O que aconteceria se uma guerra, uma pandemia devastadora ou uma tempestade solar interrompesse completamente o abastecimento de alimentos? Em poucos dias, supermercados ficariam vazios e milhões de pessoas dependeriam exclusivamente daquilo que conseguissem produzir perto de casa.
Foi justamente essa hipótese que levou pesquisadores da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, a investigar quais culturas agrícolas seriam capazes de sustentar uma população em caso de colapso da civilização moderna. O resultado mostra que a sobrevivência dependeria não apenas da quantidade de terra disponível, mas também da escolha das plantas certas.
Quanto espaço seria necessário para alimentar uma cidade?

Os pesquisadores utilizaram como modelo a cidade de Palmerston North, que possui cerca de 90 mil habitantes e fica a aproximadamente 140 quilômetros de Wellington.
Com base em dados demográficos, características do solo e informações geográficas, a equipe calculou a quantidade de calorias e proteínas necessária para manter toda a população alimentada usando apenas recursos produzidos localmente.
O estudo concluiu que, em condições climáticas normais, cada pessoa precisaria de aproximadamente 115 metros quadrados de área cultivável para suprir suas necessidades nutricionais básicas.
Em uma cidade de porte médio, isso significaria reservar um cinturão agrícola de pouco mais de 1.100 hectares ao redor da área urbana. Segundo os autores, essa meta é perfeitamente viável do ponto de vista geográfico, desde que áreas férteis não sejam ocupadas por novos empreendimentos imobiliários ou industriais.
Cenário 1: colapso do comércio, mas clima preservado
Se o transporte de alimentos deixasse de existir, mas o clima permanecesse estável, a estratégia ideal envolveria dividir a produção entre a cidade e sua periferia.
Dentro das áreas urbanas, parques, jardins, quintais e até varandas deveriam ser utilizados para o cultivo de ervilhas.
Os pesquisadores explicam que elas oferecem excelente quantidade de proteínas, enriquecem naturalmente o solo ao fixar nitrogênio e conseguem produzir bem mesmo em espaços reduzidos. Além disso, quando consumidas secas, podem ser armazenadas durante longos períodos.
Ainda assim, mesmo utilizando toda a área urbana disponível, seria possível alimentar apenas cerca de 20% da população.
Para abastecer os outros 80%, a solução seria dedicar praticamente todo o cinturão agrícola periférico ao cultivo de batatas.
Segundo o estudo, a batata apresenta um dos maiores rendimentos calóricos por hectare entre todas as culturas agrícolas, tornando-se a opção mais eficiente para alimentar um grande número de pessoas.
O que mudaria em um inverno nuclear?

Os pesquisadores também analisaram um cenário ainda mais extremo: um inverno nuclear, caracterizado por baixa luminosidade, temperaturas muito reduzidas e geadas constantes.
Nessas condições, tanto as batatas quanto as ervilhas deixariam de ser culturas viáveis.
Dentro da cidade, a prioridade passaria para vegetais mais resistentes ao frio intenso, especialmente espinafre e beterraba forrageira.
Já nas áreas agrícolas ao redor dos centros urbanos, a distribuição das plantações mudaria completamente.
Os cálculos indicam que aproximadamente 97% da área disponível deveria ser destinada ao cultivo de trigo, responsável por fornecer a maior parte das calorias necessárias para a população.
Os 3% restantes seriam ocupados por cenouras, escolhidas por fornecer vitamina A, nutriente essencial para manter funções importantes do organismo durante períodos prolongados de escassez alimentar.
Pecuária deixaria de fazer sentido
Outro ponto importante do estudo é o papel da criação de animais em um cenário de isolamento total.
Segundo os pesquisadores, manter rebanhos para produção de carne ou leite seria inviável, já que os animais consomem grandes quantidades de recursos e transformam a energia das plantas em alimentos para humanos de forma pouco eficiente.
Por isso, áreas destinadas ao pasto deveriam ser convertidas rapidamente em lavouras. Na prática, a alimentação da população passaria a ser predominantemente vegetariana, aproveitando ao máximo cada metro quadrado disponível para produzir alimentos diretamente consumidos pelas pessoas.
Planejamento faria toda a diferença

Os autores ressaltam que o modelo representa um cenário teórico e que uma crise real envolveria inúmeros desafios logísticos.
A sobrevivência dependeria de planejamento antecipado, incluindo bancos de sementes, preservação de solos férteis, sistemas alternativos de irrigação e fontes de energia para operar máquinas agrícolas caso o abastecimento de combustíveis fosse interrompido.
Mesmo com essas limitações, o estudo mostra que cidades possuem uma capacidade de adaptação muito maior do que se imaginava. Para os pesquisadores, fortalecer a agricultura urbana e proteger áreas agrícolas próximas aos centros urbanos pode ser uma estratégia importante para aumentar a resiliência diante de futuras crises globais.
[ Fonte: Meteored ]