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Itaú entra em novo projeto com blockchain e mira uma mudança importante nos investimentos

Uma nova iniciativa pretende testar títulos e fundos dentro de infraestruturas digitais baseadas em blockchain, aproximando uma tecnologia associada às criptomoedas do sistema financeiro tradicional brasileiro.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Comprar um título, negociar um fundo e liquidar uma operação financeira são processos sustentados por uma enorme infraestrutura que o investidor quase nunca vê. No Brasil, parte dessa engrenagem pode começar a funcionar de maneira diferente. O Itaú Unibanco entrou em uma nova iniciativa de tokenização que pretende testar como investimentos tradicionais podem existir e circular em registros digitais distribuídos, reforçando uma transformação que já mobiliza bancos e mercados internacionais.

Itaú entra em um novo teste com ativos tokenizados

Itaú entra em novo projeto com blockchain e mira uma mudança importante nos investimentos
© YouTube

O Itaú Unibanco avançou em sua estratégia de ativos digitais ao iniciar uma colaboração com a OpenAssets, empresa especializada em infraestrutura de tokenização.

A parceria faz parte de um projeto piloto conduzido pela ANBIMA, Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais, destinado a explorar aplicações da tecnologia de registro distribuído no mercado financeiro.

O experimento pretende avaliar como títulos de renda fixa e fundos de investimento podem ser emitidos, negociados e liquidados utilizando infraestrutura baseada em DLT, tecnologia da qual as blockchains são uma das aplicações mais conhecidas.

Na prática, a tokenização permite criar uma representação digital de determinado ativo dentro de uma infraestrutura programável.

Isso não significa necessariamente transformar títulos tradicionais em criptomoedas. O objetivo é utilizar algumas das tecnologias popularizadas pelos criptoativos para modernizar processos do mercado financeiro convencional.

O piloto também deverá analisar uma questão fundamental para qualquer eventual utilização em grande escala: quais regras, padrões técnicos e mecanismos operacionais serão necessários para que bancos e gestores possam trabalhar com esses ativos.

A presença do Itaú aumenta a relevância do experimento.

Com sede em São Paulo e centenas de bilhões de dólares em ativos, o banco está entre as maiores instituições financeiras da América Latina.

Por que bancos estão interessados na tokenização

A tokenização deixou de ser uma experiência restrita ao universo das criptomoedas.

Nos últimos anos, bancos globais, bolsas e gestoras começaram a investigar como ativos tradicionais poderiam funcionar dentro de redes digitais.

Entre os candidatos estão títulos de dívida, fundos, ações, crédito privado e outros instrumentos financeiros.

Uma das promessas está na possibilidade de reduzir algumas das etapas existentes entre emissão, negociação e liquidação de ativos.

Em determinadas arquiteturas, processos que atualmente dependem de diferentes intermediários e bancos de dados poderiam compartilhar uma infraestrutura comum, permitindo maior automação.

Contratos programáveis também poderiam executar determinadas regras automaticamente quando condições previamente estabelecidas fossem cumpridas.

É por isso que grandes instituições financeiras acompanham o setor.

Estimativas do Citi já apontaram que o mercado de valores mobiliários tokenizados poderia alcançar US$ 5,5 trilhões até 2030, caso a adoção de infraestruturas baseadas em blockchain continue avançando.

Mas transformar essa projeção em realidade depende de obstáculos importantes.

Regulação, interoperabilidade, privacidade, governança e integração com sistemas bancários existentes precisam funcionar em conjunto. E é justamente esse tipo de questão que pilotos como o da ANBIMA pretendem investigar.

Brasil já virou um grande laboratório para ativos digitais

Itaú entra em novo projeto com blockchain e mira uma mudança importante nos investimentos
© Pexels

O novo projeto não aparece isoladamente.

O Brasil vem acumulando experiências de tokenização que envolvem desde grandes instituições financeiras até operações bastante incomuns.

Em 2025, a brasileira VERT Capital revelou planos para tokenizar até US$ 1 bilhão em dívidas e recebíveis utilizando a XDC Network.

O Mercado Bitcoin, por sua vez, anunciou uma iniciativa para tokenizar aproximadamente US$ 200 milhões em ativos no XRP Ledger, incluindo instrumentos de renda fixa e participações financeiras.

Mas talvez um dos exemplos mais curiosos tenha surgido longe dos grandes centros financeiros.

Produtores rurais do Paraná chegaram a utilizar uma estrutura de tokenização envolvendo dez vacas leiteiras, numa tentativa de criar uma alternativa de financiamento diante das dificuldades de acesso ao crédito bancário convencional.

Os tokens foram colocados em circulação utilizando uma infraestrutura conectada à B3.

O caso ajuda a demonstrar como o conceito pode ir muito além de ações e títulos. Em teoria, diferentes ativos ou direitos econômicos podem ganhar representações digitais, desde que exista uma estrutura jurídica e operacional capaz de sustentá-las.

Para o Itaú, entretanto, essa história começou antes do atual projeto.

O banco já participou de outra grande experiência brasileira

O piloto da ANBIMA não representa a primeira aproximação do Itaú com ativos tokenizados.

Em 2023, a instituição esteve entre as selecionadas pelo Banco Central do Brasil para participar do piloto do Drex, iniciativa que explorou transações envolvendo dinheiro e ativos representados digitalmente.

O novo projeto amplia essa trajetória e aproxima o banco de aplicações relacionadas diretamente a fundos e renda fixa.

A OpenAssets, parceira do Itaú no atual experimento, também procura expandir sua infraestrutura para esse mercado.

A empresa levantou US$ 10 milhões em uma rodada de investimentos liderada pela Valor Capital Group, especializada na América Latina. Entre os participantes estavam investidores ligados ao setor de ativos digitais.

Para Gabor Gurbacs, presidente e CEO da OpenAssets, o Brasil reúne condições para fazer a tokenização avançar da fase experimental para aplicações produtivas.

O que pode mudar para quem investe

Por enquanto, o projeto continua sendo um piloto, e isso significa que não existe garantia de que o modelo testado será imediatamente oferecido aos clientes do banco.

Ainda assim, o experimento aponta para uma mudança maior acontecendo nos bastidores.

Durante muito tempo, blockchain foi quase sinônimo de Bitcoin e outras criptomoedas para grande parte do público. Agora, instituições financeiras procuram utilizar a tecnologia sem necessariamente abandonar os ativos tradicionais.

A diferença é importante.

Em vez de substituir fundos, títulos e outros investimentos, a tokenização pode modificar a infraestrutura usada para emitir, registrar, transferir e liquidar esses produtos.

Se os testes mostrarem vantagens operacionais e os desafios regulatórios forem resolvidos, investidores talvez nem percebam todas as mudanças tecnológicas acontecendo por trás de suas aplicações.

E esse pode ser justamente o sinal de que a tokenização entrou em uma nova etapa: quando deixa de ser uma curiosidade associada ao universo cripto e começa a funcionar silenciosamente dentro das engrenagens dos maiores bancos.

[Fonte: Coin desk]

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