Eles são invisíveis a olho nu, vivem nos poros da pele desde o nascimento e acompanham praticamente toda a vida humana. Durante muito tempo foram vistos apenas como parasitas discretos, mas novas pesquisas sugerem que essa relação pode estar mudando de maneira profunda. Segundo cientistas, esses pequenos habitantes do rosto estão evoluindo de uma forma rara, que pode aproximá-los cada vez mais do organismo humano.
Os ácaros que vivem na pele humana podem estar deixando de ser parasitas

A maioria das pessoas abriga naturalmente nos folículos pilosos do rosto um microscópico ácaro chamado Demodex folliculorum. Com cerca de um terço de milímetro de comprimento, ele passa praticamente toda a vida dentro dos poros da pele, alimentando-se de células mortas e de secreções produzidas pelo próprio organismo.
Seu ciclo de vida dura apenas cerca de três semanas e acontece quase inteiramente protegido da luz, no interior dos folículos. Durante décadas, esses organismos foram classificados como ectoparasitas, já que vivem sobre o hospedeiro sem fazer parte de seus tecidos.
No entanto, uma pesquisa publicada na revista científica Molecular Biology and Evolution sugere que essa classificação talvez precise ser revista.
Segundo os pesquisadores, a dependência desses ácaros em relação aos seres humanos tornou-se tão intensa ao longo da evolução que eles podem estar passando por um processo de transição para uma relação de simbiose obrigatória. Em outras palavras, estariam se adaptando de tal maneira ao ambiente da pele humana que já não conseguiriam sobreviver em qualquer outro lugar.
Essa transformação é considerada incomum na natureza e levanta a hipótese de que esses pequenos organismos possam exercer funções benéficas para a pele, em vez de simplesmente viver às custas do hospedeiro.
O DNA desses ácaros mudou porque eles vivem em um ambiente extremamente protegido
Para compreender melhor essa evolução, os cientistas sequenciaram o genoma do Demodex folliculorum e encontraram alterações genéticas bastante peculiares.
Como vivem em um ambiente estável, protegido de predadores e com pouca competição por alimento, esses ácaros perderam ao longo do tempo uma parte significativa de seu material genético. Hoje, conservam apenas os genes considerados essenciais para sua sobrevivência.
Essa simplificação extrema também aparece na anatomia. Cada uma de suas patas é movimentada por apenas três músculos formados por uma única célula, estrutura considerada muito mais simples do que a observada em outros ácaros.
A análise genética revelou ainda que esses organismos perderam genes responsáveis pela proteção contra a radiação ultravioleta. Isso explica por que eles permanecem escondidos durante o dia e só se deslocam pela superfície da pele durante a noite.
Outro detalhe curioso chamou atenção dos pesquisadores: eles não conseguem produzir melatonina, hormônio que, em pequenos invertebrados, ajuda a regular movimentos e reprodução.
A hipótese levantada pela equipe é que esses ácaros obtenham melatonina diretamente da pele humana, que naturalmente libera esse hormônio ao anoitecer.
Eles podem ajudar a manter a pele limpa, e um antigo mito acaba de cair por terra
A adaptação ao ambiente humano também alterou a estrutura corporal desses pequenos organismos.
Como vivem em espaços extremamente estreitos dentro dos folículos, desenvolveram corpos alongados e reorganizaram seus órgãos reprodutivos para permitir o acasalamento na superfície dos pelos faciais.
Ao mesmo tempo, os cientistas observam que o isolamento entre diferentes populações desses ácaros reduz a diversidade genética, o que pode representar um desafio para sua evolução futura.
Mesmo assim, outro aspecto chamou a atenção dos pesquisadores: durante a passagem para a fase adulta, esses organismos perdem determinadas células, característica considerada compatível com processos evolutivos observados em espécies que caminham para relações simbióticas mais estreitas com seus hospedeiros.
O estudo também derrubou uma crença bastante difundida sobre esses habitantes microscópicos da pele.
Durante muitos anos acreditou-se que eles não possuíam ânus e acumulavam resíduos durante toda a vida, liberando esse material apenas após morrerem, o que explicaria problemas dermatológicos.
As análises mostraram que essa teoria estava errada. Os pesquisadores confirmaram que o Demodex folliculorum possui um sistema excretor funcional e elimina seus resíduos normalmente.
Mais do que isso, sua presença pode até exercer um papel positivo na manutenção da pele, consumindo continuamente células mortas e parte da oleosidade acumulada nos poros.
Embora ainda sejam necessárias novas pesquisas para compreender completamente essa relação, as descobertas indicam que esses minúsculos moradores do rosto talvez estejam deixando de ser vistos como simples parasitas para ocupar um papel muito mais complexo na biologia humana.
[Fonte: Larazon]