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Ciência

Cientistas simularam 100 mil colisões de cometas e descobriram um obstáculo para a origem da vida

Durante décadas, cometas foram considerados possíveis fornecedores dos ingredientes da vida. Agora, milhares de simulações revelam um obstáculo que pode mudar nossa compreensão dessa história.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Há bilhões de anos, quando a Terra ainda estava se formando como um planeta habitável, cometas atravessavam o Sistema Solar e alguns colidiam violentamente com sua superfície. Esses visitantes congelados podem ter transportado substâncias fundamentais para o surgimento da vida. Pelo menos essa é uma das hipóteses investigadas há décadas. Agora, pesquisadores decidiram testar essa possibilidade em 100 mil cenários diferentes, e os resultados colocaram uma questão importante em evidência.

A teoria de que os ingredientes da vida vieram do espaço enfrenta um novo teste

A ideia de que cometas ajudaram a fornecer moléculas necessárias ao surgimento da vida não surgiu por acaso.

Esses corpos celestes contêm gelo, poeira e compostos orgânicos capazes de participar de reações químicas importantes.

Em 2016, por exemplo, a Agência Espacial Europeia (ESA) anunciou que a missão Rosetta havia identificado glicina e fósforo no cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko.

A glicina é um aminoácido encontrado nas proteínas, enquanto o fósforo participa de moléculas essenciais aos organismos vivos.

Entretanto, existe uma diferença fundamental entre encontrar esses compostos no espaço e demonstrar que eles chegaram à Terra em condições adequadas para contribuir com a química prebiótica.

Foi justamente essa questão que motivou uma investigação liderada por Richard J. Anslow, da Universidade de Cambridge.

O estudo, publicado em 28 de outubro na revista Scientific Reports, utilizou 100 mil simulações computacionais de Monte Carlo para reconstruir possíveis histórias de impactos cometários na Terra primitiva.

Cada simulação considerou diferentes combinações de acontecimentos e características das colisões.

O objetivo era avaliar a probabilidade de cometas entregarem quantidades relevantes de determinadas moléculas à superfície terrestre.

Os resultados mostraram que essa tarefa poderia ser muito mais difícil do que se imaginava.

O maior problema não era transportar as moléculas, mas fazê-las sobreviver

Os pesquisadores concentraram parte importante da análise no cianeto de hidrogênio (HCN), também conhecido como ácido cianídrico.

Embora seja uma substância tóxica em determinadas condições, ela pode participar de reações químicas envolvidas na formação de compostos prebióticos.

O desafio está na maneira como os cometas atingem um planeta.

Esses objetos podem viajar a velocidades extremamente elevadas, produzindo aquecimento intenso durante a entrada atmosférica e, principalmente, no momento da colisão.

Dependendo das condições, o cometa pode se fragmentar, perder materiais ou destruir parte das moléculas que transporta.

Para avaliar esse problema, os cientistas consideraram diferentes tamanhos, velocidades e ângulos de impacto.

As simulações também levaram em conta a possibilidade de as substâncias chegarem a locais onde poderiam alcançar concentrações relevantes.

E foi nesse ponto que apareceu o resultado mais significativo.

Mais da metade das simulações não apresentou nenhum impacto suficientemente favorável

De acordo com o estudo, 54% dos cenários simulados não registraram sequer um impacto capaz de fornecer a concentração necessária de cianeto de hidrogênio para os processos prebióticos considerados pelos pesquisadores.

Nos outros 46%, ocorreu pelo menos uma colisão potencialmente favorável.

Isso não significa, entretanto, que a vida tenha surgido nesses cenários.

O resultado indica apenas que determinadas condições para a entrega da molécula poderiam ter sido alcançadas.

Outro obstáculo importante envolve os oceanos.

Caso um cometa atingisse uma grande massa de água, as moléculas sobreviventes poderiam se dispersar rapidamente, reduzindo sua concentração.

Para muitas reações químicas relacionadas às hipóteses sobre a origem da vida, não basta que uma substância esteja presente.

Ela também precisa existir em quantidades adequadas e em ambientes favoráveis.

Assim, mesmo um cometa rico em compostos orgânicos poderia não contribuir significativamente para determinados processos químicos.

Colisões De Cometas1
© CANVA IA Studio com IA

Isso significa que os cometas não participaram do surgimento da vida?

Não necessariamente.

A pesquisa não demonstra que os cometas foram irrelevantes para a história química da Terra.

O que os resultados questionam é a eficiência de impactos cometários como mecanismo de fornecimento de concentrações suficientes de certas moléculas prebióticas.

Os próprios pesquisadores reconhecem que colisões excepcionais, especialmente aquelas com velocidades menores e ângulos favoráveis, poderiam permitir uma entrega mais eficiente.

Além disso, outros materiais espaciais, como asteroides, também podem ter contribuído para o fornecimento de água e compostos orgânicos.

Existe ainda a possibilidade de ingredientes importantes terem sido produzidos por processos químicos que ocorreram no próprio planeta.

As conclusões também não devem ser automaticamente aplicadas a outros mundos, já que atmosferas, superfícies e velocidades de colisão podem variar.

O mistério sobre a origem da vida continua aberto

A investigação acrescenta uma nova dificuldade a uma das maiores perguntas da ciência: como a matéria não viva deu origem aos primeiros sistemas biológicos?

Os resultados sugerem que encontrar moléculas orgânicas em cometas é apenas uma parte da explicação.

Para que esses compostos participem da química que antecedeu a vida, precisam chegar a ambientes adequados, sobreviver e alcançar concentrações suficientes.

As 100 mil simulações não encerram o debate sobre a origem extraterrestre de ingredientes da vida.

Mas mostram que transportar substâncias pelo espaço e entregá-las intactas a um planeta são desafios muito diferentes.

E compreender essa diferença pode ser essencial para reconstruir o que realmente aconteceu na Terra há bilhões de anos.

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