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Ciência

Computadores quânticos podem ter um limite inesperado: nova teoria sugere que eles não serão tão poderosos quanto se imaginava — nem capazes de quebrar criptografia infinita

Um físico de Oxford propõe uma revisão matemática da mecânica quântica que pode impor um teto ao poder dos computadores quânticos. Se confirmada, a ideia reduz o temor de que essas máquinas consigam quebrar sistemas de segurança como o RSA — mas ainda está longe de consenso científico.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Os computadores quânticos sempre foram cercados por promessas quase ilimitadas. Baseados em princípios estranhos da física quântica, eles teriam a capacidade de resolver problemas que seriam praticamente impossíveis para computadores tradicionais — incluindo a quebra de sistemas de criptografia amplamente usados na internet.

Mas uma nova proposta teórica pode mudar essa narrativa.

Um estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences sugere que esses computadores podem, na prática, ter um limite muito mais rígido do que se pensava. E isso poderia reduzir significativamente seu impacto em áreas como segurança digital.

Uma revisão ousada da mecânica quântica

A proposta vem do físico Tim Palmer, da Universidade de Oxford, que sugere uma pequena — mas potencialmente revolucionária — alteração na base matemática da mecânica quântica.

A ideia, chamada de “mecânica quântica racional”, parte de um questionamento: e se o universo não for contínuo, mas composto por elementos discretos?

Hoje, a mecânica quântica utiliza um conceito chamado espaço de Hilbert, uma estrutura matemática que permite descrever estados quânticos. Nesse modelo tradicional, a complexidade cresce exponencialmente com o número de qubits — as unidades básicas de informação quântica.

É justamente essa escalada exponencial que dá aos computadores quânticos seu poder extraordinário.

O ponto central: crescimento limitado

Palmer propõe uma mudança crucial: em vez de crescer exponencialmente, a quantidade de informação em um sistema quântico cresceria apenas de forma linear.

2n  →  n2^n \; \rightarrow \; n2n→n

Isso significa que, acima de certo ponto, adicionar mais qubits não aumentaria significativamente a capacidade do sistema.

Segundo o estudo, esse limite poderia surgir por volta de 1.000 qubits — um número muito abaixo do que seria necessário para quebrar criptografias modernas como o RSA, que exigiriam milhares de qubits operando com precisão extrema.

Impacto direto na segurança digital

Grande parte do entusiasmo (e do medo) em torno dos computadores quânticos vem da possibilidade de eles conseguirem fatorar números gigantescos com rapidez — algo essencial para quebrar sistemas de criptografia.

Se a teoria estiver correta, esse cenário pode nunca se concretizar.

Isso não significa que a computação quântica deixaria de ser útil, mas sim que seu poder seria mais limitado do que o previsto. Aplicações em áreas como simulação de materiais, química e otimização ainda seriam possíveis, mas sem o “salto infinito” de capacidade.

Um grande “e se” da física

Apesar de intrigante, a proposta ainda é altamente especulativa.

A mecânica quântica é uma das teorias mais testadas e bem-sucedidas da história da ciência. Alterar seus fundamentos exige evidências muito sólidas — algo que ainda não existe no caso dessa nova abordagem.

O próprio Palmer reconhece isso, mas argumenta que sua teoria pode ser testada experimentalmente nos próximos anos. A ideia seria criar sistemas com grande número de qubits entrelaçados e observar se o desempenho começa a degradar além de certo limite.

O que está em jogo

Se confirmada, essa teoria teria implicações profundas não apenas para a computação quântica, mas para a própria compreensão da realidade.

Ela sugere que o universo pode não ser contínuo como imaginamos, mas estruturado em unidades discretas — uma ideia que ecoa debates antigos da física.

Por enquanto, porém, tudo permanece no campo das hipóteses.

Entre hype e realidade

A história da tecnologia está cheia de promessas exageradas — e a computação quântica não é exceção. O estudo surge como um lembrete importante: mesmo as ideias mais revolucionárias precisam enfrentar o teste da realidade.

Se os computadores quânticos realmente tiverem um limite natural, isso pode trazer mais equilíbrio ao debate — reduzindo expectativas irreais, mas também medos exagerados.

No fim, a pergunta continua aberta: estamos diante de uma revolução sem limites… ou de uma tecnologia poderosa, porém finita?

A resposta, como quase tudo na física quântica, ainda está em superposição.

 

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