Basta alguns minutos nas redes sociais para encontrar alguém recomendando um suplemento para dormir melhor, ganhar músculos, melhorar a memória ou deixar a pele mais bonita. Creatina, magnésio, colágeno, ômega-3 e vitamina D aparecem como soluções para quase tudo. Mas quanto disso é ciência e quanto é apenas marketing? Para a médica e divulgadora científica Sara Marín, alguns suplementos podem ter utilidade real, desde que usados no contexto correto.
A creatina deixou de ser assunto exclusivo das academias

Entre os suplementos, a creatina ocupa posição de destaque.
A substância é produzida naturalmente pelo organismo e também pode ser obtida através da alimentação. Sua função está relacionada à disponibilidade rápida de energia para as células, especialmente aquelas com grande demanda energética, como músculos e cérebro.
Por muito tempo, porém, a creatina ficou associada quase exclusivamente a atletas e praticantes de musculação. Essa visão vem mudando à medida que pesquisadores investigam possíveis aplicações além do desempenho esportivo.
A médica explica que os níveis corporais podem diminuir naturalmente com o envelhecimento e destaca que a suplementação vem sendo estudada também por seus possíveis efeitos sobre funções cognitivas, especialmente em determinadas condições de estresse ou privação de sono.
A faixa normalmente utilizada em suplementação diária costuma ficar entre 3 e 5 gramas, embora a necessidade individual deva ser avaliada de acordo com cada pessoa.
Outro mito frequente envolve os rins. Em pessoas saudáveis, as evidências disponíveis não sustentam a ideia de que doses recomendadas de creatina provoquem danos renais. Ainda assim, quem possui doença renal ou outras condições clínicas deve buscar avaliação profissional antes de utilizar suplementos.
A creatina também pode provocar aumento de água dentro das células musculares. Isso não deve ser confundido automaticamente com uma retenção de líquidos generalizada pelo organismo.
Magnésio e ômega-3 também exigem contexto

O magnésio é outro suplemento que ganhou enorme popularidade, principalmente entre pessoas que procuram melhorar o sono ou reduzir sintomas associados ao cansaço.
O mineral participa de centenas de processos bioquímicos e está relacionado ao funcionamento muscular e nervoso, à produção de energia e à saúde óssea.
Sara Marín chama atenção para uma característica interessante: medir o magnésio apenas no sangue nem sempre oferece uma fotografia completa dos estoques corporais, já que grande parte do mineral está localizada nos ossos e tecidos.
Isso, entretanto, não significa que todos devam suplementá-lo indiscriminadamente.
A alimentação continua sendo uma fonte fundamental, com alimentos como sementes, oleaginosas, leguminosas, vegetais verdes e cereais integrais contribuindo para a ingestão do mineral.
O mesmo princípio vale para outros suplementos populares.
O ômega-3 pode ser considerado em situações específicas, enquanto nutrientes como ferro, vitamina D e vitamina B12 podem exigir suplementação quando existe deficiência ou necessidade aumentada identificada por avaliação clínica.
É justamente nesse ponto que a tendência das redes sociais encontra um problema: transformar necessidades individuais em recomendações universais.
E o colágeno realmente deixa a pele melhor?

Poucos suplementos conquistaram tanto espaço nas prateleiras quanto o colágeno. Pós, cápsulas e bebidas prometem benefícios que vão da pele às articulações.
A realidade científica é mais complexa.
Sara Marín ressalta que existe discussão sobre a magnitude dos benefícios, mas considera que o colágeno hidrolisado pode funcionar como complemento em alguns contextos.
Alguns estudos sugerem possíveis melhorias discretas na hidratação e elasticidade da pele, além de potenciais efeitos sobre dor e função em pessoas com osteoartrite.
Isso não transforma o suplemento em uma solução milagrosa.
Quando o objetivo é preservar a qualidade da pele, medidas básicas continuam tendo importância muito maior. Proteção contra exposição solar excessiva, alimentação adequada, atividade física e outros hábitos cotidianos exercem influência relevante sobre a saúde ao longo do tempo.
O colágeno, portanto, pode ocupar o papel de complemento, e não de protagonista.
Essa distinção vale praticamente para toda a indústria de suplementação.
O maior erro pode estar em tomar suplementos por conta própria
O fato de um produto ser vendido como suplemento alimentar não significa que seja automaticamente seguro em qualquer dose ou combinação.
Alguns nutrientes podem provocar efeitos adversos quando consumidos em excesso, enquanto outros podem interagir com medicamentos ou ser inadequados para determinadas condições de saúde.
Sara Marín cita justamente esse risco ao defender acompanhamento profissional antes da suplementação. Pessoas que utilizam medicamentos, possuem doenças crônicas, estão grávidas ou apresentam condições específicas precisam de atenção ainda maior.
Também é importante desconfiar da ideia de que um suplemento consiga compensar permanentemente hábitos ruins.
Nenhuma cápsula substitui uma alimentação equilibrada, assim como um pó adicionado ao café da manhã não elimina a importância de atividade física, descanso adequado e uma rotina alimentar capaz de fornecer fibras, proteínas, vitaminas e minerais.
Essa talvez seja a parte menos atraente para vídeos virais, mas também uma das mais importantes.
Creatina, magnésio, ômega-3 ou colágeno podem ter utilidade em circunstâncias específicas. A diferença está em entender quem realmente precisa, em qual quantidade e com qual objetivo.
No fim, suplementos fazem exatamente aquilo que o nome sugere: complementam. Quando a base da saúde não está bem construída, dificilmente será um pote comprado por influência das redes sociais que resolverá o problema.
[Fonte: rtve]