O planeta acumula sinais de uma transformação que avança em diferentes frentes. A atmosfera concentra mais gases de efeito estufa, os oceanos armazenam quantidades crescentes de calor e geleiras continuam perdendo espessura. Um relatório internacional publicado em outubro aponta que sete de 16 indicadores climáticos monitorados chegaram a extremos históricos. O diagnóstico também destaca uma preocupação adicional: a velocidade dessas mudanças deixa menos tempo para preparar cidades, proteger ecossistemas e reduzir perdas.
O ritmo do aquecimento está acelerando

O relatório de 2026 sobre o estado do clima, publicado na revista BioScience, reúne pesquisadores de diferentes países e acompanha os chamados sinais vitais do planeta. Esses indicadores permitem observar mudanças na atmosfera, nos oceanos, no gelo e no equilíbrio energético da Terra.
A análise identifica três períodos distintos. Entre 1880 e 1970, a temperatura global aumentou aproximadamente 0,05 °C por década. Entre 1970 e 2010, esse ritmo chegou a cerca de 0,19 °C. No período de 2010 a 2024, alcançou aproximadamente 0,36 °C por década.
Portanto, a comparação apresentada pelos autores indica que o ritmo recente quase dobrou em relação ao período de 1970 a 2010. A distinção importa porque a dimensão da aceleração depende dos intervalos escolhidos.
Os pesquisadores também reconhecem discussões sobre os mecanismos envolvidos. Uma possível contribuição vem da redução de partículas poluentes que refletiam parte da radiação solar e mascaravam uma parcela do aquecimento causado pelos gases de efeito estufa.
Sete sinais vitais em extremos históricos
Entre os recordes estão as concentrações de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso. Os três gases retêm calor na atmosfera e contribuem para alterar o balanço energético do planeta.
Os demais indicadores em extremos incluem o conteúdo de calor dos oceanos, o nível médio do mar, a espessura das geleiras e a massa de gelo da Groenlândia. Alguns representam máximos históricos; outros, mínimos preocupantes.
O levantamento utiliza séries com diferentes frequências e períodos de atualização. Por isso, os sete recordes não significam que todos ocorreram no mesmo dia ou resultam de medições idênticas. Parte das informações oceânicas ainda é preliminar. Mesmo assim, o conjunto revela mudanças simultâneas em componentes fundamentais do clima.
Os oceanos mostram quanto calor a Terra acumula

A temperatura do ar conta apenas parte dessa história. Mais de 90% do excesso de calor acumulado pelo sistema climático chega aos oceanos, segundo a síntese científica internacional “10 New Insights in Climate Science 2026/2027”.
Esse armazenamento ajuda a explicar por que os pesquisadores acompanham o desequilíbrio energético da Terra. O termo descreve a diferença entre a energia que o planeta absorve e aquela que devolve ao espaço. Quando entra mais energia do que sai, o calor se acumula.
O relatório destaca que 2025 marcou o nono recorde anual consecutivo no conteúdo de calor oceânico. Como esse calor leva décadas para alcançar maiores profundidades, seus efeitos continuam se desenvolvendo ao longo do tempo.
A expansão da água aquecida contribui para elevar o nível do mar. Ao mesmo tempo, mudanças no ambiente marinho pressionam ecossistemas e atividades humanas que dependem deles. Reduzir emissões agora continua essencial para limitar o acúmulo adicional de energia.
Ondas de calor marinhas também avançam
Outro levantamento, o Indicators of Global Climate Change 2025, oferece uma medida complementar dessa transformação. A pesquisa aponta que o número de dias com ondas de calor marinhas mais que triplicou entre 1991 e 2025.
O estudo também calcula que o desequilíbrio energético terrestre mais que dobrou em comparação com o período de 1976 a 1995. São medidas diferentes da velocidade de aumento da temperatura do ar, mas que reforçam a evidência de um sistema acumulando calor.
A análise estima que o aquecimento provocado por atividades humanas atingiu 1,37 °C em 2025, em relação ao período de 1850 a 1900. Essa estimativa separa a influência humana das oscilações naturais que também afetam a temperatura observada.
A continuidade dessas medições depende de redes de observação, cooperação internacional e acesso a dados. Sem elas, fica mais difícil avaliar a evolução dos riscos e os resultados das políticas climáticas.
A resposta precisa combinar redução de emissões e adaptação

Os efeitos atingem regiões e populações de maneiras diferentes. Segundo a Fundação Ikerbasque, que participa da divulgação do relatório, as condições sociais ajudam a determinar quem enfrenta maior exposição e menor capacidade de resposta.
Comunidades com pouca responsabilidade pelas emissões históricas, especialmente em países do Sul Global e pequenos Estados insulares, já sofrem consequências desproporcionais.
Os autores defendem medidas que possam avançar rapidamente, como resfriamento urbano, conservação de água, preparação contra incêndios e restauração de manguezais e áreas úmidas. Essas ações precisam acompanhar cortes nas emissões e mudanças nos sistemas de energia e produção de alimentos.
Existem avanços: fontes de baixo carbono já fornecem aproximadamente 43% da eletricidade mundial. Entretanto, esse crescimento ainda convive com consumo e emissões recordes de combustíveis fósseis. O desafio é transformar a expansão das alternativas em uma redução efetiva da pressão sobre o clima.