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Ciência

Creatina além da academia: estudos indicam consumo insuficiente na população, mas suplementar não é regra — entenda o que realmente importa

Associada ao ganho de massa muscular, a creatina vem ganhando destaque por possíveis efeitos no cérebro e no envelhecimento. Pesquisas sugerem que grande parte da população pode consumir menos do que o ideal. Ainda assim, isso não significa que todos precisem recorrer a suplementos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante anos, a creatina foi quase sinônimo de musculação. Presente em potes nas prateleiras de lojas de suplementos, ela era vista como aliada exclusiva de atletas e fisiculturistas. Mas esse cenário mudou. Estudos recentes ampliaram o interesse pela molécula, apontando possíveis benefícios que vão além do desempenho físico — incluindo funções cognitivas e suporte metabólico.

Diante desse novo olhar, surge uma pergunta essencial: estamos consumindo creatina suficiente por meio da alimentação? E, se não estivermos, isso significa que precisamos suplementar?

O que é creatina e por que ela é importante

Suplementos Em Excesso
© Jordan Bergendahl – Pexels

A creatina é um composto nitrogenado que o próprio organismo produz naturalmente. Em adultos, cerca de 1 grama por dia é sintetizado principalmente no fígado e nos rins, a partir de aminoácidos como arginina, glicina e metionina.

Além da produção interna, também obtemos creatina pela alimentação — mas quase exclusivamente a partir de alimentos de origem animal. Carnes e peixes armazenam creatina no tecido muscular, enquanto alimentos vegetais praticamente não contêm essa substância.

No corpo, a creatina participa da produção rápida de energia, especialmente em músculos e no cérebro, tecidos com alta demanda energética. Diariamente, o organismo degrada cerca de 1% a 2% das reservas musculares de creatina — algo em torno de 2 a 3 gramas, dependendo do indivíduo. Por isso, estima-se que a ingestão total ideal (entre produção interna e dieta) gire em torno de 3 a 5 gramas por dia.

Quanto realmente consumimos na dieta?

Carnes como bovina, cordeiro ou frango contêm aproximadamente 0,3 a 0,5 gramas de creatina por quilo. Peixes como salmão, atum e bacalhau apresentam valores semelhantes, enquanto o arenque pode chegar a 0,8 gramas por quilo.

Na prática, um filé de 200 gramas de carne ou salmão fornece cerca de 0,8 a 1 grama de creatina. Duas ou três porções diárias poderiam, teoricamente, ajudar a atingir a necessidade estimada.

O problema é que o consumo de carne e peixe vem diminuindo em diversos países, inclusive no Ocidente. Dados nacionais dos Estados Unidos, coletados entre 1999 e 2018 com mais de 89 mil participantes, mostraram queda progressiva na ingestão de creatina. Cerca de dois terços da população consumiam menos de 1 grama por dia pela dieta — valor inferior ao necessário para compensar as perdas diárias.

Para vegetarianos e veganos, a situação é ainda mais evidente. Como a creatina está praticamente ausente em alimentos vegetais, estudos indicam que essas pessoas tendem a apresentar menores concentrações musculares da substância.

Impacto vai além do músculo?

O segredo por trás da creatina: o que pouca gente sabe sobre o momento ideal de consumo
© https://x.com/genbeta/

A creatina é amplamente conhecida por melhorar desempenho físico, mas sua função cerebral tem recebido atenção crescente. O cérebro também utiliza sistemas de fosfocreatina para manter estabilidade energética, especialmente em momentos de alta demanda metabólica.

Alguns estudos observacionais associaram baixa ingestão dietética de creatina a pior desempenho cognitivo em adultos mais velhos, incluindo menor velocidade de processamento e memória reduzida. Ensaios clínicos com suplementação mostraram benefícios modestos em tarefas cognitivas específicas — principalmente em situações de privação de sono e em indivíduos vegetarianos.

Isso levou alguns pesquisadores a sugerirem que a creatina possa ser considerada um nutriente “condicionalmente essencial”: o corpo produz, mas nem sempre em quantidades ideais para todos os contextos.

Ainda assim, os resultados não são uniformes, e os efeitos cognitivos não são tão robustos quanto os observados no desempenho muscular.

Suplementar é necessário?

Não necessariamente. O fato de parte da população consumir menos creatina do que o estimado como ideal não significa que todos devam iniciar suplementação.

Antes de recorrer a cápsulas ou pó, o primeiro passo é avaliar a própria alimentação. Pessoas que consomem regularmente carne e peixe podem atingir níveis adequados sem dificuldade. Já indivíduos mais velhos, atletas, trabalhadores com alta demanda física ou mental — como militares, bombeiros ou profissionais submetidos a privação de sono — podem se beneficiar mais.

A creatina é uma das substâncias mais estudadas na nutrição esportiva, ao lado da cafeína, e doses entre 3 e 5 gramas por dia são consideradas seguras para adultos saudáveis. Porém, recomendações populacionais amplas ainda dependem de mais estudos de longo prazo.

Um nutriente discreto na transição alimentar

A discussão também dialoga com a transição para dietas mais baseadas em vegetais, motivadas por questões ambientais e de saúde cardiovascular. Esses padrões alimentares trazem benefícios claros, mas exigem atenção a nutrientes menos evidentes — como vitamina B12, ferro e, possivelmente, creatina.

Isso não invalida dietas vegetarianas ou veganas, mas reforça a importância de planejamento nutricional.

No fim das contas, a creatina pode estar se tornando protagonista de uma conversa maior: como equilibrar sustentabilidade, saúde e necessidades fisiológicas em um cenário alimentar em transformação.

Nem todo mundo precisa suplementar. Mas entender o contexto individual pode fazer toda a diferença.

 

[ Fonte: The Conversation ]

 

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