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Ciência

Cientistas descobrem um potencial inesperado nas muelas do siso

Durante décadas tratadas como peças inúteis da evolução, as muelas do siso agora despertam interesse científico. Pesquisas recentes sugerem que esses dentes podem guardar um recurso biológico valioso.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Por muito tempo, as muelas do siso foram vistas apenas como um problema odontológico — dentes que causam dor, desalinhamento e frequentemente acabam removidos. No entanto, novas pesquisas científicas começaram a mudar essa percepção. O que antes parecia apenas um vestígio evolutivo pode esconder algo muito mais interessante para a medicina moderna. Cientistas e especialistas em biotecnologia agora investigam um potencial inesperado escondido nesses dentes.

De dente problemático a material biológico promissor

Cientistas descobrem um potencial inesperado nas muelas do siso
© https://x.com/TodaysNewsco

Durante anos, as muelas do siso foram consideradas praticamente inúteis. Na maioria dos casos, sua presença está associada a inflamações, falta de espaço na arcada dentária ou dificuldades de higiene, o que frequentemente leva à recomendação de extração.

Mas estudos recentes começaram a revelar que esses dentes podem conter um material biológico extremamente valioso. O interesse científico surge principalmente da polpa dentária, o tecido mole localizado no interior do dente.

Segundo pesquisadores e especialistas em odontologia, esse tecido pode conter células com características muito especiais. Elas apresentam uma capacidade significativa de se transformar em diferentes tipos celulares — uma propriedade que vem sendo amplamente investigada no campo da medicina regenerativa.

O presidente do Conselho Geral de Dentistas da Espanha, Óscar Castro Reino, explica que o uso dessas estruturas biológicas ainda está em fase avançada de pesquisa pré-clínica. Os resultados iniciais, no entanto, são considerados muito promissores.

Pesquisas conduzidas em universidades europeias, incluindo centros acadêmicos na Espanha, já conseguiram isolar células presentes na polpa dentária que demonstram uma elevada capacidade de diferenciação celular.

Isso significa que elas podem, em determinadas condições laboratoriais, transformar-se em outros tipos de células do organismo.

Apesar do entusiasmo científico, os especialistas ressaltam que esse tipo de aplicação ainda está distante de se tornar um tratamento médico comum. Antes disso, as pesquisas precisam avançar por várias etapas clínicas, incluindo testes de segurança e validações regulatórias.

O potencial terapêutico escondido nos terceiros molares

O que torna essas células tão interessantes para a ciência é justamente sua versatilidade. Estudos indicam que elas pertencem ao grupo das chamadas células-tronco mesenquimais.

Esse tipo celular possui a capacidade de se diferenciar em diversos tecidos do corpo humano.

Entre as possibilidades observadas em laboratório estão células formadoras de ossos, cartilagem, tecido adiposo, fibras musculares e até células com características semelhantes às neurais.

Dentro da odontologia, esse potencial já desperta interesse para aplicações relacionadas à regeneração de estruturas bucais. Pesquisas investigam seu uso em tratamentos periodontais, recuperação óssea após implantes dentários e cirurgias maxilofaciais.

Também há estudos que analisam sua utilidade em casos de perda óssea associada à osteonecrose.

Mas o campo de investigação vai além da saúde bucal.

Experimentos realizados em modelos animais sugerem que essas células podem contribuir para a regeneração de tecidos em diferentes partes do organismo. Alguns estudos indicam melhora de sintomas em doenças neurodegenerativas, como Parkinson, além de resultados promissores na regeneração de ossos, cartilagens e até tecidos cardíacos.

Essas descobertas ainda precisam ser confirmadas em estudos clínicos com humanos, mas já despertam grande interesse na área da biotecnologia médica.

Aplicações que vão muito além da odontologia

Especialistas acreditam que o potencial terapêutico dessas células pode ser bastante amplo no futuro.

Entre as possibilidades em estudo estão tratamentos regenerativos voltados para doenças neurodegenerativas, incluindo Parkinson e Alzheimer. Outra área que pode se beneficiar é a traumatologia, com pesquisas focadas na regeneração de ossos e cartilagens após lesões.

Há também investigações envolvendo cirurgia cardíaca e até aplicações em medicina estética, como terapias para recuperação de tecidos danificados por queimaduras.

Mesmo com esse cenário promissor, os especialistas enfatizam que a maior parte dessas aplicações ainda está restrita ao campo experimental.

Em outras palavras, a ciência está apenas começando a explorar o verdadeiro potencial desse material biológico.

O que já está claro, no entanto, é que a visão sobre as muelas do siso mudou significativamente.

Durante muito tempo consideradas apenas um resquício evolutivo sem função prática, elas passaram a ser vistas como uma possível fonte valiosa de células-tronco.

Isso também explica o surgimento de bancos especializados na criopreservação de tecido dentário. Nesses locais, fragmentos da polpa podem ser armazenados em condições controladas para eventuais usos futuros em pesquisas ou tratamentos.

Quando a extração das muelas do siso é realmente necessária

Apesar do novo interesse científico, isso não significa que as muelas do siso devam sempre ser mantidas.

Especialistas explicam que a extração continua sendo indicada em diversas situações clínicas.

Entre elas estão casos de dor persistente, infecções conhecidas como pericoronarite, cáries difíceis de tratar ou o surgimento de cistos associados ao dente.

A remoção também pode ser recomendada em tratamentos ortodônticos, especialmente quando é necessário criar espaço na arcada dentária.

Outro cenário comum envolve dentes impactados ou parcialmente erupcionados, que podem aumentar o risco de inflamações ou outras complicações.

Por outro lado, quando os terceiros molares estão totalmente erupcionados, saudáveis e bem posicionados, não há motivo obrigatório para extraí-los.

Quando a remoção é necessária, muitos especialistas recomendam que ela seja realizada entre os 17 e os 25 anos.

Nesse período, os dentes ainda estão em fase de desenvolvimento e a cirurgia tende a ser mais simples, com menor risco de complicações no pós-operatório.

Estima-se que entre 25% e 30% das pessoas apresentem muelas do siso impactadas ou retidas. Dentro desse grupo, uma parcela significativa acaba desenvolvendo algum tipo de complicação ao longo da vida, o que acaba levando à extração.

Ainda assim, o avanço das pesquisas científicas mostra que esses dentes podem ter um valor muito maior do que se imaginava.

[Fonte: Cuidate plus]

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