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Ciência

Cometa 3I/ATLAS pode ter nascido em um ambiente abaixo de −240 °C

A composição da cauda do visitante interestelar indica uma origem extremamente fria, nas regiões externas de outro sistema planetário.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O cometa interestelar 3I/ATLAS trouxe novas pistas sobre as condições em que corpos gelados se formam ao redor de outras estrelas. Ao analisar sua cauda, pesquisadores identificaram sinais de uma composição rica em nitrogênio molecular. O resultado sugere que o objeto nasceu em um ambiente extremamente frio, provavelmente distante de sua estrela original. As observações ocorreram depois de sua maior aproximação do Sol, em 2025.

A cauda guarda pistas sobre o passado

Atlas 3
© International Gemini Observatory/NOIRLab/NSF/AURA/B. Bolin

A equipe utilizou o instrumento WEAVE, instalado no telescópio William Herschel, nas Ilhas Canárias. O equipamento permite separar a luz em diferentes comprimentos de onda e identificar assinaturas químicas dos materiais observados.

O estudo publicado na Monthly Notices of the Royal Astronomical Society apresenta dados obtidos em 30 de novembro e 2 de dezembro de 2025. Os pesquisadores detectaram simultaneamente cinco espécies de íons, partículas com carga elétrica, na cauda do cometa.

Entre elas estavam formas ionizadas de nitrogênio molecular, monóxido de carbono, dióxido de carbono e água, além do íon CH+, composto por carbono e hidrogênio. A identificação desses sinais permitiu comparar a distribuição dos materiais ao redor do objeto.

O destaque foi a proporção entre os sinais de nitrogênio molecular e monóxido de carbono ionizados. A partir dessa relação, os autores estimaram um limite mínimo para a abundância relativa das moléculas originais. O resultado indica que o 3I/ATLAS é rico em nitrogênio molecular quando comparado a cometas do Sistema Solar.

Um nascimento nas regiões mais geladas

A interpretação aponta para um ambiente de formação com temperaturas provavelmente inferiores a −240 °C. Segundo a Universidade de Northumbria, isso sugere que o cometa surgiu nas regiões externas e geladas de seu sistema de origem.

A conclusão representa uma inferência baseada na composição observada. Os pesquisadores não identificaram a estrela natal nem mediram diretamente a temperatura do local onde o objeto nasceu.

Léa Ferellec, pesquisadora de Northumbria e principal autora do trabalho, destacou que visitantes desse tipo oferecem uma oportunidade rara de investigar materiais formados em ambientes diferentes do nosso. Para ela, cada objeto analisado ajuda a ampliar o conhecimento sobre a formação de planetas ao redor de outras estrelas.

O vento solar ajuda a revelar a composição

A cauda ionizada surge da interação entre partículas carregadas do cometa, o vento solar e o campo magnético interplanetário. Sua estrutura difere daquela formada pela poeira, embora ambas façam parte da aparência do objeto.

O WEAVE permite obter informações espectrais em diferentes posições de uma mesma região do céu. Essa capacidade ajuda a separar sinais que vêm da cauda daqueles produzidos pelo gás e pela poeira mais próximos do núcleo.

Conforme o Grupo de Telescópios Isaac Newton, a combinação do instrumento com o acompanhamento do movimento do cometa possibilitou uma análise excepcionalmente detalhada. A equipe também investigou como as partículas mudavam ao longo da cauda.

Uma amostra distante ao alcance dos telescópios

Atlas
© JC Casado – IAC

Os pesquisadores encontraram apenas uma redução marginal do íon CH+ com o aumento da distância ao núcleo. Também ressaltaram uma limitação: as proporções entre os demais íons não permitem determinar diretamente a abundância das moléculas neutras que lhes deram origem.

Ainda assim, o conjunto das medições amplia as possibilidades de comparar cometas locais com visitantes interestelares. Esses corpos carregam registros químicos de outros ambientes de formação planetária. Ao liberar material durante a passagem pelo Sol, tornam parte dessa história acessível aos instrumentos terrestres, sem exigir uma missão espacial até seu sistema de origem.

 

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