Marte parece um dos últimos lugares onde uma bactéria terrestre deveria permanecer ativa. Frio intenso, pressão atmosférica baixíssima e uma atmosfera dominada por dióxido de carbono tornam sua superfície extremamente hostil. Mesmo assim, cientistas espanhóis colocaram um conhecido microrganismo dentro de uma câmara capaz de reproduzir parte dessas condições. Cinco dias depois, uma pequena parcela continuava viva, e o mecanismo usado para resistir chamou atenção.
O experimento colocou uma bactéria dentro de um “Marte” terrestre

O protagonista é o Bacillus subtilis, uma bactéria encontrada em diferentes ambientes terrestres e bastante conhecida pelos pesquisadores por sua capacidade de resistir a situações extremas.
Ela também consegue produzir esporos, estruturas altamente resistentes nas quais a atividade metabólica é drasticamente reduzida até que as condições melhorem. Essa habilidade já havia colocado a espécie no radar da astrobiologia.
Mas pesquisadores do Centro de Astrobiologia (CAB, CSIC-INTA) e do Instituto Nacional de Técnica Aeroespacial, na Espanha, decidiram testar algo diferente: em vez de estudar apenas esporos, investigaram células vegetativas, ou seja, bactérias em seu estado metabolicamente ativo. O trabalho foi publicado na revista Scientific Reports.
Para isso, utilizaram a câmara de simulação MARTE, equipamento desenvolvido para reproduzir diferentes condições ambientais encontradas no planeta vermelho.
Durante cinco “sóis” experimentais, as bactérias enfrentaram ciclos com seis horas a 10 °C e 18 horas a -15 °C, pressão de apenas 20 milibares e uma atmosfera formada por dióxido de carbono.
O resultado não foi uma sobrevivência confortável. A maioria morreu.
Depois de cinco dias, cerca de 12% ainda estavam vivas

Ao final do experimento, aproximadamente 11% a 12% das células permaneciam viáveis. A mortalidade foi enorme, mas o fato de algumas sobreviverem em estado vegetativo já era relevante.
A surpresa aumentou quando os cientistas observaram essas sobreviventes.
Em vez de todas recorrerem à formação de esporos, muitas continuaram metabolicamente ativas. Elas também apresentaram alterações físicas: ficaram menores e sua superfície tornou-se aparentemente mais rugosa.
Foi então que apareceu uma pista ainda mais intrigante.
Durante o experimento, a temperatura das culturas contendo bactérias chegou a ficar aproximadamente 4 °C acima daquela registrada no ambiente da câmara. Os pesquisadores associaram esse comportamento à atividade metabólica residual das células.
A equipe encontrou ainda aumento na presença de proteínas relacionadas à fermentação, mecanismo capaz de fornecer energia quando o oxigênio é escasso.
O estudo sugere que a combinação de fermentação e produção residual de calor pode ter ajudado algumas células a enfrentar as condições extremas. Os pesquisadores descrevem o fenômeno como uma forma de termogênese microbiana adaptativa.
Isso significa que bactérias poderiam viver em Marte?
Não exatamente.
O experimento mostra que determinadas células de Bacillus subtilis conseguem permanecer viáveis por alguns dias sob um conjunto controlado de condições semelhantes às marcianas. Ele não demonstra que uma população conseguiria estabelecer uma colônia, crescer indefinidamente ou se reproduzir normalmente na superfície real de Marte.
Essa distinção é fundamental.
Marte apresenta outros obstáculos importantes, incluindo radiação ultravioleta intensa, radiação ionizante, extrema secura, variações ambientais e substâncias como percloratos presentes no regolito.
O próprio estudo publicado na Scientific Reports foi realizado para investigar respostas fisiológicas e metabólicas específicas, e não para demonstrar que a bactéria conseguiria colonizar Marte.
Outras pesquisas reforçam essa complexidade. Um estudo publicado em 2026 testou três bactérias associadas ao organismo humano diante de diferentes estressores marcianos e constatou que algumas apresentam mecanismos de resistência consideráveis. Porém, combinar diferentes fatores ambientais pode alterar drasticamente a capacidade de sobrevivência.
Ou seja: testar pressão baixa isoladamente é muito diferente de enfrentar simultaneamente frio, radiação, desidratação, composição atmosférica e química do solo.
O resultado importa muito para futuras missões
Existe outra razão para cientistas quererem descobrir exatamente quanto tempo microrganismos terrestres resistiriam fora da Terra: contaminação planetária.
Sondas, robôs e, futuramente, astronautas inevitavelmente carregam microrganismos.
Se uma bactéria terrestre chegar a Marte e sobreviver, pesquisadores precisam ser capazes de diferenciá-la de qualquer possível evidência de vida marciana. Caso contrário, uma futura missão poderia encontrar um microrganismo e enfrentar uma pergunta desconfortável: ele estava lá originalmente ou viajou conosco?
Esse problema explica os rigorosos protocolos de proteção planetária utilizados em missões espaciais.
Pesquisas recentes mostram que a preocupação não se limita a Marte. Um estudo liderado por cientistas da NASA indicou que alguns microrganismos terrestres poderiam persistir durante períodos significativos em determinadas regiões protegidas da Lua, especialmente em ambientes frios e sombreados.
Marte continua hostil, mas a vida terrestre continua surpreendendo
O novo experimento não demonstra a existência de vida em Marte e tampouco prova que Bacillus subtilis conseguiria prosperar por lá.
Ele revela algo mais específico e cientificamente valioso: células bacterianas metabolicamente ativas podem suportar durante vários dias algumas das condições que tornam Marte tão hostil.
Mais importante ainda, os cientistas conseguiram observar como elas tentam fazer isso.
Reduzir o tamanho, alterar a superfície celular, recorrer à fermentação e possivelmente aproveitar o próprio calor metabólico formam uma espécie de kit emergencial microscópico.
Marte continua sendo um ambiente brutal para a vida terrestre. Mas experiências como essa mostram que, quando o assunto é estabelecer exatamente onde termina a capacidade de sobrevivência dos microrganismos, a fronteira talvez seja menos óbvia do que imaginávamos.