Em um mundo onde praticamente todas as terras estão associadas a algum país, parece difícil imaginar uma região maior que muitos territórios nacionais sem qualquer reivindicação formal de soberania. Mas esse lugar existe, escondido sob uma imensa camada de gelo na Antártida. Sua história envolve exploradores, decisões diplomáticas e até um país fictício. O mais impressionante, porém, está abaixo da superfície: uma paisagem que pode ajudar a determinar o futuro dos oceanos.
Uma área de 1,6 milhão de km² ficou fora das disputas territoriais da Antártida
A Antártida possui uma organização política bastante diferente da encontrada nos outros continentes.
Sete países mantêm reivindicações territoriais sobre determinadas regiões: Argentina, Austrália, Chile, França, Noruega, Nova Zelândia e Reino Unido.
Algumas dessas áreas se sobrepõem, como acontece com as reivindicações de Argentina, Chile e Reino Unido.
Entretanto, existe uma enorme região da Antártida Ocidental que não faz parte de nenhuma reivindicação territorial formal.
Ela é conhecida como Terra de Marie Byrd e ocupa aproximadamente 1,6 milhão de quilômetros quadrados, uma extensão superior à soma dos territórios da França e da Espanha.
É frequentemente considerada a maior área terrestre do planeta que nenhum Estado reivindica como sua.
A origem de seu nome remonta a 1929, quando o explorador norte-americano Richard E. Byrd sobrevoou a região durante uma expedição.
Ele decidiu homenagear sua esposa, Marie, dando seu nome ao território.
Apesar da exploração, os Estados Unidos nunca formalizaram uma reivindicação de soberania.
Uma orientação diplomática norte-americana estabelecida em 1924, conhecida como doutrina Hughes, defendia que a descoberta de uma região não era suficiente para estabelecer direitos territoriais sem ocupação efetiva.
Na Antártida, onde o ambiente apresenta condições extremas, isso representava um obstáculo considerável.
Por que nenhum país pode simplesmente tomar posse dessa região?
A situação política da Terra de Marie Byrd está diretamente relacionada ao Tratado da Antártida, assinado em 1959.
O acordo estabeleceu regras para preservar o continente como uma região destinada à pesquisa científica e à cooperação internacional.
Seu artigo IV preserva as posições dos países sobre reivindicações anteriores, mas impede novas reivindicações ou ampliações territoriais enquanto o tratado estiver em vigor.
Isso significa que a Terra de Marie Byrd não é um território disponível para ocupação e anexação por qualquer interessado.
A região permanece sem reivindicação formal de soberania, mas está submetida às regras do sistema do Tratado da Antártida.
Em 2001, um ex-militar norte-americano chegou a proclamar simbolicamente um território chamado Grão-Ducado de Westarctica.
A iniciativa incluiu elementos típicos de um Estado, como moedas, selos e documentos simbólicos.
Entretanto, nenhum governo reconheceu essa suposta nação.
A ausência de reivindicações oficiais não significa falta de importância.
Na realidade, a Terra de Marie Byrd abriga algumas das formações geológicas mais impressionantes do continente.
Sob quilômetros de gelo existe uma enorme região vulcânica
Em determinados pontos, a camada de gelo que cobre a Terra de Marie Byrd ultrapassa três quilômetros de espessura.
Debaixo dessa superfície congelada existe uma paisagem marcada por montanhas, depressões profundas e atividade vulcânica.
Na cordilheira Executive Committee está o monte Sidley, considerado o vulcão mais alto da Antártida, com aproximadamente 4.285 metros de altitude.
Mas ele está longe de ser a única estrutura vulcânica da região.
Um estudo publicado em 2017 por pesquisadores da Universidade de Edimburgo identificou 91 vulcões até então desconhecidos sob o gelo da Antártida Ocidental.
A descoberta revelou que essa parte do continente abriga uma das grandes regiões vulcânicas do planeta.
Os cientistas ainda investigam como o calor geotérmico e a atividade vulcânica podem influenciar a dinâmica das geleiras.
Outro destaque é a fossa subglacial de Bentley, cujo leito rochoso está aproximadamente 2.500 metros abaixo do nível do mar.
Durante décadas, ela foi considerada uma das depressões continentais mais profundas conhecidas.
Entretanto, um mapeamento divulgado em 2019 identificou uma depressão ainda maior sob a geleira Denman, na Antártida Oriental, chegando a cerca de 3.500 metros abaixo do nível do mar.
A região também abriga uma das geleiras mais preocupantes do planeta
Na costa do mar de Amundsen, próxima à região de Marie Byrd, encontram-se duas geleiras acompanhadas de perto pelos cientistas: Pine Island e Thwaites.
A segunda recebeu um apelido particularmente alarmante: geleira do juízo final.
O motivo está em sua vulnerabilidade ao aquecimento oceânico.
Grande parte de sua base repousa sobre um terreno localizado abaixo do nível do mar, cuja profundidade aumenta em direção ao interior do continente.
Essa configuração permite que águas oceânicas relativamente quentes contribuam para o derretimento do gelo por baixo.
A geleira Thwaites também desempenha um papel importante na estabilidade de outras massas de gelo da Antártida Ocidental.
Se todo o gelo associado à Thwaites fosse perdido, sua contribuição potencial para a elevação do nível médio dos oceanos seria de aproximadamente 65 centímetros.
Uma desestabilização mais ampla da região poderia produzir consequências ainda maiores ao longo do tempo.
Isso não significa que um colapso completo seja iminente, mas explica por que a geleira recebe tanta atenção científica.
O território que ninguém reivindica pode influenciar o futuro do planeta
A Terra de Marie Byrd reúne uma combinação incomum de características.
É uma das maiores regiões sem reivindicação territorial formal do mundo, abriga estruturas vulcânicas escondidas e está próxima de algumas das geleiras mais vulneráveis da Antártida.
Seu estudo pode ajudar a compreender como o calor interno da Terra, a circulação oceânica e as mudanças climáticas interagem com enormes massas de gelo.
Para países costeiros como o Brasil, compreender esses processos é especialmente importante, já que a elevação do nível do mar pode afetar cidades, infraestrutura e ecossistemas litorâneos.
A ironia é que uma das regiões politicamente menos disputadas do planeta pode estar entre as mais relevantes para compreender seu futuro.
A Terra de Marie Byrd pode não pertencer formalmente a nenhum país, mas o que acontece com seu gelo tem consequências que ultrapassam todas as fronteiras.