Na Amazônia, até os mistérios da natureza pedem soluções improváveis. Foi com um toque de improviso e muito humor científico que um grupo de pesquisadores brasileiros usou preservativos para resolver uma dúvida que intrigava a ciência há anos: por que as cigarras amazônicas constroem pequenas torres de argila misturada com urina?
Torres que brotam do chão

A espécie Guyalna chlorogena, típica da Amazônia, passa a maior parte da vida subterrânea, alimentando-se da seiva das raízes. Quando está prestes a alcançar a fase adulta, ela emerge do solo e constrói pequenas torres de argila, como se fossem chaminés minúsculas.
“Essas torres vão crescendo pouco a pouco, noite após noite”, explica o pesquisador Pedro Pequeno, do Instituto Serrapilheira e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia SinBiAm. “Mas até agora ninguém sabia exatamente para que elas serviam.”
Durante um curso de campo na Amazônia, a bióloga Marina Méga, da UFRJ, notou o fenômeno curioso. “Pareciam mini vilas de fadas brotando do chão. O mais intrigante é que ninguém sabia explicar o motivo”, contou.
A ideia inusitada: testar com camisinhas
Duas hipóteses surgiram. A primeira: as torres protegeriam as cigarras durante a metamorfose — uma fase vulnerável em que elas ficam imóveis, presas à entrada do túnel. A segunda: as torres permitiriam trocas gasosas, funcionando como respiradouros para as ninfas que ainda vivem no subsolo.
Para testar a segunda hipótese, veio a ideia inusitada. “A gente olhou o formato das torres e, meio de brincadeira, alguém sugeriu usar camisinhas”, lembra Méga.
O experimento era simples: se houvesse saída de gás carbônico pelas torres, o preservativo inflaria. E foi exatamente isso que aconteceu. “O preservativo começou a inflar e a gente surtou de alegria”, diz a bióloga. “Estávamos em um ambiente superisolado, com poucos recursos, e aquilo foi uma vitória científica.”
Dupla função confirmada
Depois do sucesso do teste, o grupo encomendou 40 preservativos para repetir o experimento e verificar também se as torres afastavam predadores. As duas hipóteses se confirmaram: as estruturas servem para respirar e para proteger as cigarras.
“Essas torres aumentam as chances de sobrevivência dos insetos, permitindo que respirem melhor e fiquem seguras até completarem a metamorfose”, explica Méga.
A maior torre de cigarra do mundo
Durante os experimentos em Manaus, os cientistas encontraram uma torre de 47 centímetros de altura, considerada a maior já registrada no mundo. “Normalmente elas chegam a, no máximo, 12 centímetros. As da Amazônia são gigantes”, afirma Pequeno.
Da floresta à inovação
O estudo deve ser publicado em breve em uma revista científica, mas já desperta interesse por suas implicações práticas. “Entender como essas torres funcionam pode inspirar novas tecnologias de troca gasosa e controle térmico”, destaca Pequeno.
Da próxima vez que alguém duvidar da criatividade da ciência brasileira, basta lembrar: na Amazônia, até camisinhas ajudam a entender a natureza.
[Fonte: Correio Braziliense]