A arqueologia costuma desvendar o passado por meio de ossos, ferramentas e ruínas. Mas, em alguns casos, os vestígios mais valiosos surgem dos objetos mais improváveis. Em uma antiga comunidade de caçadores-coletores no norte da Europa, adolescentes realizaram uma tarefa rotineira e sem importância aparente. Dez mil anos depois, esse simples gesto se transformaria em uma das descobertas mais impressionantes da arqueogenética moderna, permitindo aos cientistas investigar detalhes íntimos da vida de pessoas que viveram logo após a última Era do Gelo.
Um acampamento esquecido que se transformou em cápsula do tempo
A descoberta teve origem em Huseby Klev, um sítio arqueológico localizado na costa oeste da atual Suécia. Hoje a região fica na ilha de Orust, mas há cerca de 10 mil anos a paisagem era bastante diferente. O nível do mar era mais elevado, e a área funcionava como um acampamento de pesca ocupado por grupos humanos que estavam entre os primeiros habitantes da Escandinávia após o recuo das geleiras.
Durante escavações realizadas na década de 1990, arqueólogos encontraram uma enorme quantidade de materiais orgânicos excepcionalmente preservados. Havia ossos humanos, restos de animais, ferramentas de pedra, utensílios de madeira e dezenas de pequenos pedaços escuros de uma substância peculiar.
Esses fragmentos eram feitos de piche de casca de bétula, uma espécie de resina produzida pelo aquecimento controlado da casca dessa árvore. Na pré-história, o material era utilizado como cola para fixar lâminas de pedra em cabos de madeira e fabricar armas e ferramentas.
Antes de ser aplicado, o piche precisava ser amolecido. A maneira mais prática de fazer isso era mastigá-lo.
Foi exatamente isso que os habitantes de Huseby Klev fizeram. Depois de utilizar o material, simplesmente o descartaram no chão, sem imaginar que deixariam uma das mais extraordinárias fontes de informação biológica já encontradas sobre a Idade da Pedra.
O DNA preservado dentro de uma espécie de chiclete pré-histórico

Os pedaços de resina chamaram atenção dos arqueólogos porque muitos ainda exibiam marcas de dentes claramente visíveis. Análises iniciais indicaram que haviam sido mastigados por crianças e adolescentes.
Na época das escavações, porém, a tecnologia necessária para extrair DNA desses materiais ainda não existia. Os fragmentos foram cuidadosamente armazenados por décadas até que novas técnicas genéticas permitissem investigar seu conteúdo.
Em 2019, uma equipe internacional de pesquisadores conseguiu recuperar DNA humano de três desses pedaços de resina. O resultado surpreendeu a comunidade científica.
Os cientistas obtiveram material genético suficiente para reconstruir praticamente o genoma completo de três indivíduos que viveram cerca de 9.700 anos atrás. Entre eles estavam duas meninas e um menino.
Além de confirmar que pertenciam às populações de caçadores-coletores que ocupavam a Escandinávia após a última glaciação, o estudo demonstrou que aqueles pedaços mastigados representavam uma fonte extraordinária de DNA antigo.
O segredo da preservação estava na própria composição química do piche. A substância contém compostos naturais com propriedades antimicrobianas que dificultam a ação de bactérias responsáveis pela degradação biológica.
Quando os jovens descartaram a resina, sua saliva, células da boca e microrganismos ficaram protegidos dentro do material. Em seguida, uma camada de argila marinha cobriu o local e criou condições praticamente perfeitas para conservar aquele conteúdo durante milênios.
O que eles comeram e os problemas de saúde que carregavam
A história não terminou com a recuperação dos genomas. Em 2024, outro grupo de pesquisadores voltou a analisar os mesmos fragmentos utilizando técnicas voltadas para identificar o DNA de plantas, animais e microrganismos presentes na saliva dos mastigadores.
O resultado ofereceu um retrato surpreendentemente detalhado da rotina desses jovens.
As análises revelaram vestígios genéticos de veado-vermelho, truta, pato selvagem, avelãs e maçãs silvestres. Também foram encontrados sinais de raposas, lobos e raposas-do-ártico, sugerindo que esses animais eram caçados ou processados pela comunidade.
Uma descoberta particularmente intrigante foi a identificação de DNA de visco, planta que em períodos posteriores da pré-história teria sido utilizada para produzir venenos destinados a pontas de flechas.
Mas talvez a informação mais inesperada estivesse relacionada à saúde bucal dos adolescentes.
Os pesquisadores encontraram grande quantidade de bactérias atualmente associadas à periodontite, uma doença inflamatória grave das gengivas. Em alguns casos, as análises apontaram mais de 80% de probabilidade de que os jovens sofressem de problemas gengivais ativos.
Em outras palavras, aqueles adolescentes da Idade da Pedra provavelmente conviviam com dores, inflamações e infecções bucais muito antes da existência de qualquer tratamento odontológico.
Como um simples pedaço de resina está transformando a arqueologia
As descobertas feitas em Huseby Klev estão mudando a forma como os cientistas investigam populações antigas.
Tradicionalmente, estudos genéticos dependem da preservação de ossos ou dentes. O problema é que esses materiais nem sempre sobrevivem ao passar dos milênios. Muitas populações desapareceram dos registros biológicos justamente porque seus restos mortais se degradaram completamente.
O piche mastigado oferece uma alternativa inesperada. Em determinadas condições ambientais, ele pode conservar DNA humano, microbiano e alimentar por milhares de anos.
Isso significa que comunidades inteiras que antes eram praticamente invisíveis para a genética podem voltar a ser estudadas por meio de algo tão banal quanto um “chiclete” descartado.
No caso dos jovens de Huseby Klev, um gesto cotidiano realizado há dez milênios permitiu reconstruir sua ancestralidade, parte de sua alimentação, suas atividades diárias e até seu estado de saúde.
Poucos objetos arqueológicos conseguem revelar tanto sobre indivíduos específicos. E o mais impressionante é que dezenas de outros fragmentos encontrados no mesmo local ainda aguardam análise, o que sugere que muitos segredos da Idade da Pedra continuam escondidos dentro desses pequenos pedaços escuros de resina.
[Fonte: Space daily]