A possível consolidação do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul acontece em um contexto particularmente sensível para o Brasil. Mais do que ampliar o acesso a novos mercados, o tratado é visto como uma peça-chave de diversificação comercial, justamente quando o principal destino da carne bovina brasileira, a China, começa a impor limites mais claros às importações.
Um acordo negociado por décadas e agora estratégico

Após mais de 20 anos de negociações, o acordo UE–Mercosul tem potencial para provocar uma das maiores reconfigurações do comércio agrícola global nas últimas décadas. Para o Brasil, o tratado representa a chance de ampliar exportações com maior valor agregado, direcionadas a um mercado sofisticado e com maior previsibilidade institucional.
Do lado europeu, o desafio é equilibrar interesses geopolíticos, compromissos ambientais e forte pressão interna de produtores rurais, que veem o avanço do acordo com desconfiança.
A dimensão geopolítica além do comércio
Segundo Marcos Jank, professor do Insper Agro, a disposição da Europa em avançar com o acordo vai além do comércio agrícola. Em declarações à CNN, ele afirma que a UE busca reforçar alianças estratégicas diante de um cenário geopolítico mais instável.
“A União Europeia vê o Mercosul não apenas como parceiro econômico, mas também estratégico em termos de segurança alimentar e geopolítica”, afirmou Jank, citando fatores como a aproximação entre Rússia e China e o reposicionamento dos Estados Unidos na América Latina.
O peso atual da União Europeia no agro brasileiro

Mesmo sem o acordo em vigor, a União Europeia já ocupa posição central no agronegócio brasileiro. Nos 11 primeiros meses de 2025, as exportações agropecuárias do Brasil para o bloco somaram US$ 22,89 bilhões, segundo dados do sistema Agrostat, do Ministério da Agricultura.
A carne bovina se destaca: os embarques para a UE alcançaram US$ 820,15 milhões no período, um salto de 83,2% em relação ao ano anterior. O bloco europeu ficou atrás apenas de China e Estados Unidos como destino em valor.
No café verde, a UE foi o principal mercado, com US$ 6,43 bilhões em exportações. No complexo soja, ocupou a terceira posição, com quase US$ 6 bilhões. Já na celulose, mesmo com queda de 12,9%, o bloco manteve-se como segundo maior destino, com receitas de US$ 1,98 bilhão.
Redução de tarifas e ganho de competitividade
Caso o acordo entre em vigor, está prevista a redução ou eliminação de tarifas para produtos como carnes, açúcar, etanol, suco de laranja, café e celulose. Essas medidas podem ampliar significativamente a competitividade do Brasil no mercado europeu, especialmente em segmentos de maior valor agregado.
Para viabilizar politicamente o acordo, a Comissão Europeia anunciou concessões internas, como a redução de tarifas sobre fertilizantes essenciais à agricultura do bloco, incluindo ureia e amônia.
Salvaguardas e exigências ambientais
Ao mesmo tempo em que avança na abertura comercial, a UE reforça mecanismos de proteção. Um “gatilho automático” permite que o bloco investigue e adote medidas corretivas caso as importações de produtos agrícolas do Mercosul cresçam mais de 8% em relação ao ano anterior.
Além disso, permanecem exigências ambientais rigorosas, como rastreabilidade da produção, combate ao desmatamento e cumprimento de normas sanitárias e climáticas. Essas condições elevam custos e tendem a favorecer produtores mais estruturados.
A China impõe limites e reforça a importância da diversificação

O acordo ganha ainda mais relevância diante das novas restrições impostas pela China. A partir de janeiro de 2026, o país adotará um sistema de cotas para a carne bovina, com tarifas que podem chegar a 67% para volumes excedentes.
Em 2025, a China respondeu por cerca de 48% de todo o volume exportado de carne bovina brasileira, o que expõe a vulnerabilidade da dependência de um único mercado.
Europa como alternativa estratégica
Nesse cenário, a Europa surge como alternativa estratégica. Embora mais exigente e politicamente sensível, o mercado europeu oferece previsibilidade institucional e maior valor agregado.
Para Jank, o acordo é “superinteressante” para ambos os blocos, mas exige pragmatismo. Já Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil, resume o desafio: alinhar política externa e estratégia comercial para aproveitar oportunidades sem se expor a choques externos.
[ Fonte: CNN Brasil ]