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Ciência

Cientistas registraram baleias cruzando do Brasil até a Austrália em uma viagem sem precedentes — e isso pode mudar o que sabemos sobre migração marinha

Duas baleias-jubarte foram identificadas em pontos separados por mais de 15 mil quilômetros entre Brasil e Austrália, estabelecendo o maior deslocamento já registrado para a espécie. O fenômeno surpreendeu pesquisadores e pode revelar mudanças profundas no comportamento desses gigantes marinhos em um oceano cada vez mais afetado pelo clima.
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Tempo de leitura: 3 minutos

As baleias-jubarte já são conhecidas por realizar algumas das migrações mais longas do reino animal. Todos os anos, esses mamíferos percorrem milhares de quilômetros entre águas frias de alimentação e regiões tropicais de reprodução.

Mas um novo estudo acaba de revelar deslocamentos muito além do esperado.

Pesquisadores identificaram duas baleias que apareceram tanto em áreas costeiras do Brasil quanto da Austrália — uma conexão oceânica considerada extremamente rara para a espécie.

A descoberta foi publicada na revista científica Royal Society Open Science e reforça a hipótese de que algumas jubartes conseguem atravessar praticamente todo o Oceano Austral durante a vida.

As baleias foram reconhecidas pelas marcas únicas da cauda

Baleias Jubarte
© Ben Phillips – Pexels

Os cientistas utilizaram um enorme banco de dados internacional de fotografias das caudas das baleias-jubarte.

Cada animal possui padrões únicos nas nadadeiras caudais, funcionando quase como impressões digitais biológicas.

Ao comparar dezenas de milhares de imagens registradas por pesquisadores e observadores de baleias ao redor do mundo, os cientistas conseguiram identificar os mesmos indivíduos em locais extremamente distantes.

Uma das baleias foi observada inicialmente em Queensland, na costa leste australiana, em 2007 e novamente em 2013. Anos depois, apareceu próximo a São Paulo, em 2019.

Os pontos de avistamento estavam separados por aproximadamente 14.200 quilômetros.

A segunda baleia apresentou um deslocamento ainda maior.

Ela foi registrada pela primeira vez na região de Bahia, em 2003, e reapareceu 22 anos depois em Hervey Bay, na Austrália, a cerca de 15.100 quilômetros de distância.

A distância real pode ter sido ainda maior

Os pesquisadores destacam que esses números representam apenas a separação entre os locais onde os animais foram fotografados.

Na prática, a rota real percorrida provavelmente foi muito mais longa, já que as baleias não viajam em linha reta e podem passar anos sem serem registradas novamente.

Mesmo assim, os dados já representam o maior deslocamento conhecido entre áreas reprodutivas distintas para baleias-jubarte do hemisfério sul.

O estudo reforça a chamada “Hipótese de Intercâmbio no Oceano Austral”, segundo a qual diferentes populações de jubartes podem se encontrar em áreas de alimentação próximas da Antártida e, em casos raros, retornar por rotas completamente diferentes até novas regiões de reprodução.

O comportamento é extremamente raro

Segundo os pesquisadores, os intervalos de seis e 22 anos entre os registros indicam que esse tipo de travessia provavelmente não faz parte da migração normal da espécie.

Os cientistas acreditam que sejam eventos excepcionais, possivelmente ocorrendo apenas uma vez na vida do animal.

Os números reforçam essa ideia.

Entre milhares de baleias monitoradas globalmente, apenas 0,01% apresentou um deslocamento desse tipo.

Mesmo raro, o fenômeno possui enorme importância biológica.

Essas viagens ajudam a manter a diversidade genética das baleias

Criaturas estranhas surgem quando uma baleia afunda no oceano
© Pexels

De acordo com Stephanie Stack, coautora do estudo, esses deslocamentos ocasionais podem ajudar a preservar a diversidade genética entre populações separadas geograficamente.

Quando indivíduos migram para novas áreas reprodutivas, eles levam genes diferentes para outros grupos, reduzindo riscos associados ao isolamento populacional.

Além disso, os pesquisadores sugerem que as baleias também podem transportar novos padrões de canto entre populações distintas — algo extremamente importante no comportamento social das jubartes.

Mudanças climáticas podem estar alterando rotas migratórias

Os cientistas suspeitam que o aquecimento global possa tornar esses deslocamentos mais frequentes no futuro.

Mudanças no Oceano Austral, como alterações na distribuição do krill antártico — principal alimento das jubartes — e transformações no gelo marinho, podem estar influenciando novas rotas migratórias.

A Universidade Griffith afirmou que as mudanças climáticas podem aumentar a probabilidade dessas travessias interoceânicas nas próximas décadas.

A descoberta só foi possível graças à ciência cidadã

Grande parte das imagens utilizadas no estudo veio de turistas, fotógrafos e observadores de baleias que enviam registros para plataformas internacionais de monitoramento.

Para Cristina Castro, o caso mostra como a ciência cidadã se tornou essencial para compreender a vida marinha.

“Cada fotografia ajuda a ampliar nosso entendimento sobre a biologia das baleias”, explicou a pesquisadora.

No fim, o estudo revela algo impressionante: mesmo após décadas de pesquisa oceânica, alguns dos maiores animais do planeta ainda são capazes de surpreender os cientistas com jornadas que pareciam praticamente impossíveis.

 

[ Fonte: DW ]

 

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