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Ciência

Os asteroides que devastaram a Terra podem ter criado as condições para o surgimento da vida — e um novo estudo explica como isso teria acontecido

Um novo estudo propõe uma visão surpreendente sobre os impactos de asteroides na Terra primitiva. Em vez de apenas destruir o planeta, essas colisões podem ter transformado o subsolo em um vasto ambiente favorável às reações químicas que antecederam o aparecimento dos primeiros organismos vivos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante décadas, a história da origem da vida foi associada a uma Terra hostil, constantemente bombardeada por asteroides gigantes. Nesse cenário, cada impacto parecia representar mais um obstáculo para o desenvolvimento da química que acabaria dando origem aos primeiros seres vivos. Mas uma nova pesquisa publicada na revista AGU Advances sugere justamente o contrário: as colisões podem ter desempenhado um papel fundamental ao criar enormes sistemas subterrâneos onde água quente, minerais e energia circularam durante centenas de milhões de anos, formando ambientes ideais para a química prebiótica.

Uma Terra completamente diferente da atual

Fase Mais Fria Da Terra1
© NASA

Entre 4,5 bilhões e 3,5 bilhões de anos atrás, nosso planeta era muito diferente do que conhecemos hoje. O interior da Terra ainda conservava grande parte do calor de sua formação, o vulcanismo era extremamente intenso e o Sistema Solar interno estava repleto de corpos rochosos em constante colisão.

Esse período, conhecido como Hadeano e início do Arqueano, foi marcado por impactos de asteroides muito mais frequentes do que em qualquer outra época da história do planeta.

Pesquisas anteriores já haviam mostrado que grandes crateras poderiam dar origem a sistemas hidrotermais. Após o impacto, a crosta terrestre permanecia profundamente fraturada e o calor acumulado permitia que a água circulasse pelo subsolo durante milhares ou até milhões de anos.

Esses ambientes ricos em calor e minerais figuram há muito tempo entre os principais candidatos para explicar onde as primeiras reações químicas ligadas ao surgimento da vida podem ter ocorrido.

A chave da descoberta está na permeabilidade da crosta

O diferencial do novo estudo não foi investigar apenas o calor produzido pelos impactos, mas entender como essas colisões modificavam permanentemente a estrutura interna da crosta terrestre.

Para isso, pesquisadores utilizaram 37 simulações computacionais de alta resolução capazes de reproduzir a propagação das ondas de choque provocadas pelos impactos, a fragmentação das rochas e a formação de enormes redes de fraturas.

O conceito central da pesquisa é a permeabilidade — a facilidade com que a água consegue atravessar um material.

Uma rocha compacta praticamente impede a passagem de fluidos. Já uma rocha intensamente fraturada funciona como uma esponja, permitindo que água quente circule continuamente entre diferentes camadas do subsolo.

Esse fluxo constante transporta calor, minerais e compostos químicos, além de criar gradientes energéticos considerados essenciais por diversos modelos que tentam explicar como moléculas simples evoluíram para estruturas cada vez mais complexas antes do surgimento da vida.

Segundo os autores, os impactos transformavam a crosta terrestre em um gigantesco sistema de circulação hidrotermal.

As simulações revelaram um cenário inesperado

Os pesquisadores analisaram impactos de diferentes tamanhos, velocidades e condições geológicas da Terra primitiva, alterando variáveis como espessura da crosta, temperatura interna e até mesmo a presença de oceanos.

Os resultados mostraram um padrão bastante consistente.

Quanto maior era a energia liberada pelo impacto, maior se tornava a região fraturada ao redor da cratera. Essas áreas não ficavam restritas ao local da colisão, mas se espalhavam por extensas regiões da crosta terrestre, formando enormes redes interligadas por onde a água podia circular.

Segundo o estudo, antes de cerca de 4,3 bilhões de anos atrás, os primeiros oito quilômetros da crosta terrestre podem ter permanecido praticamente inteiros permeáveis graças aos sucessivos bombardeios de asteroides.

Essa condição teria persistido, ainda que de forma gradual, até aproximadamente 3,5 bilhões de anos atrás, quando a frequência dos impactos diminuiu e a crosta começou a adquirir características mais semelhantes às atuais.

Os pesquisadores também compararam esses sistemas hidrotermais antigos com ambientes modernos, como o Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos.

Mesmo os menores impactos simulados produziram sistemas hidrotermais comparáveis ou maiores que Yellowstone. Os maiores asteroides, por sua vez, criaram regiões que superavam esse famoso complexo geotérmico em diversas ordens de grandeza.

Um planeta repleto de laboratórios naturais

A principal conclusão do trabalho não é que um único impacto tenha dado origem à vida.

A proposta é muito mais ampla.

Se boa parte da crosta terrestre permaneceu permeável durante centenas de milhões de anos, então o número de locais capazes de sustentar reações químicas complexas aumentou enormemente.

Em vez de alguns poucos ambientes hidrotermais isolados, a Terra primitiva pode ter abrigado uma vasta rede subterrânea de “laboratórios naturais”, onde água quente rica em minerais circulava continuamente, oferecendo energia e compostos essenciais para a evolução da química prebiótica.

Isso amplia significativamente as possibilidades de onde os primeiros passos rumo à vida poderiam ter ocorrido.

A descoberta também muda a busca por vida em outros planetas

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© Pexels

As implicações da pesquisa vão muito além da história da Terra.

Se grandes impactos são capazes de criar extensos sistemas hidrotermais subterrâneos, outros mundos rochosos também podem ter passado por processos semelhantes.

Marte é um dos principais candidatos. O planeta preserva inúmeras crateras antigas e há fortes evidências de que abrigou água líquida bilhões de anos atrás.

Nesse contexto, muitos desses antigos impactos podem ter criado ambientes subterrâneos favoráveis ao desenvolvimento de uma química complexa, tornando o planeta um alvo ainda mais interessante na busca por sinais de vida passada.

Os próprios autores reconhecem que ainda existem incertezas sobre a composição da crosta terrestre há mais de 4 bilhões de anos e que novos dados geológicos poderão refinar os modelos utilizados. Ainda assim, as diferentes simulações produziram resultados consistentes, reforçando a principal conclusão do estudo.

Mais do que explicar definitivamente como a vida surgiu, a pesquisa muda a forma de enxergar os primeiros capítulos da história do nosso planeta. Em vez de representar apenas destruição, os impactos de asteroides podem ter preparado o terreno para que a química da vida encontrasse inúmeras oportunidades para florescer — transformando um período de aparente caos em um dos momentos mais importantes da evolução da Terra.

 

[ Fonte: Muy Interesante ]

 

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