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Tecnologia

Meta discutiu campanha de bastidores para desacreditar seu maior crítico, mostram documentos judiciais

Notas internas revelam discussões para mobilizar acadêmicos contra Jonathan Haidt, autor de “A geração ansiosa”.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Aparentemente, era mais fácil do que resolver o problema.

Nos últimos anos, a Meta passou a enfrentar um escrutínio crescente sobre os efeitos das redes sociais — especialmente Facebook e Instagram — na saúde mental e no bem-estar de crianças e adolescentes. Diante da pressão para agir, a empresa se mobilizou… para discutir como enfraquecer seu principal crítico.

Segundo documentos apresentados recentemente à Justiça, em uma ação contra a Meta e outras gigantes das redes sociais, a companhia considerou adotar uma estratégia de bastidores para desacreditar Jonathan Haidt.

Psicólogo social e autor de “A geração ansiosa”, Haidt sustenta que smartphones e redes sociais prejudicaram os jovens, contribuindo para a deterioração da saúde mental e o aumento de ansiedade, depressão e automutilação entre adolescentes.

As discussões sobre uma campanha contra Haidt

O documento inclui uma seção intitulada “Well-being Meeting Sound-check Notes”, que parece reunir anotações abreviadas de reuniões. Um dos registros, aparentemente referente a terça-feira, 7 de março de 2023, mostra uma equipe da Meta discutindo como lidar com Haidt.

Na época, o pesquisador havia acabado de lançar uma newsletter no Substack para desenvolver suas pesquisas e comentar notícias relacionadas ao tema.

Entre as sugestões anotadas estava a ideia de colocar outros acadêmicos contra Haidt, mobilizando especialistas em metodologia para apresentar críticas mais contundentes.

As notas reconhecem que as pesquisas do psicólogo provavelmente teriam destaque em ações judiciais contra a Meta envolvendo saúde mental infantil. Isso aparentemente acrescentava urgência ao esforço para questionar sua credibilidade.

Em vez de uma resposta direta, os participantes discutiram uma “estratégia de rumores”: espalhar dúvidas sobre o trabalho do pesquisador na expectativa de que elas chegassem à imprensa.

A proposta de mobilizar pesquisadores

Uma anotação do dia seguinte, 8 de março, atribui a Curtiss Cobb, então vice-presidente de pesquisa da Meta, a tarefa de descobrir como levar a comunidade acadêmica a repudiar Haidt.

O registro sugere que, se não fosse possível cooptar os pesquisadores, seria necessário encontrar uma maneira de provocar sua indignação. Entre as ideias discutidas estava recrutar nomes de peso da academia para contestar Haidt na imprensa.

Um dos nomes citados é “Gellman”, possivelmente uma referência a Andrew Gelman, professor de estatística e ciência política da Universidade Columbia, que já criticou pesquisas de Haidt em seu blog.

A anotação propunha conseguir que “Gellman” escrevesse um artigo para atacar o trabalho do psicólogo. Em uma publicação recente em seu blog, porém, Gelman afirmou que nunca foi procurado pela Meta para produzir esse texto.

Portanto, ou as notas se referiam a outra pessoa, ou a empresa não levou adiante essa abordagem específica.

Mesmo mantendo suas críticas a Haidt, Gelman condenou a discussão revelada pelos documentos. Para ele, o episódio mostra pessoas entre as mais ricas e poderosas do mundo conspirando para interferir nos processos abertos da ciência, do jornalismo e da Justiça.

Críticas acadêmicas já existiam sem a Meta

A empresa provavelmente não precisava recorrer a manobras de bastidores para encontrar quem discordasse de Haidt. A comunidade acadêmica já havia produzido diversas críticas independentes ao trabalho do pesquisador.

Há até um livro inteiro dedicado, em grande parte, a contestar sua teoria: “Restoring Childhood”, publicado neste ano pelo psicólogo pesquisador e professor do Boston College Peter Gray.

A existência dessas divergências torna a discussão interna da Meta especialmente problemática. Contestar métodos, dados e conclusões faz parte do debate científico. Organizar uma estratégia corporativa para prejudicar a reputação de um crítico acrescenta outro interesse a esse processo.

Os documentos não estabelecem se a empresa efetivamente executou a campanha discutida. Ainda assim, mostram que a proposta foi debatida em mais de uma reunião e aparentemente chegou ao ponto de envolver executivos de alto escalão.

Diante de uma crise de saúde pública, a resposta discutida dentro da companhia foi tratar uma crise de relações públicas.

A Meta não respondeu ao pedido de comentário do Gizmodo.

 

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