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Ciência

Cientistas descobriram um efeito da poluição no cérebro de adolescentes que pode durar anos

Um novo estudo acompanhou milhares de jovens durante dois anos e encontrou algo preocupante: certos tipos de poluição parecem alterar o ritmo natural de desenvolvimento do cérebro.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A poluição do ar costuma ser associada a problemas respiratórios e doenças cardiovasculares. Mas pesquisadores começaram a encontrar sinais de algo muito mais profundo acontecendo dentro do cérebro de crianças e adolescentes expostos diariamente a ambientes contaminados. Agora, um dos maiores estudos já realizados sobre desenvolvimento cerebral juvenil revelou que respirar ar poluído pode desacelerar mudanças importantes ligadas à memória, atenção e amadurecimento neural durante uma das fases mais críticas da vida.

O que os cientistas descobriram no cérebro dos adolescentes

Cientistas descobriram um efeito da poluição no cérebro de adolescentes que pode durar anos
© https://x.com/DrKristieLeong

A pesquisa foi publicada na revista científica Developmental Cognitive Neuroscience e analisou milhares de jovens dos Estados Unidos entre 9 e 12 anos de idade.

Os cientistas descobriram que adolescentes que vivem em regiões com altos níveis de poluição atmosférica apresentaram um desenvolvimento cerebral e cognitivo mais lento em comparação com jovens que cresceram em áreas de ar mais limpo.

O foco principal do estudo foi observar duas formas específicas de poluição: partículas finas conhecidas como PM2.5 — frequentemente produzidas por escapamentos, incêndios florestais e usinas — e o ozônio ao nível do solo, um gás formado pela reação química de poluentes sob a luz solar.

Segundo os pesquisadores, essas substâncias parecem interferir em processos naturais fundamentais do cérebro durante a transição entre infância e adolescência.

Essa fase é considerada extremamente importante porque o cérebro passa por uma reorganização intensa de conexões neurais, refinando habilidades como controle emocional, concentração, velocidade de processamento e memória.

O problema é que os adolescentes expostos a ambientes mais poluídos demonstraram sinais de amadurecimento neural mais lento ao longo de dois anos de acompanhamento.

O cérebro dos jovens normalmente muda — mas isso não aconteceu da mesma forma

Para entender o fenômeno, os cientistas acompanharam 3.645 participantes do enorme projeto ABCD Study, uma das maiores pesquisas do mundo sobre desenvolvimento cerebral infantil e adolescente.

Os jovens realizaram exames cerebrais e testes cognitivos aos 9 ou 10 anos de idade e repetiram as avaliações cerca de dois anos depois.

Os pesquisadores observaram três fatores principais.

O primeiro foi a espessura do córtex cerebral, a camada externa do cérebro responsável por funções complexas. Durante a adolescência, essa região naturalmente passa por um processo chamado “poda sináptica”, no qual conexões menos utilizadas são eliminadas para tornar o cérebro mais eficiente.

Nos adolescentes que viviam em regiões menos poluídas, esse afinamento ocorreu normalmente.

Já entre os jovens expostos a altos níveis de poluição, essa transformação apareceu de forma menos intensa.

Além disso, cientistas analisaram como diferentes áreas do cérebro se comunicavam entre si em estado de repouso. Em adolescentes saudáveis, essas redes neurais começam gradualmente a se parecer mais com padrões encontrados em cérebros adultos.

Mais uma vez, os grupos expostos à poluição apresentaram evolução mais lenta.

Os efeitos também apareceram em memória, atenção e controle mental

Os pesquisadores não analisaram apenas exames cerebrais. Eles também submeteram os adolescentes a uma série de testes cognitivos computadorizados.

As tarefas mediam memória de trabalho, velocidade de raciocínio, atenção sustentada, leitura e capacidade de ignorar distrações — habilidade conhecida como controle inibitório.

Os adolescentes que viviam em áreas com ar mais limpo demonstraram progresso constante nesses testes ao longo dos dois anos.

Já os jovens expostos a maiores índices de PM2.5 e ozônio apresentaram melhorias menores do que o esperado para a idade.

Segundo Omid Kardan, professor de psiquiatria da Universidade de Michigan e principal autor do estudo, os efeitos estatísticos encontrados são considerados relativamente pequenos em termos matemáticos. Mas isso não significa que sejam irrelevantes.

O pesquisador alerta que diferenças aparentemente discretas no desenvolvimento cognitivo podem produzir impactos importantes no longo prazo, afetando desempenho escolar, saúde mental, capacidade de adaptação emocional e resiliência psicológica.

O detalhe que chamou atenção dos cientistas

Um dos aspectos mais curiosos do estudo foi que os grupos afetados pela poluição não pertenciam exatamente ao mesmo perfil socioeconômico.

Os adolescentes mais expostos às partículas finas PM2.5 tendiam a vir de contextos socioeconômicos mais baixos. Já os expostos a altos níveis de ozônio frequentemente pertenciam a grupos de renda mais alta.

Mesmo assim, ambos apresentaram sinais semelhantes de atraso no amadurecimento neurocognitivo.

Isso reforçou a hipótese de que a poluição em si possui uma relação específica com o desenvolvimento cerebral, independentemente de fatores como renda familiar, escolaridade dos pais ou desigualdades sociais.

Para evitar distorções, os cientistas emparelharam cuidadosamente os participantes considerando idade, sexo biológico, raça, renda e educação familiar antes de comparar os resultados.

A pesquisa ainda não prova causalidade — mas acendeu um alerta importante

Apesar dos resultados fortes, os próprios autores destacam que o estudo possui limitações importantes.

Os níveis de poluição foram medidos apenas com base na qualidade do ar dos bairros onde os participantes viviam no início da pesquisa. Isso significa que os cientistas não conseguiram calcular exatamente quanto de poluição cada adolescente realmente respirava diariamente.

Além disso, o estudo não acompanhou mudanças de residência, ambientes escolares ou exposição dentro de locais fechados.

Por isso, os pesquisadores evitam afirmar categoricamente que a poluição “causou” as alterações cerebrais observadas.

Ainda assim, os dados se somam a uma quantidade crescente de pesquisas sugerindo que fatores ambientais podem influenciar o desenvolvimento neurológico de crianças e adolescentes de maneiras muito mais profundas do que se imaginava.

Agora, os cientistas pretendem continuar acompanhando os participantes em fases posteriores da adolescência para entender se essas diferenças se mantêm, aumentam ou diminuem com o tempo.

O que está realmente em jogo

Talvez o aspecto mais inquietante do estudo seja justamente a ideia de que o ambiente urbano pode interferir silenciosamente em processos cerebrais extremamente delicados durante a juventude.

Durante anos, poluição foi tratada principalmente como problema pulmonar. Hoje, pesquisadores começam a enxergá-la também como uma possível ameaça ao desenvolvimento cognitivo.

E embora os efeitos individuais observados pareçam modestos, cientistas alertam que pequenas alterações espalhadas por milhões de adolescentes podem produzir impactos sociais enormes ao longo das próximas décadas.

[Fonte: Psypost]

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