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Ciência

Corrente que regula o clima global não funciona como cientistas imaginavam, revela estudo

Um estudo baseado em sedimentos de milhões de anos desafia uma antiga teoria sobre a AMOC e pode ajudar a melhorar as previsões sobre o futuro do clima.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Uma das principais correntes oceânicas responsáveis por transportar calor pelo Atlântico e influenciar o clima da Europa e do Atlântico Norte pode funcionar de maneira diferente do que a ciência acreditou durante décadas. Novas evidências geológicas mostram que um mecanismo considerado fundamental para sustentar essa circulação não exerce exatamente o papel previsto pelos modelos tradicionais.

O estudo, publicado na revista Nature Geoscience, foi liderado por Suning Hou, da Universidade de Utrecht, na Holanda, dentro do projeto OceaNice, financiado pelo Conselho Europeu de Pesquisa.

Uma corrente fundamental para o clima do planeta

Oceano Índico
© John Cameron – Unsplash

O sistema analisado é a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico, conhecida pela sigla AMOC.

Ela funciona como uma gigantesca esteira oceânica. Águas quentes viajam pela superfície em direção ao norte do Atlântico, enquanto águas mais frias e densas retornam para o sul pelas profundezas.

Esse movimento redistribui enormes quantidades de calor e exerce forte influência sobre as condições climáticas do Atlântico Norte e da Europa.

Durante décadas, cientistas relacionaram parte da força da AMOC à chamada Fuga de Agulhas. O fenômeno transporta águas quentes e salgadas do Oceano Índico para o Atlântico pelo extremo sul da África.

A explicação parecia lógica: mais sal no Atlântico ajudaria na formação de águas profundas no norte, fortalecendo a circulação.

“Esse foi basicamente o primeiro conceito dos livros didáticos que aprendi quando era estudante de graduação”, afirmou Hou.

Os registros geológicos, porém, mostraram uma história diferente.

Sedimentos de milhões de anos desafiam antiga teoria

Para investigar essa relação, os pesquisadores utilizaram o Plioceno tardio, período entre aproximadamente 3,6 milhões e 2,6 milhões de anos atrás, como um laboratório natural.

Essa época passou por um curto evento glacial seguido por condições mais quentes. Por isso, oferece uma oportunidade para observar como os oceanos responderam a grandes transformações climáticas.

A equipe analisou sedimentos retirados do sítio U1475 do Programa Internacional de Descoberta dos Oceanos, localizado no Planalto de Agulhas, cerca de 500 quilômetros ao sul da África do Sul.

Esses cilindros de sedimentos funcionam como arquivos geológicos. Suas camadas preservam informações sobre as condições existentes no oceano milhões de anos atrás.

Os cientistas encontraram fósseis microscópicos chamados cistos de dinoflagelados, além de biomarcadores lipídicos capazes de revelar antigas temperaturas oceânicas.

“Se encontramos uma mudança no conjunto de dinoflagelados nos sedimentos, isso significa que a frente se deslocou”, explicou Hou.

A equipe também reconstruiu temperaturas do sítio 625, no norte do Golfo do México, e combinou essas informações com registros do Atlântico Equatorial, Atlântico Norte e Mar do Caribe.

Depois, os dados foram comparados com simulações climáticas do Plioceno tardio.

AMOC respondeu de forma diferente do esperado

Os resultados mostraram uma mudança importante há aproximadamente 3,4 milhões de anos.

Naquela época, a frente subtropical avançou para o norte, enquanto a região de Agulhas registrou um resfriamento de cerca de 3 °C. Ao mesmo tempo, a Fuga de Agulhas enfraqueceu significativamente e pode até ter sido praticamente interrompida.

O comportamento observado não correspondeu à relação direta que os modelos tradicionais esperavam encontrar entre a Fuga de Agulhas e a circulação do Atlântico.

“Quando encontramos o mesmo padrão no Planalto de Agulhas, percebemos que estávamos observando uma reorganização de toda a termoclina oceânica da bacia, e não uma anomalia local”, afirmou Francien Peterse, professora da Universidade de Utrecht.

A termoclina é a região do oceano na qual a temperatura muda rapidamente conforme a profundidade aumenta.

Descoberta pode melhorar modelos sobre o futuro da AMOC

Oceanos
© Adam Stoer

Os pesquisadores alertam que os resultados correspondem às condições específicas do Plioceno tardio. Portanto, não podem ser usados diretamente para prever o futuro da AMOC no cenário atual de aquecimento global.

A descoberta mostra, porém, que a conexão entre a Fuga de Agulhas e a circulação atlântica é mais complexa do que se imaginava. Ela pode variar de acordo com o estado climático do planeta e com as características dos oceanos em diferentes épocas.

No futuro, por exemplo, um possível deslocamento da frente subtropical para o sul poderia aumentar o transporte de águas salgadas para o Atlântico.

Outro fator importante é a entrada de água doce proveniente do Ártico, que também influencia a AMOC e acrescenta uma variável que não estava presente da mesma maneira no período analisado.

Agora, os pesquisadores pretendem incorporar esses diferentes mecanismos às avaliações sobre o comportamento da circulação diante do aquecimento atual e futuro.

A descoberta não significa que a AMOC esteja prestes a entrar em colapso. Em vez disso, revela que uma das engrenagens mais importantes do sistema climático global pode funcionar de maneira muito mais complexa do que os modelos e livros de oceanografia sugeriam até agora.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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