A Organização Mundial da Saúde (OMS) elevou nesta sexta-feira o nível de risco do surto de ebola na República Democrática do Congo (RDC) para “muito alto” em escala nacional — o grau máximo de alerta utilizado pela entidade em emergências sanitárias.
O anúncio foi feito pelo diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante uma coletiva de imprensa na qual afirmou que o vírus “está se espalhando rapidamente” dentro do país africano.
Segundo a organização, o risco permanece “alto” em nível regional e “baixo” globalmente, mas o avanço da doença em áreas de conflito preocupa autoridades internacionais de saúde.
Surto avança em regiões afetadas por guerra e instabilidade
🚨 Agrava-se o surto de ébola na República Democrática do Congo e Uganda: 136 mortos e 543 casos suspeitos. A variante Bundibugyo não tem uma vacina específica.#Fraudemia pic.twitter.com/Jc39M64VQk
— 🇧🇷Are you Okay?🇧🇷 (@Areyouok8888) May 21, 2026
O atual surto se concentra principalmente nas províncias de Kivu do Norte e Kivu do Sul, regiões do leste da República Democrática do Congo marcadas por confrontos entre forças do governo e o grupo armado M23, apoiado por Ruanda, segundo autoridades congolesas e organismos internacionais.
A instabilidade na região vem dificultando o trabalho das equipes médicas e humanitárias.
Além da violência, o deslocamento de populações, o acesso limitado a hospitais e as dificuldades logísticas tornam o controle epidemiológico muito mais complexo. Em Ituri, onde está localizado o principal foco da epidemia, a OMS informou ter enviado equipes adicionais para reforçar o atendimento e a vigilância sanitária.
Especialistas alertam que surtos de ebola em zonas de conflito costumam ser mais difíceis de controlar devido à interrupção de campanhas de rastreamento, isolamento e monitoramento de contatos.
Mais de 80 casos confirmados e centenas sob investigação
De acordo com os dados mais recentes divulgados pela OMS, já foram confirmados 82 casos de ebola na RDC, incluindo sete mortes oficialmente registradas.
Ao mesmo tempo, existem aproximadamente 750 casos suspeitos em investigação e pelo menos 177 mortes suspeitas associadas à doença.
As autoridades sanitárias ainda trabalham para confirmar laboratorialmente parte desses casos, um processo que pode ser lento em áreas afetadas pela guerra e com infraestrutura médica limitada.
A OMS também informou que a situação em Uganda permanece relativamente estável até o momento, com apenas dois casos confirmados e uma morte registrada.
Variante Bundibugyo preocupa pela ausência de vacina aprovada

O atual surto é causado pela variante Bundibugyo do vírus Ebola, uma cepa considerada particularmente preocupante porque ainda não possui vacina ou tratamento específico oficialmente aprovado.
Isso reduz significativamente as opções disponíveis para conter a propagação da doença.
Diferentemente de outras variantes do ebola para as quais vacinas experimentais já demonstraram eficácia, a cepa Bundibugyo ainda depende principalmente de estratégias clássicas de contenção.
Entre elas estão o isolamento rápido dos pacientes, rastreamento de contatos próximos, uso de equipamentos de proteção e medidas rígidas de biossegurança.
Ebola continua sendo uma das doenças mais letais do planeta
O ebola provoca uma febre hemorrágica viral extremamente grave. Os sintomas incluem febre alta, dores intensas, fraqueza, vômitos e sangramentos internos e externos em casos severos.
Embora seja menos contagioso que doenças respiratórias como covid-19 ou sarampo, o vírus possui uma taxa de mortalidade muito elevada.
Nas últimas cinco décadas, surtos de ebola já causaram mais de 15 mil mortes em diferentes países africanos.
A transmissão ocorre principalmente pelo contato direto com fluidos corporais de pessoas infectadas ou cadáveres contaminados.
Conflitos armados dificultam resposta internacional

A combinação entre epidemia e conflito militar cria um dos cenários mais complexos para organizações humanitárias.
Hospitais sobrecarregados, ataques armados, deslocamentos populacionais e desconfiança das comunidades locais dificultam campanhas de prevenção e identificação rápida de novos casos.
A OMS alerta que controlar a disseminação do vírus dependerá não apenas de recursos médicos, mas também de condições mínimas de segurança para que equipes de saúde consigam atuar nas regiões afetadas.
Enquanto isso, autoridades internacionais seguem monitorando o surto para evitar que o avanço da doença ultrapasse fronteiras regionais e provoque uma crise sanitária mais ampla no continente africano.
[ Fonte: DW ]