Pular para o conteúdo
Ciência

Sob 3 quilômetros de gelo, cientistas encontram gigantesca estrutura em forma de leque na Antártida que pode mudar o que sabemos sobre o continente

Uma descoberta escondida sob a Antártida Oriental está revelando um capítulo desconhecido da história geológica do planeta. Pesquisadores identificaram uma imensa estrutura em forma de leque enterrada sob quilômetros de gelo, conectando algumas das formações subglaciais mais famosas do continente e oferecendo novas pistas sobre a evolução de Gondwana e o futuro das geleiras antárticas.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

A Antártida continua sendo um dos lugares mais misteriosos da Terra. Sob sua gigantesca camada de gelo, que em algumas regiões ultrapassa 3 mil metros de espessura, esconde-se uma paisagem tão complexa quanto a de qualquer continente exposto. Agora, uma nova pesquisa publicada na revista Nature Geoscience revelou uma das estruturas geológicas mais impressionantes já identificadas sob o gelo antártico.

Os cientistas descobriram uma vasta formação em forma de leque na Antártida Oriental, composta por enormes bacias subterrâneas que, analisadas em conjunto, formam uma única província geológica. A estrutura recebeu o nome de Província de Bacias em Leque da Antártida Oriental e reúne regiões que até então eram estudadas separadamente.

Um quebra-cabeça escondido sob o gelo

A Antártida guardava um segredo sob o gelo: fragmento de âmbar revela como era seu antigo bosque
© Pexels – Susanne Jutzeler, suju-foto.

A descoberta engloba algumas das formações subglaciais mais conhecidas da Antártida, incluindo as bacias de Wilkes e Aurora, além da depressão que abriga o famoso Lago Vostok, considerado o maior lago subglacial do planeta.

Durante décadas, essas áreas foram analisadas como sistemas independentes. No entanto, a nova pesquisa sugere que todas fazem parte de uma única estrutura continental gigantesca, cuja geometria lembra um leque aberto quando observada em escala regional.

O reconhecimento dessa conexão permite aos cientistas compreender melhor como a crosta terrestre da Antártida evoluiu ao longo de centenas de milhões de anos.

A marca deixada por antigos movimentos tectônicos

Segundo os pesquisadores, a formação dessa estrutura está associada a um processo conhecido como extensão rotacional distribuída.

Embora o nome pareça complexo, a ideia é relativamente simples. Em determinado momento da história geológica, a crosta continental da região teria sido esticada a partir de um ponto central, criando fraturas e áreas de afundamento que se espalharam em diferentes direções.

Os cientistas utilizam a imagem de uma mão aberta para ilustrar o fenômeno. O ponto central funcionaria como a base do polegar, enquanto os demais “dedos” representariam regiões da crosta que se afastaram gradualmente. Entre elas, surgiram grandes bacias triangulares, responsáveis pelo padrão em forma de leque identificado sob o gelo.

De acordo com o estudo, esse pode ser um dos maiores exemplos já documentados desse tipo de deformação em crosta continental.

Uma herança da fragmentação de Gondwana

A origem da estrutura parece estar ligada a eventos tectônicos que ocorreram durante a formação e posterior fragmentação de Gondwana, o supercontinente que reunia a Antártida, a América do Sul, a África, a Austrália, a Índia e outras massas continentais.

Quando Gondwana começou a se romper, intensos processos geológicos remodelaram a região. Os pesquisadores acreditam que as bacias agora identificadas sejam resultado direto dessas transformações profundas.

Posteriormente, a separação entre a Antártida e a Austrália continuou influenciando a arquitetura da crosta terrestre, contribuindo para o desenvolvimento da gigantesca província geológica descoberta agora.

Como os cientistas enxergaram o que está escondido

Antartida P
© Cassie Matias – Unsplash

Revelar uma estrutura enterrada sob quilômetros de gelo não é tarefa simples.

Para reconstruir o cenário subterrâneo da Antártida Oriental, a equipe internacional combinou informações obtidas por perfurações, levantamentos sísmicos, dados gravitacionais, medições magnéticas, observações geológicas e modelos detalhados da crosta terrestre.

Um dos participantes do estudo, o pesquisador Guy Paxman, calculou como seria a paisagem da Antártida Oriental caso toda a camada de gelo desaparecesse. Esse exercício permitiu estimar a topografia original da região, considerando que o terreno poderia se elevar até um quilômetro devido ao chamado rebote isostático, processo que ocorre quando a crosta deixa de suportar o peso do gelo.

Essas simulações ajudaram a revelar a verdadeira dimensão e orientação da estrutura em leque.

Uma descoberta que também aponta para o futuro

Embora a pesquisa ajude a reconstruir o passado geológico da Antártida, suas implicações vão muito além da história do continente.

A forma do leito rochoso continua influenciando diretamente o comportamento das geleiras atuais. A topografia subterrânea controla o fluxo do gelo, a localização dos lagos subglaciais e a estabilidade de regiões particularmente sensíveis ao aquecimento global.

Compreender essa arquitetura oculta permite melhorar modelos climáticos e projeções sobre o futuro das massas de gelo antárticas.

Em outras palavras, uma estrutura formada há dezenas ou centenas de milhões de anos continua exercendo influência sobre processos que podem afetar o nível dos oceanos nas próximas décadas. Sob o vasto manto branco da Antártida, o passado geológico permanece moldando silenciosamente o futuro do planeta.

 

[ Fonte: El Confidencial ]

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados