A alergia ao amendoim está entre as reações alimentares mais graves conhecidas pela medicina. Em muitos casos, uma exposição mínima pode desencadear sintomas intensos — desde irritações cutâneas até dificuldades respiratórias potencialmente fatais.
Agora, pesquisadores descobriram algo surpreendente: algumas bactérias que vivem naturalmente na saliva humana podem quebrar justamente as proteínas responsáveis por essas reações alérgicas.
O estudo foi liderado por cientistas da McMaster University e conduzido por pesquisadores do Farncombe Family Digestive Health Research Institute. Os resultados foram publicados na revista científica Cell Host & Microbe.
A descoberta sugere que o próprio microbioma humano — o conjunto de microrganismos que vivem no corpo — pode conter mecanismos naturais capazes de reduzir o impacto de alergias alimentares.
Uma alergia comum e potencialmente perigosa
A alergia ao amendoim é uma das mais frequentes alergias alimentares, especialmente em países ocidentais.
Estima-se que cerca de 2% da população nesses países conviva com essa condição. Além disso, ela está entre as alergias com maior risco de reações graves.
Entre 7% e 14% das pessoas alérgicas sofrem algum episódio alérgico ao longo de um ano. Em muitos casos, essas reações podem evoluir para anafilaxia — uma resposta extrema do sistema imunológico que pode provocar queda brusca da pressão arterial, dificuldade respiratória e até risco de morte.
Outro fator preocupante é que a alergia ao amendoim tende a persistir ao longo da vida. Diferentemente de outras alergias alimentares infantis, ela continua presente em cerca de 80% das pessoas diagnosticadas ainda na infância.
As proteínas responsáveis pelas reações
Grande parte das reações alérgicas ao amendoim é provocada por duas proteínas específicas presentes no alimento: Ara h 1 e Ara h 2.
Essas moléculas são reconhecidas pelo sistema imunológico de pessoas alérgicas como ameaças, desencadeando respostas inflamatórias intensas.
Para entender se microrganismos do corpo humano poderiam neutralizar essas proteínas, os pesquisadores analisaram bactérias presentes na boca e no intestino.
O trabalho incluiu experimentos em laboratório com culturas bacterianas e testes em modelos experimentais com camundongos que apresentam alergia ao amendoim.
A bactéria que pode neutralizar os alérgenos
Durante os experimentos, os cientistas identificaram diversas bactérias capazes de degradar as proteínas alergênicas.
Entre elas estavam microrganismos dos gêneros Staphylococcus, Streptococcus e Veillonella.
Mas uma bactéria se destacou de forma clara: Rothia aeria.
Esse microrganismo, comum no microbioma oral humano, mostrou uma capacidade impressionante de quebrar as proteínas Ara h 1 e Ara h 2.
Nos testes em laboratório, a bactéria conseguiu praticamente eliminar 100% dessas proteínas alergênicas.
Segundo o pesquisador Alberto Caminero Fernandez, coautor do estudo, isso revela uma conexão direta entre o microbioma oral e a resposta do organismo a alergias alimentares.
O papel do microbioma na tolerância ao amendoim
Para verificar se essa descoberta também se refletia em pessoas reais, os pesquisadores analisaram dados de um estudo anterior envolvendo 120 crianças com suspeita de alergia ao amendoim.
Entre elas, alguns pacientes eram altamente sensíveis ao alimento, enquanto outros toleravam quantidades maiores sem desenvolver sintomas.
A análise mostrou que Rothia aeria estava significativamente mais presente na saliva de indivíduos que não apresentavam alergia ou que possuíam maior tolerância ao amendoim.
Esse resultado reforça a hipótese de que certas bactérias do microbioma podem ajudar o corpo a lidar melhor com proteínas alergênicas.
Possíveis novos tratamentos no futuro
A descoberta ainda está em estágio inicial, mas abre caminhos promissores para novas abordagens terapêuticas.
Uma possibilidade é o desenvolvimento de tratamentos baseados em probióticos contendo bactérias cultivadas em laboratório.
Esses microrganismos poderiam ajudar a degradar proteínas alergênicas antes que o sistema imunológico desencadeie uma reação.
Outra estratégia potencial envolve combinar essas bactérias com terapias de imunoterapia oral — um método no qual pacientes são expostos gradualmente a pequenas quantidades do alérgeno para desenvolver tolerância.
Um novo capítulo na pesquisa sobre alergias
Segundo o pesquisador Liam Rondeau, um dos autores do estudo, a descoberta ajuda a explicar por que algumas pessoas com alergia conseguem ingerir pequenas quantidades de amendoim sem apresentar sintomas graves.
A resposta pode estar menos no alimento em si e mais no conjunto de microrganismos que vivem dentro do nosso próprio corpo.
Se pesquisas futuras confirmarem esses resultados, a saliva humana — e as bactérias que ela abriga — poderá revelar uma nova arma natural contra uma das alergias alimentares mais perigosas do mundo.