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Ciência

Cientistas descobrem que bactérias no intestino dos peixes podem influenciar um dos grandes ciclos químicos dos oceanos

Peixes marinhos bebem água do mar há centenas de milhões de anos para sobreviver em um ambiente que tenta desidratá-los constantemente. Agora, pesquisadores descobriram que bactérias presentes em seus intestinos podem desempenhar um papel inesperado nesse processo, participando da formação de minerais que ajudam a regular parte da química dos oceanos que cobrem 71% da superfície da Terra.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Quando pensamos nos organismos que influenciam os grandes ciclos químicos do planeta, geralmente imaginamos florestas, fitoplâncton ou recifes de coral. Pouca gente apostaria em bactérias vivendo dentro do intestino de um peixe.

No entanto, um estudo publicado na revista PLOS Biology sugere que esses microrganismos podem estar envolvidos em um processo fundamental para a dinâmica química dos oceanos.

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Miami e investigou o papel do microbioma intestinal do peixe-sapo-do-Golfo (Opsanus beta), uma espécie encontrada no Golfo do México.

Um peixe que precisa beber água para não desidratar

A Linguagem Dos Peixes
© FreePik

Pode parecer contraditório, mas os peixes marinhos enfrentam um desafio constante: o oceano é mais salgado do que seus fluidos corporais.

Isso significa que a água tende a sair naturalmente de seus corpos por osmose. Para compensar essa perda, eles precisam beber água do mar continuamente.

Durante esse processo, a água é absorvida no intestino enquanto o excesso de sais e minerais é eliminado. Entre os subprodutos dessa filtragem está o carbonato de cálcio (CaCO₃), expelido na forma de pequenas partículas conhecidas como ictiocarbonatos.

Essas partículas não são insignificantes. Estimativas indicam que os peixes ósseos marinhos contribuem com algo entre 3% e 15% do carbonato que entra no ciclo do carbono inorgânico dos oceanos.

Até agora, acreditava-se que esse mecanismo fosse resultado exclusivo da fisiologia dos próprios peixes.

Um suspeito que estava escondido à vista de todos

Os pesquisadores decidiram investigar se o microbioma intestinal poderia estar participando do processo.

Para isso, expuseram exemplares de Opsanus beta a três níveis diferentes de salinidade: baixa, normal e elevada.

Quanto mais salina a água, mais o peixe precisa beber para manter o equilíbrio interno. Consequentemente, a produção de ictiocarbonatos aumenta.

Foi justamente nesse cenário que surgiu uma pista inesperada.

Ao analisar o conteúdo intestinal dos peixes submetidos à maior salinidade, os cientistas observaram um aumento significativo na atividade de determinadas bactérias, especialmente microrganismos pertencentes ao grupo dos vibrios, incluindo a espécie Photobacterium damselae.

Mais importante ainda: a análise genética mostrou que essas bactérias não estavam apenas presentes. Elas pareciam metabolicamente ativas em processos associados à precipitação mineral.

O que a pesquisa realmente descobriu

Os próprios autores destacam que é preciso cautela na interpretação dos resultados.

O estudo não demonstra de forma definitiva que as bactérias sejam responsáveis pela produção do carbonato de cálcio. O que ele mostra é uma forte correlação entre a atividade bacteriana e a formação dos ictiocarbonatos.

Por isso, os pesquisadores utilizam uma expressão cuidadosa: as bactérias “podem apoiar” o processo de precipitação mineral.

A diferença é importante. Demonstrar correlação é diferente de provar causalidade.

Ainda será necessário realizar novos experimentos para determinar se esses microrganismos são indispensáveis para o mecanismo ou se apenas contribuem para sua eficiência.

Uma descoberta que levanta ainda mais perguntas

A extinção que redesenhou os oceanos e abriu caminho para os peixes modernos
© Pexels

Outra limitação importante é que toda a pesquisa foi realizada com uma única espécie e em condições controladas de laboratório.

Existem milhares de espécies de peixes ósseos marinhos espalhadas pelos oceanos. Não se sabe se o mesmo fenômeno ocorre em todas elas, em apenas algumas ou em diferentes intensidades dependendo do ambiente.

Mesmo assim, o estudo abre uma nova linha de investigação na biologia marinha.

Se o microbioma intestinal estiver realmente envolvido nesse processo em diversas espécies, os cientistas poderão precisar revisar parte da compreensão atual sobre como ocorre a formação de carbonato nos oceanos.

Um mecanismo silencioso que pode existir há milhões de anos

Talvez o aspecto mais fascinante da descoberta seja sua escala temporal.

Os peixes ósseos marinhos habitam os oceanos há mais de 400 milhões de anos. Durante todo esse tempo, vêm ingerindo água do mar, regulando seus sais internos e liberando carbonato de cálcio no ambiente.

Se as bactérias intestinais sempre participaram desse processo, então estamos diante de um mecanismo que ajudou a moldar a química oceânica durante centenas de milhões de anos sem que ninguém tivesse percebido.

A descoberta não representa uma solução para as mudanças climáticas nem uma nova tecnologia ambiental. Seu valor está em ampliar a compreensão sobre como funciona um dos sistemas mais complexos da Terra.

Agora, os cientistas querem saber se esse papel das bactérias varia entre espécies, se é afetado pelo aquecimento dos oceanos e como responde à crescente acidificação marinha.

O mecanismo começou a ser revelado. Mas o mapa completo dessa interação entre peixes, bactérias e oceanos ainda está apenas começando a ser desenhado.

 

[ Fonte: Muy Interesante ]

 

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