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Nem drogas nem cigarros: um produto inesperado virou protagonista das apreensões na fronteira brasileira

Uma nova mercadoria está ganhando espaço nas apreensões realizadas na fronteira brasileira, impulsionada por preços atraentes, procura crescente e um mercado clandestino cada vez mais sofisticado.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Celulares, cigarros e drogas costumam dominar o imaginário quando o assunto é contrabando nas fronteiras brasileiras. Mas os números de 2026 revelam uma mudança inesperada nessa lista. Um tipo de produto associado a uma das maiores tendências recentes de saúde e consumo passou a aparecer em quantidades impressionantes nas fiscalizações, escondido em lugares improváveis e movimentando um negócio que cresce rapidamente.

Um novo protagonista aparece nas apreensões brasileiras

Nem drogas nem cigarros: um produto inesperado virou protagonista das apreensões na fronteira brasileira
© Haberdoedas – Unsplash

Os medicamentos utilizados para diabetes e controle de peso, especialmente aqueles à base de semaglutida e tirzepatida, tornaram-se um dos principais alvos das apreensões realizadas na fronteira entre Brasil e Paraguai.

Somente no primeiro semestre de 2026, a Receita Federal apreendeu 76.112 canetas, ampolas e outros formatos contendo essas substâncias. O número chama atenção principalmente quando comparado ao registrado durante todo o ano anterior.

Em 2025, foram confiscadas 24.994 unidades. Isso significa que, em apenas seis meses de 2026, as apreensões já ultrapassaram em mais de três vezes o volume acumulado ao longo dos 12 meses anteriores.

A principal rota identificada pelas autoridades passa por uma região bastante conhecida do comércio fronteiriço: a ligação entre Foz do Iguaçu, no Paraná, e Ciudad del Este, no Paraguai, através da Ponte da Amizade.

E existe uma razão econômica bastante clara para explicar por que esse mercado ganhou tamanho tão rapidamente.

A diferença de preço ajuda a explicar o fenômeno

O contraste entre os valores encontrados nos dois lados da fronteira cria um incentivo considerável para a entrada irregular desses medicamentos no Brasil.

Segundo dados citados pela CNN en Español, uma ampola de tirzepatida, substância utilizada no tratamento do diabetes tipo 2 e também associada ao controle de peso, pode custar aproximadamente R$ 340 no Paraguai.

No Brasil, o Mounjaro, medicamento que utiliza tirzepatida como princípio ativo, pode ser encontrado a partir de aproximadamente R$ 1.400.

Essa diferença ajuda a transformar um produto relativamente pequeno e fácil de transportar em uma mercadoria atraente para o comércio irregular.

Flávio Bernardino de Carvalho, auditor fiscal da Receita Federal, afirmou que os medicamentos para emagrecimento já aparecem na segunda posição em valor entre as apreensões realizadas em sua região, ficando atrás apenas dos celulares.

O cenário também não estaria restrito a grandes esquemas organizados. Segundo a fiscalização, tanto grupos criminosos quanto pessoas agindo individualmente participam desse fluxo.

Mas os números registrados na fronteira representam apenas uma parte de uma transformação muito maior no mercado brasileiro.

A procura por medicamentos GLP-1 explodiu em 2026

Nem drogas nem cigarros: um produto inesperado virou protagonista das apreensões na fronteira brasileira
© Marta Branco – Pexels

A escalada das apreensões ocorre paralelamente ao aumento extraordinário do interesse por medicamentos relacionados aos chamados agonistas de GLP-1, categoria que ganhou enorme visibilidade nos últimos anos.

Um levantamento da Serasa Experian registrou 1.364.354 pedidos online relacionados a esses medicamentos entre janeiro e junho de 2026.

No mesmo intervalo de 2025, haviam sido contabilizados 547.249 pedidos.

O salto foi de 149,3% em apenas um ano. O valor total das solicitações ultrapassou R$ 2,3 bilhões, dimensão que ajuda a entender por que esse mercado também passou a despertar o interesse de redes clandestinas.

Outro sinal preocupante aparece fora das lojas tradicionais.

Uma pesquisa publicada na revista científica Ciência & Saúde Coletiva identificou crescimento nas buscas online por produtos destinados ao emagrecimento que não possuem autorização sanitária. Entre junho de 2025 e janeiro de 2026, determinados produtos analisados pelo estudo registraram aumento semanal agrupado de 6,29% nas pesquisas.

Quanto maior a procura, mais espaço surge para vendedores informais, ofertas em redes sociais e produtos cuja origem ou composição pode ser difícil de verificar.

De frascos de shampoo a solas de tênis

As tentativas de atravessar a fronteira também estão ficando mais criativas.

A Receita Federal já encontrou medicamentos escondidos dentro de frascos de shampoo, embalagens de gel e solas de tênis, além de compartimentos vazios ou adaptados em veículos.

Ônibus, carros, caminhões e até turistas têm sido utilizados no transporte, segundo informações reunidas pela investigação da CNN.

O tamanho reduzido das canetas e ampolas facilita a ocultação, enquanto o alto valor comercial permite transportar quantias relevantes ocupando pouco espaço. É uma combinação bastante diferente daquela observada em mercadorias volumosas tradicionalmente associadas ao contrabando.

O problema vai além da evasão fiscal. Medicamentos transportados irregularmente podem ficar fora das condições adequadas de armazenamento e refrigeração, além de existir o risco de falsificações ou produtos sem procedência confiável.

Por isso, o avanço desse mercado já colocou as autoridades brasileiras em alerta.

A fiscalização agora olha também para as redes sociais

Nem drogas nem cigarros: um produto inesperado virou protagonista das apreensões na fronteira brasileira
© Maddi Bazzocco – Unsplash

O crescimento acelerado das apreensões está levando o Brasil a ampliar sua atenção para além das pontes, estradas e postos de fiscalização.

Uma das frentes consideradas é justamente acompanhar com maior atenção a oferta desses produtos pelas redes sociais, onde medicamentos podem ser anunciados diretamente aos consumidores e circular por canais menos tradicionais.

A transformação ajuda a mostrar como o contrabando consegue acompanhar rapidamente novas tendências de consumo. Quando um produto passa a ser muito procurado e existe uma diferença expressiva de preços entre países vizinhos, surge também um mercado disposto a explorar essa oportunidade.

Em 2026, as apreensões na fronteira com o Paraguai mostram que essa dinâmica encontrou um novo protagonista. Pequenas canetas e ampolas que cabem facilmente em uma bolsa, um veículo ou até na sola de um tênis passaram a movimentar números grandes o suficiente para disputar espaço com mercadorias historicamente associadas ao contrabando brasileiro.

[Fonte: t13]

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