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Tecnologia

Como a cultura digital está mudando a forma como comemos: algoritmos, desinformação e hábitos em crise

Dietas milagrosas, medicamentos da moda e conselhos virais sem embasamento científico: as redes sociais estão redesenhando a forma como os argentinos se relacionam com a comida. Entre algoritmos que priorizam o engajamento, influenciadores sem credenciais e desigualdade econômica, o ato de comer virou um campo de disputa entre ciência, tendências e likes.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Cada vez mais, nossas escolhas alimentares são mediadas por telas e não por pratos. Um estudo da Fundação Ibero-Americana de Saúde Pública (FISP) revela que mais de 65% dos argentinos enfrentam excesso de peso, mas a nutrição deixou de ser um debate técnico e virou um fenômeno digital. Entre desinformação, marketing agressivo e desigualdades sociais, a relação com a comida está em plena transformação.

Algoritmos, tendências virais e o colapso da evidência científica

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Segundo a FISP, o impacto das redes sociais sobre os hábitos alimentares cresce de forma acelerada. Dados da Kantar IBOPE Media mostram que seis em cada dez argentinos acessam as redes diariamente, e 35% o fazem mais de dez vezes ao dia. O resultado: dietas, suplementos e remédios promovidos por vídeos curtos moldam, cada vez mais, nossas escolhas à mesa.

Para a médica Elena Pastor Manfredi, diretora de Nutrição da FISP, “a nutrição não se decide mais apenas no prato, mas no feed”. Plataformas como TikTok, Instagram e YouTube priorizam conteúdos emocionais, aspiracionais e polêmicos, deixando em segundo plano o rigor científico. “Hoje, muitas decisões são tomadas com base no que gera likes, não no que a ciência recomenda”, alerta.

O peso dos influenciadores e os riscos da automedicação

Uma tendência preocupante é o uso indiscriminado de medicamentos como a semaglutida, indicado para controle de peso, mas promovido como solução rápida em vídeos virais. Sem acompanhamento médico, os riscos à saúde se multiplicam. “O problema não está na digitalização, mas na falta de critérios para filtrar o que consumimos”, explica Pastor Manfredi.

Dietas restritivas, detox milagrosos e listas de “alimentos proibidos” dominam os feeds, reforçando padrões inalcançáveis e incentivando decisões perigosas. Muitas dessas recomendações vêm de influenciadores sem formação, e não de profissionais capacitados.

Entre likes e preços: os limites do comer saudável

O estudo Worldviews 2025, realizado pela WIN International com Voices!, revela um cenário complexo: 60% dos argentinos reduziram o consumo de doces e 54% de fast food — um dado positivo à primeira vista. Porém, também houve queda no consumo de carnes (31%), laticínios (27%) e frutas e verduras (16%), principalmente entre os setores mais vulneráveis.

Para Constanza Cilley, diretora da Voices!, os dados expõem um dilema crescente: “Existe o desejo de se alimentar melhor, mas os condicionamentos econômicos dificultam esse objetivo”.

Além disso, apenas 16% dos argentinos usam suplementos regularmente, índice muito abaixo da média global (34%) e de países como Estados Unidos (57%) e Canadá (52%). O acesso a hábitos saudáveis continua desigual, sobretudo entre jovens e populações de menor renda.

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Ayunos prolongados, receitas milagrosas, colágeno em pó e suplementos caros: o conteúdo viral se multiplica, mas raramente traz evidências sólidas. O problema, segundo Brian Cavagnari, médico e doutor em Ciências Biológicas pela UBA, não é a falta de informação — é o excesso de informação errada.

“Histórias pessoais viraram suposta prova científica. Não são. A fisiologia humana é complexa, e não existem soluções mágicas”, afirma.

Apps de nutrição e plataformas digitais podem ser ferramentas poderosas, monitorando nutrientes, sono e até estresse. Mas Cavagnari alerta para riscos como uso indevido de dados, dependência tecnológica e, principalmente, falta de supervisão profissional. Sem acompanhamento médico, “o dado vira negócio, não saúde”.

O papel da ciência: ocupar o espaço digital com responsabilidade

Para Juan Ignacio Konaszczuk, nutricionista clínico, a tecnologia deve complementar, e não substituir, o contato humano. Ferramentas digitais aceleram análises e automatizam processos, mas “a nutrição não é só um dado: envolve emoção, história, contexto e saúde mental”.

Konaszczuk defende que os profissionais ocupem o espaço das redes com conteúdo confiável, acessível e empático. “Se nós não estivermos lá, outros estarão. O desafio é adaptar a comunicação científica ao formato digital sem perder o compromisso com a evidência.”

Comer bem depende do algoritmo — mas não deveria

Para Pastor Manfredi, enfrentar esse cenário exige políticas públicas robustas: educação nutricional desde a infância, campanhas massivas, regulação de influenciadores e ambientes digitais mais seguros. “Não basta etiquetar alimentos; é preciso ensinar como fazer escolhas saudáveis.”

A nutricionista Stefania Savoia concorda: “A saúde não pode ser tratada como slogan ou tendência de temporada. Nem tudo que é viral é verdadeiro, e nem tudo que motiva é saudável”.

O futuro da nutrição, afirmam os especialistas, passa por um equilíbrio delicado: usar a tecnologia para democratizar o acesso à informação de qualidade, mas sem abrir mão do acompanhamento humano, da empatia e da ciência baseada em evidências.

 

[ Fonte: TN ]

 

 

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