O cometa Halley está longe dos nossos olhos, mas continua participando de um dos espetáculos mais conhecidos do céu. Todos os anos, a Terra atravessa uma região ocupada por partículas liberadas por ele, dando origem à chuva de meteoros Oriônidas. Esses pequenos fragmentos entram na atmosfera a velocidades impressionantes e produzem rastros luminosos. Por trás dos clarões está um corpo escuro, irregular e muito diferente da imagem de uma estrela com cauda.
Um núcleo escuro que produz um espetáculo brilhante

Conhecido oficialmente como 1P/Halley, o cometa possui um núcleo com aproximadamente 15 quilômetros de comprimento e oito de largura. Sua massa estimada chega a cerca de 220 bilhões de toneladas, distribuídas por uma estrutura composta de gelo, poeira e materiais rochosos.
Apesar da aparência luminosa quando se aproxima do Sol, sua superfície reflete muito pouca luz. Segundo a NASA, o Halley está entre os objetos menos refletivos do Sistema Solar, devolvendo apenas cerca de 3% da luz que recebe.
O brilho observado da Terra vem principalmente do material que envolve o núcleo. Com a aproximação do Sol, o aquecimento transforma parte dos gelos diretamente em gás, em um processo chamado sublimação. Esse gás arrasta partículas de poeira e forma uma atmosfera temporária, conhecida como coma.
O material liberado também alimenta as caudas, que podem se estender por milhões de quilômetros. Seu tamanho e sua aparência mudam conforme a atividade do cometa e as condições ao longo da órbita. Portanto, a enorme extensão visível não corresponde ao tamanho do corpo sólido que está no centro.
Como os fragmentos do Halley viram meteoros
As Oriônidas surgem quando a Terra encontra partículas espalhadas ao longo da trajetória do cometa. Não é necessário que o Halley esteja próximo: os detritos permanecem no espaço e nosso planeta cruza essa região anualmente.
Ao atingir a atmosfera, esses fragmentos produzem o fenômeno luminoso chamado meteoro, popularmente conhecido como estrela cadente. Embora recebam esse nome, os clarões não são estrelas caindo.
As partículas das Oriônidas entram na atmosfera a aproximadamente 66 quilômetros por segundo. Essa velocidade favorece rastros brilhantes, alguns capazes de permanecer visíveis por vários segundos depois da passagem do meteoro.
O nome da chuva vem de seu radiante, o ponto do céu de onde os meteoros parecem partir, localizado na região da constelação de Órion. Trata-se de um efeito de perspectiva: os fragmentos pertencem ao material deixado pelo Halley.
Quando observar as Oriônidas em 2026

Neste ano, a atividade ocorre entre 2 de outubro e 7 de novembro, com o máximo previsto para perto de 21 de outubro. As noites anteriores e posteriores também podem apresentar meteoros.
O Instituto Geográfico Nacional da Espanha informa que a atividade pode variar entre 15 e 70 meteoros por hora. Esses números, porém, não representam uma quantidade garantida para cada observador. A iluminação do céu, as nuvens e a posição do radiante influenciam diretamente a experiência.
A observação é possível nos dois hemisférios, principalmente depois da meia-noite. A NASA indica cerca de dez a 20 meteoros por hora sob céu escuro e destaca a importância de procurar um local afastado das luzes urbanas.
Não é necessário usar telescópio. O ideal é acompanhar uma área ampla do céu e dar aos olhos aproximadamente meia hora para se adaptar à escuridão. A presença da Lua também interfere, e os horários de seu nascimento e ocaso precisam ser consultados para cada localidade.
Uma viagem que atravessa gerações
O Halley percorre uma órbita muito alongada ao redor do Sol. Na região mais próxima da estrela, passa a cerca de 0,6 unidade astronômica; no extremo oposto, alcança aproximadamente 35 unidades astronômicas. Cada unidade corresponde à distância média entre a Terra e o Sol.
Sua trajetória também é retrógrada: ele se desloca em sentido contrário ao movimento dos planetas. O período orbital médio fica próximo de 76 anos, embora varie devido à influência gravitacional dos corpos do Sistema Solar.
Há registros de suas passagens desde pelo menos 239 a.C. Séculos depois, em 1705, Edmond Halley relacionou observações de 1531, 1607 e 1682 e concluiu que correspondiam ao mesmo cometa.
A previsão de seu retorno mudou a compreensão desses visitantes celestes. O objeto passou a carregar o nome do astrônomo, que morreu antes de testemunhar a confirmação de seus cálculos.
O encontro de 1986 revelou seu verdadeiro rosto
A última passagem do Halley pelo interior do Sistema Solar ocorreu em 1986. Na ocasião, uma campanha internacional reuniu sondas como Giotto, Vega 1 e 2, Suisei e Sakigake.
A missão Giotto, da Agência Espacial Europeia, revelou o formato irregular do núcleo, sua superfície extremamente escura e os jatos de gás e poeira que escapavam dele. As observações ajudaram a transformar o cometa de um ponto luminoso distante em um mundo que os cientistas podiam investigar de perto.
O próximo retorno está previsto para 2061. Até lá, as Oriônidas oferecem um encontro anual com os vestígios de sua viagem: partículas pequenas o suficiente para desaparecer na atmosfera, mas capazes de iluminar o céu por alguns instantes.