um mundo onde o tempo parece cada vez mais escasso, indivíduos capazes de descansar menos e manter o mesmo nível de desempenho poderiam, teoricamente, ter uma vantagem adaptativa.

A resposta para o título está justamente nessa descoberta: algumas pessoas dormem apenas quatro horas porque possuem uma mutação genética que altera a forma como o organismo regula o sono. Não é força de vontade, disciplina extrema ou hábito — é simplesmente biologia.

E isso sugere que aquilo que consideramos “normal” pode ser, na verdade, muito mais variável do que imaginávamos.

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