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Ciência

Cientistas encontram uma estrutura magnética inesperada na Via Láctea — e o novo mapa da galáxia pode mudar o que sabemos sobre sua evolução

Um levantamento internacional revelou que o campo magnético da Via Láctea é muito mais complexo do que se imaginava. Usando radiotelescópios de última geração, pesquisadores mapearam mais da metade do céu e descobriram padrões intrincados que desafiam teorias clássicas, abrindo novas pistas sobre como as galáxias se formam e evoluem.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante décadas, os astrônomos trataram o campo magnético da Via Láctea como uma estrutura relativamente simples e suave. Mas um novo estudo está mudando essa visão. Resultados preliminares do projeto DRAGONS mostram que nossa galáxia abriga regiões magnéticas altamente complexas, espalhadas por grande parte do céu. A descoberta não apenas redefine o retrato magnético da Via Láctea, como também oferece novas ferramentas para entender a dinâmica do universo.

Um novo retrato magnético da nossa galáxia

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© Pexels

O avanço vem de um mapeamento liderado pela Universidade de British Columbia Okanagan (UBCO), no Canadá, em parceria com um consórcio internacional de pesquisadores. O trabalho faz parte do projeto DRAGONS, a mais recente etapa de uma série de levantamentos em rádio que buscam reconstruir, em três dimensões, a estrutura magnética da Via Láctea.

Segundo o astrônomo Tom Landecker, do Dominion Radio Astrophysical Observatory (DRAO) e um dos líderes da colaboração, o projeto funciona como uma espécie de bússola galáctica. Ele permite observar como matéria e campos magnéticos se organizam e como esses campos interagem com bolhas criadas por supernovas, braços espirais e outras estruturas da galáxia.

O resultado mais chamativo é que mais da metade do céu apresenta padrões magnéticos surpreendentemente intrincados, contrariando a ideia de que esses campos seriam majoritariamente uniformes.

Como o DRAGONS conseguiu enxergar o invisível

O levantamento foi conduzido com um radiotelescópio de 15 metros do DRAO, capaz de captar emissões de rádio polarizadas em uma ampla faixa de frequências. Essa abordagem permitiu aos cientistas medir a chamada rotação de Faraday, um efeito físico que ocorre quando ondas de rádio atravessam regiões magnetizadas do espaço.

Ao analisar como essas ondas são distorcidas ao longo do caminho, os pesquisadores conseguem inferir a intensidade, a direção e a morfologia dos campos magnéticos interestelares. É como observar sombras projetadas por estruturas invisíveis.

A astrônoma Anna Ordog, ex-pesquisadora da UBCO e responsável pela supervisão técnica do projeto, explica que o DRAGONS é o primeiro levantamento a revelar esse nível de complexidade em escalas tão grandes, cobrindo todo o hemisfério norte celeste. Pela primeira vez, tornou-se possível observar a emissão polarizada vinda do interior da própria Via Láctea, algo que escapava às técnicas anteriores.

Essa possibilidade retoma uma hipótese proposta ainda em 1966: a de que ondas de rádio polarizadas, observadas em diferentes frequências, poderiam revelar a estrutura tridimensional dos campos magnéticos galácticos. Faltava, até agora, tecnologia capaz de medir esse efeito com precisão suficiente.

Um telescópio que abriu caminho para a nova geração

Radiotelescópio
© UNSJ

O radiotelescópio de 15 metros usado no estudo foi originalmente construído como protótipo para o Square Kilometre Array (SKA), megaprojeto internacional em implantação na África do Sul e na Austrália Ocidental. Pela primeira vez, esse instrumento foi empregado de forma plena em uma investigação científica de grande escala.

Ordog liderou a configuração inicial do DRAGONS ao lado de estudantes da UBCO e da Universidade de Calgary, com apoio de engenheiros e técnicos do DRAO. Em apenas seis meses, o equipamento conseguiu varrer o céu e produzir um mapa detalhado das regiões magnetizadas.

Os estudantes participaram ativamente de todas as etapas, desde o desenho experimental até a análise dos primeiros sinais, desenvolvimento de algoritmos para filtrar interferências e controle de qualidade dos dados. Essa colaboração foi essencial para lidar com o enorme volume de informações geradas.

Complexos de Faraday e novas perguntas sobre o cosmos

O levantamento, publicado na revista The Astrophysical Journal Supplement Series, mostrou que vastas áreas do céu são dominadas por estruturas conhecidas como “complexos de Faraday”, regiões onde o magnetismo apresenta padrões especialmente elaborados.

Para Landecker, o mais surpreendente foi justamente a extensão dessas áreas. Nem mesmo os autores do estudo esperavam que uma fração tão grande da abóbada celeste exibisse esse grau de complexidade.

Alex Hill, professor da UBCO e codiretor do projeto, destaca que compreender o campo magnético da Via Láctea é fundamental para explicar como as galáxias funcionam e como o próprio universo se organizou ao longo do tempo. Até agora, essas medições eram feitas de forma muito simplificada.

Os dados do DRAGONS já começaram a render novos resultados, incluindo um estudo recente sobre uma inversão em grande escala do campo magnético galáctico, liderado por uma doutoranda da Universidade de Calgary.

Segundo Ordog, o impacto do projeto vai além de um retrato estático da Via Láctea. Ele inaugura uma nova geração de levantamentos em rádio capazes de mapear o magnetismo galáctico em três dimensões. Para a astronomia, isso significa um passo decisivo rumo a uma compreensão mais profunda das forças invisíveis que moldam o cosmos.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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