A corrida das grandes empresas para incorporar inteligência artificial em praticamente todas as áreas dos negócios continua produzindo situações curiosas — e às vezes desastrosas.
Desta vez, quem voltou atrás foi a Starbucks. Segundo uma reportagem da agência Reuters, a empresa encerrou o uso de uma ferramenta de IA voltada ao controle de estoque após apenas nove meses de operação.
O motivo parece simples, mas extremamente problemático para um sistema desse tipo: a inteligência artificial não conseguia contar produtos corretamente.
A decisão representa mais um caso em que tecnologias vendidas como revolucionárias acabam enfrentando dificuldades ao lidar com tarefas básicas do cotidiano operacional.
A IA foi criada para automatizar o inventário das lojas
O sistema era fornecido pela startup NomadGo e havia sido implementado pela Starbucks em setembro de 2025.
Na época, a solução foi apresentada como uma ferramenta capaz de automatizar o processo de inventário nas cafeterias, reduzindo trabalho manual e aumentando a eficiência operacional.
A tecnologia utilizava visão computacional, inteligência espacial em 3D e realidade aumentada para analisar prateleiras e identificar produtos automaticamente.
Segundo a empresa, funcionários poderiam escanear uma prateleira inteira em menos de 30 segundos.
O CEO da NomadGo, David Greschler, chegou a afirmar que a missão da companhia era “contar tudo o que possui valor no mundo”.
O sistema prometia 99% de precisão, mas falhava frequentemente
Em materiais promocionais, a NomadGo afirmava que o sistema atingia 99% de precisão no reconhecimento de itens.
Na prática, porém, a experiência parece ter sido bem diferente.
Segundo a Reuters, funcionários relataram que a ferramenta frequentemente errava contagens e identificava produtos incorretamente.
O problema afetava especialmente componentes de bebidas e leite — itens fundamentais para a operação diária da Starbucks.
Em um comunicado interno obtido pela agência, a empresa informou que o sistema Automated Counting seria oficialmente aposentado.
A partir de agora, esses produtos voltarão a ser contabilizados manualmente, da mesma forma que outras categorias de estoque já eram verificadas nas lojas.
A iniciativa fazia parte da estratégia do novo CEO da Starbucks
O projeto teria sido impulsionado por Brian Niccol, executivo que assumiu o comando da companhia após sua passagem pela Chipotle.
Niccol vinha defendendo mudanças operacionais para reduzir falhas de abastecimento que, segundo ele, estavam afetando as vendas da rede.
A ideia era usar IA para tornar o gerenciamento de estoque mais rápido e padronizado em todas as lojas da América do Norte.
Mas os problemas relatados mostram como aplicações de inteligência artificial ainda enfrentam dificuldades em ambientes reais, especialmente quando precisam lidar com produtos variados, iluminação diferente e operações altamente dinâmicas.
Starbucks continua apostando fortemente em inteligência artificial
Apesar do fracasso do sistema de inventário, a Starbucks segue investindo em IA em diversas áreas.
A companhia já testa o Green Dot Assist, um assistente virtual criado para ajudar baristas a lembrar receitas e ingredientes de bebidas sazonais.
Outro projeto é o Smart Queue, sistema que organiza pedidos vindos do balcão, drive-thru, aplicativos e delivery.
Além disso, a empresa lançou recentemente uma integração com o OpenAI através do ChatGPT para recomendar bebidas aos clientes dentro do aplicativo da Starbucks.
Segundo a empresa, a ideia é usar IA para ajudar consumidores a descobrir novas combinações de bebidas personalizadas.
O caso reforça dúvidas sobre a aplicação prática da IA corporativa
O episódio acontece em um momento em que grandes empresas aceleram a adoção de inteligência artificial em setores operacionais, muitas vezes antes de validar completamente a confiabilidade dessas ferramentas.
Nos últimos meses, diferentes companhias relataram problemas semelhantes envolvendo sistemas automatizados de previsão, atendimento e logística.
Um dos casos mais comentados envolveu uma franquia da Pizza Hut, que processou a empresa responsável por um sistema de IA após alegar perdas milionárias causadas por falhas operacionais.
No caso da Starbucks, o problema pode parecer simples — uma IA incapaz de contar produtos corretamente —, mas ele expõe um desafio muito maior: transformar promessas tecnológicas impressionantes em soluções realmente confiáveis no mundo real.