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Ciência

Uma tempestade solar revelou que o “escudo” contra raios cósmicos muda conforme a região do espaço — e isso pode transformar a previsão do clima espacial

Uma rara configuração de três sondas espaciais permitiu comparar, pela primeira vez, como uma mesma ejeção solar reduz os raios cósmicos em diferentes pontos do Sistema Solar. O resultado mostra que a proteção não depende só da distância ao Sol, mas também da posição dentro da nuvem de plasma — um avanço importante para proteger satélites e infraestrutura na Terra.
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Tempo de leitura: 4 minutos

 Explosões solares não afetam o espaço de maneira uniforme. Agora, graças a um alinhamento inédito de sondas, cientistas conseguiram observar esse fenômeno em tempo real, medindo como uma única tempestade solar alterou o fluxo de raios cósmicos em locais distintos. O estudo abre uma nova janela para entender o clima espacial e aprimorar previsões de eventos capazes de impactar desde satélites até redes elétricas.

Três missões, uma mesma ejeção solar

O avanço só foi possível graças a uma coincidência rara. Em março de 2022, três missões — Solar Orbiter, BepiColombo e Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO) — ficaram alinhadas de forma ideal para registrar a passagem da mesma ejeção de massa coronal, uma gigantesca bolha de plasma e campos magnéticos lançada pelo Sol.

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Agência Espacial do Japão, em colaboração com instituições do Reino Unido, Espanha, Finlândia, França, Portugal, Coreia do Sul, Alemanha e Áustria. Pela primeira vez, eles puderam comparar diretamente como um único evento solar afetou a quantidade de raios cósmicos galácticos em diferentes regiões do espaço.

Para isso, a equipe desenvolveu métodos inéditos de calibração entre instrumentos distintos, permitindo alinhar os dados de partículas de cada sonda — algo que até então não havia sido feito com esse nível de precisão.

O fenômeno Forbush e a queda dos raios cósmicos

Sol Solar Actividade
© Kamran Abdullayev – Unsplash

O foco do estudo foi o chamado Forbush decrease: uma redução temporária no fluxo de raios cósmicos causada pela passagem de uma ejeção solar. Essas partículas de alta energia atravessam constantemente o Sistema Solar, mas são parcialmente bloqueadas quando nuvens magnéticas vindas do Sol passam pelo caminho.

Os resultados mostraram diferenças marcantes conforme o local de observação. Próximo ao Sol, o Solar Orbiter registrou uma queda de 32,4% nos raios cósmicos. Já perto da Lua, o LRO mediu uma redução menor, de cerca de 18%.

Mais surpreendente ainda foi o padrão temporal. No Solar Orbiter, a diminuição ocorreu em duas etapas, enquanto na órbita lunar apareceu apenas um único declínio. Isso desafia o modelo clássico, que prevê um processo em dois passos para esse tipo de evento.

A posição importa — e muito

O caso do BepiColombo trouxe outra pista importante. Apesar de estar a uma distância do Sol semelhante à do Solar Orbiter, mas em outra direção, a sonda observou uma queda ainda menor, de apenas 13%, mesmo atravessando uma região de campo magnético intenso.

Isso indica que a proteção contra raios cósmicos não depende apenas da proximidade com o Sol. A posição relativa da nave dentro da estrutura da ejeção — e não só sua distância — parece ser decisiva.

Em outras palavras, duas espaçonaves igualmente afastadas do Sol podem experimentar efeitos completamente diferentes, dependendo de como atravessam a nuvem de plasma e campos magnéticos.

Um passo adiante na previsão do clima espacial

Os pesquisadores reconhecem que o trabalho se baseia em um único evento e que serão necessários mais estudos coordenados para confirmar as tendências observadas. Ainda assim, o resultado já aponta um caminho promissor: combinar dados de partículas com medições de plasma e campos magnéticos pode melhorar significativamente os modelos de propagação das ejeções solares.

Para Gaku Kinoshita, doutorando da Universidade de Tóquio e um dos líderes do estudo, entender como essas enormes nuvens solares se deslocam é essencial para proteger tecnologia e pessoas. “Compreender como grandes volumes de material solar viajam pelo espaço é fundamental para resguardar satélites, astronautas e até as redes elétricas na Terra”, afirmou.

Segundo ele, as quedas nos raios cósmicos funcionam como marcadores naturais dessas erupções. Ao combinar observações feitas em vários pontos do espaço, foi possível acompanhar como a ejeção mudou de forma e intensidade à medida que se afastava do Sol.

Por que isso importa aqui na Terra

Tormenta Solar
©
NASA Hubble Space Telescope – Unsplash

Tempestades solares intensas podem interferir em sistemas de navegação, comunicações e distribuição de energia. Quanto melhor for a capacidade de prever onde e como essas ejeções vão impactar o ambiente espacial, maior será a chance de antecipar danos e tomar medidas preventivas.

O estudo mostra que o clima espacial é muito mais tridimensional do que se imaginava. Não existe um “escudo solar” uniforme. A proteção varia conforme a trajetória das erupções e a posição de cada região do espaço.

Esse novo nível de detalhamento pode ser decisivo para transformar previsões gerais em alertas mais precisos — um passo essencial à medida que a humanidade depende cada vez mais de satélites e infraestrutura sensível ao humor do Sol.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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